OS MEUS DOMINGOS – OS ESPECIALISTAS – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)
(conclusão)

III

 

Encontrei-o há quinze dias totalmente desolado.

Tentara subir a calçada da Glória, levado numa padiola por quatro galegos, pois o elevador, onde de princípio quisera tomar lugar, tinha declarado terminantemente ao guarda-freio:

– Se me obrigam a levar este tipo, eu chego ali acima e meto para o Fala Só.

Baeta tivera que se apear e aqueles quatro galegos, ajustados a peso de ouro, tinham-no trazido até ao largo da Oliveirinha, mas aí tinham desistido.

– Baia, – exclamara o leader, – uma pexôa num é nenhum Roll Royce para alombar cum este paquiderme!

Baêta estava perplexo e meio decidido a matricular-se como interno na Escola Académica e aí terminar os seus amargurados dias.

– Porque não mandas chamar um especialista? – perguntei eu, que sou seu amigo de infância.

– Estás louco! Para voltar ao passo ginástico, aos banhos de lama, aos choques eléctricos, ao brometo e ao puré de feijão? Tu não vês que isto é um círculo vicioso?

– Não vás ao especialista do pé coxinho. Vai a outro. Olha: ouvi falar dum que trata a obesidade feculenta e sinfónica pela equitação.

– Ah! Sim? Vou experimentar.

Reflectindo um pouco, Baeta, que tem para as picarias a vocação de uma escova de dentes, perguntou-me se não poderia praticar no carroussel da feira da Avenida a arte de que D. Duarte deu tão sobejas provas.

Respondi-lhe que essa engenhoca onde as forças centrífuga e centrípeta travam um violento combate nunca fizera emagrecer senão os seus incautos arrendatários.

Baeta ficou de ir onde eu o mandara e no outro dia, pelo telefone, comunicou-me que estava encantado com o seu novo médico. Este não lhe receitara uma equitação vulgar. Escrevera-lhe uma página inteira de recomendações, explicando as horas de passeio, o número e duração dos tempos de passo, trote e galope, os exercícios de saltos, etc.

Ante ontem, alguém me disse que o meu velho amigo estava muito melhor. Em vinte e quatro horas diminuíra sessenta quilos. Fiquei pasmado e quis ver com os meus próprios olhos. Corri a casa de Baeta. Era verdade. Caíra do cavalo abaixo no largo do Rato, fracturara uma perna em três sítios e um colega do especialista amputara-lha pela nádega. Por aquele andar daqui a pouco o Baeta pesa setecentos gramas.

 

13 de Maio de 1923

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Para ler a parte II de Os Especialistas, de André Brun, publicada no domingo passado, 4 de Janeiro de 2015, em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2015/01/04/os-meus-domingos-os-especialistas-por-andre-brun-2/

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