Ontem, o presidente da república falou ao país. Desejou a todos um bom ano de 2015. Mas no seu discurso encontram-se os traços das grandes contradições que têm dilacerado o nosso país ao longo dos anos. Começa o presidente por recordar que em 2014 se assinalou o 40º aniversário do 25 de Abril de 1974, que nos trouxe a liberdade e a democracia. A seguir diz-nos que uma democracia consolidada requer o pluralismo e a liberdade de opiniões. E logo a seguir indica os limites para a acção política em Portugal. Transcrevemos:
Atualmente, é consensual que só através de uma estratégia orientada para a competitividade das exportações, para a atração de investimento e para a criação de emprego será possível vencermos os desafios do futuro.
Uma estratégia acompanhada do controlo das contas públicas e do endividamento externo.
Esta estratégia foi a que nos conduziu ao abismo em que nos encontramos. Sob a capa do cumprimento dos tratados europeus e do pagamento dos encargos contraídos, levou-nos o governo apoiado por Cavaco Silva a uma situação ainda mais grave que a que herdou do seu antecessor. Basta deitar um olhar aos números principais da vida económica. A dívida pública aumentou, e vai continuar a aumentar, até porque a dívida privada tem propensão a tornar-se pública, sobretudo quando se trata da dívida de bancos e de outras entidades, que são consideradas como de interesse sistémico ou que não podem abrir falência. As exportações têm subido e descido, assim como o crescimento. E as primeiras têm crescido por vezes exportando aquilo que faz falta no mercado interno (veja-se o gritante caso dos fármacos). O segundo é afectado por muitos factores, entre eles por aquilo a que se chama as privatizações (destas o presidente não fala), isto é, a liquidação dos recursos nacionais. O desemprego, oficialmente em decréscimo, está a ser ocultado pelos contratos de emprego-inserção, pelo número crescente de pessoas que desistiram de procurar emprego, e pela emigração.
Apontar esta estratégia como baliza para a acção política é acabar com o pluralismo, e a democracia em Portugal. É cair em contradição com o que disse inicialmente. Mas a contradição não é só do presidente. É de todas as forças políticas que se guindaram ao poder. E que querem lá continuar. Quem fica de fora são os portugueses. Pelo menos 99%. É pena que alguns ainda não tenham dado por isso. Mesmo os que votam no bloco central (alguns chamam-lhe a grande direitona) e seus apoiantes.
Ah, o presidente, pela primeira vez falou no combate à corrupção. Disse que é uma obrigação de todos.