GIRO DO HORIZONTE-2015 – por Pedro de Pezarat Correia

 

 

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            E entrámos em 2015. Com frio no ambiente e gelo na alma.

            E há sempre as mensagens de Ano Novo que trocamos uns com os outros, autênticas porque transmitem sentimentos genuínos, afetos desinteressados, votos solidários. Como estes que vos remeto. Mas que não está nas nossas mãos concretizar.

            Ao invés há as mensagens institucionais, dos que são responsáveis pela nossa vida coletiva. Daí seria normal aguardarem-se não apenas bons votos, mas boas novas. Delas se encarrega, tradicionalmente, a figura cimeira do Estado, o presidente da República.

            Acontece que, desafortunadamente, a personalidade que atualmente ocupa o cargo em Portugal, não nasceu para mensageiro de esperanças e de boas novas. E aqui, se o épico mo permite, não tanto por má fortuna mas por erros nossos, porque fomos nós, o coletivo que somos, quem o escolheu, beneficiando da ambição de uns, da demissão de alguns e da ingenuidade de muitos.

Disseram articulistas vários que a mensagem de Cavaco Silva não ficará na História. Seguramente que não, como as anteriores. Mas a sua frieza ainda nos gela.

Já adivinhávamos o que viria no seu conteúdo, a colagem ao executivo que nos desgoverna, a identificação com as opções “austeritárias” da troika e do pós-troika, a justificação da recusa de qualquer assomo de ousadia, a insistência nas banalidades apelativas ao consenso em apoio da maioria, a repetição sistemática do “eu bem avisei”.

Mas pior foi a forma. Hirto, um vinco de indisfarçável tensão incapaz de atrair alguém para um ambiente de descontraído convívio. Frio, não conseguindo transmitir o menor sinal de calor humano portador de conforto. Ausente e distante dos que supostamente seriam objeto da sua comunicação porque, fixado na proximidade da câmara, tem como único interlocutor o power-point, bloqueando a projeção de qualquer empatia para além dele. Desconfiado, inseguro, não mobiliza, não motiva quem quer que seja para os desafios que ele próprio anuncia. Triste, durante aqueles penosos e infindáveis oito minutos, não esboça um sorriso, uma expressão de simpatia, um olhar afável, um gesto conciliador. Confesso que aquela mensagem magoou a minha sensibilidade.

Vem-me à memória um amigo que, há bastante tempo, noutro contexto, comentava com ironia cáustica as análises políticas de um outro amigo. E é parafraseando a sua figura de retórica que eu, numa linguagem apesar de tudo menos vernácula, diria que continuo a encarar com alguma perplexidade a perfeição da natureza, porque há três mistérios humanos para os quais continuo a não conseguir descortinar a utilidade, a saber, as mamas do Homem, os testículos do Papa e as mensagens presidenciais de Cavaco Silva. Se alguém puder e quiser, que me ajude.

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Na mensagem presidencial não houve, naturalmente, qualquer referência à privatização da TAP que, aliás, o presidente acabara de promulgar.

Muitos chamam-lhe um crime contra o interesse nacional. Há várias campanhas de cidadania contra mais esta alienação do nosso património e, entre elas, destaco o manifesto “Não à venda da TAP”, que subscrevi, com o qual me solidarizo e que tem tido, em António Pedro de Vasconcelos, o seu principal dinamizador e rosto mais visível. Pretende-se desencadear um movimento cívico de grande dimensão, no plano político, no plano mediático, no plano cultural e no plano da mobilização popular, que possa desembocar numa proposta de Referendo e, assim, conseguir travar a privatização da TAP e pôr fim à sangria das abdicações de setores económicos que são estratégicos para a nossa soberania.

A mobilização tem constituído um notável sucesso mas é indispensável que prossiga, cresça, se fortaleça, até se tornar um sobressalto cívico de dimensão avassaladora, que apoie os trabalhadores da TAP na sua luta e impeça estes “vendilhões” de fechar o seu mandato com mais esta vergonhosa sujeição a imposições externas.

Pode ser um excelente início de 2015.

5 de Janeiro de 2015

 

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