“É esse interesse dos mais novos, a forte ligação com o público entendido como muitas pessoas e não como número de espectadores sem cara, que nos faz continuar a trabalhar e apesar de todas as dificuldades nos quis levar a programar (e oxalá se cumpra) um ano dedicado a alguns dos maiores textos dramáticos de todos os tempos nunca abordados por nós, mas que qualquer pessoa, todos, deviam conhecer por representarem duas das mais belas expressões da grande mudança na história do pensamento humano que precedeu o fim da aristocracia: o D. João de Molière e o Hamlet de Shakespeare. No entanto, por razões decorrentes das disponibilidades do elenco, o D. João ainda vai ter de ficar adiado. Faremos no entanto o Hamlet na tradução de Sophia de Melo Breyner Andresen, nunca representada, mas que ela ao longo de muitos anos foi fazendo e de que tantas vezes falou ao Luis Miguel Cintra. A Companhia de Teatro de Almada aceitou o desafio de o co-produzir.
Assim, como alternativa para o Dom João, que fica à espera, baseados quase no mesmo elenco e dando sequência ao trabalho persistente e admirável da pequena equipa do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa dirigida por José Camões (que pôs online e com utilização livre todo o teatro de autores portugueses dos seculos XVI e XVII), levaremos à cena um espectáculo em honra de Lisboa, cruzando cenas dos muitos autos vicentinos e pós-vicentinos de referência Lisboeta. Chamar-se-á Lisboa Famosa, Portuguesa e Milagrosa em honra de Santo António, lisboeta casamenteiro. Há uma inesperada e desconhecida qualidade em muitos desses textos, por vezes com humor, outras com alguma violência, como por exemplo nas alusões à corrupção. E uma quase trágica grandeza como por exemplo no confronto da figura da Cidade de Lisboa com a personificação da Fome. São por vezes cenas excelentes em que reconhecemos velhos tipos da Lisboa de sempre, e sobretudo a mesma contradição entre uma cidade familiar e uma cidade que quer ser uma grande capital. Neste momento já trabalhamos neste projecto que estreará no Teatro do Bairro Alto, no dia 5 de Fevereiro.
Ainda trabalharemos outro texto que ficou suspenso da programação do ano anterior, também repescado do teatro de cordel e da investigação de José Camões: Narciso ou o Namorado de si mesmo, na tradução portuguesa anónima da peça de Jean-Jacques Rousseau. Devia ter sido um dos exercícios finais do ano passado para 6 finalistas da ESTC e por razões várias não se chegou a realizar. Mas sendo um texto tão interessante e que se presta a um trabalho em profundidade com jovens actores, vamos fazê-lo este ano como um Atelier de Formação de Actores que decorrerá no Teatro do Bairro Alto. E que terminará com uma apresentação pública sumária.
E por fim estrearemos o Hamlet na sala grande do Teatro Municipal de Almada, em Julho, a abrir o Festival, para vir a ser depois do Verão apresentado em Lisboa em Setembro/Outubro no nosso Teatro do Bairro Alto e em Outubro/Novembro de novo em Almada. Para além da tradução de Sophia que, como seria de esperar, confere ao texto traduzido uma clareza e uma limpidez admiráveis, a encenação aposta justamente num elenco particularmente inexperiente para representar aquele grupo de jovens nobres, Hamlet, Laertese, Ofélia, Horácio, presas de um círculo de cínicos adultos, de políticos corruptos. O príncipe será representado por Guilherme Gomes, o actor recém-formado que na temporada passada interpretou com a Cornucópia o papel titular do Íon de Eurípides ao lado de Luisa Cruz e João Grosso.
Na sequência do projecto ILUSÃO que integrava 59 actores não profissionais, formou-se espontaneamente um pequeno grupo de teatro cujo projecto A Ideia é apenas uma Ideia queremos apresentar na sala do Teatro da Cornucópia, ao longo de duas semanas, incluindo uma sessão com os espectadores presentes, com Luis Miguel Cintra e Cristina Reis, no sentido de analisar o trabalho apresentado.
Será o ponto de partida para uma acção de contacto com o público/ Diálogo aberto com os espectadores, com carácter regular, de cuja organização este grupo se encarregará. À medida que no decorrer da temporada do TC cada espectáculo for sendo preparado, faremos alguns ensaios abertos em que contaremos ao público o que se vai passando.”