CARTA DE ÉVORA – «Fui ao Jardim da Celeste…»- por Joaquim Palminha Silva

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            É difícil, sem sombra de dúvida, e em sua feição nobre, determinar o que mais se mantém na memória sem ter sofrido a degradação do tempo e as limitações do envelhecimento físico… É que ontem vi a Gertrudes, minha companheira de infância… E a infância desdobrou-se-me na memória… Assim…

            Quem desce até à memória da Escola Primária? Logo que lá chegamos encontramos um círculo desenhado no chão do pátio do recreio, onde os rapazes lançavam o pião… Meninas de um lado e meninos de outro, “moral e costumes” correntes não permitiam misturas… A Escola lá estava à minha espera num recanto esquecido da memória… E o recreio, intervalo autorizado entre aula e aula, onde se atiravam ao vento gargalhadas, gritaria por uma pá velha e a plenos pulmões a lenga-lenga: – «Um, dois, três, macaquinho do chinês!». Feita a roda das meninas, lá vinha a cantiga floreando pelos ares: «Fui ao Jardim da Celeste, giroflé, giroflá… Giroflé, flé, flá…»; «…ó Senhor Barqueiro, deixai-me passar, tenho filhos pequeninos…».

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            Firme no entranhado pensamento das recordações de criança, é sobre o particular encanto das «rodas» de meninas (com meninos às vezes, com autorização das donas da brincadeira!), por exemplo no Jardim Público da cidade, de mãos dadas e rodopiando num cordão circular de anseios ingénuos pelos serões de Verão, que ainda consigo escutar dentro da memória o estreme cantar das composições singelas, vindas de doces e persuasivas certezas…

«Rei

Capitão,

Soldado,

Ladrão,

Menina bonita

Do meu coração».

*

«Lagarto pintado,

quem te pintou?

Foi uma velha

que por aqui passou.

No tempo da eira

fazia poeira,

puxa lagarto

por esta orelha.».

                Eu sei que com o rodar do tempo o cancioneiro popular da infância, se assim o posso chamar, começou a transpirar outras «modas» e, naturalmente, a fazer o seu registo. Mas que registo (meu Deus!) será esse, de ver crianças a decorarem canções medíocres e trejeitos estapafúrdios dos “artistas” vulgares, que andam pelas romarias do Minho ao Algarve a abanar o rabo e gritar brejeirices de rima fácil?!

            Depois disto, silenciou o cancioneiro popular da infância? … Talvez… Para que assim sucedesse seria necessário que a vida cultural e social não fosse dinamismo puro, sujeito a perpétuo e imprevisível devir … Outras formas de registo popular nos devem fornecer as “novas tecnologias”, além (esperamos!) da solução ansiada de outros problemas…

            Os cabelos brancos da Gertrudes falaram assim à minha memória… Perdoem a pouquidão desta carta, com cronologia própria, mas que os reveses da vida, vá lá o galicismo, ne mordent pas

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