O «homem é a única criatura
que se recusa a ser o que é»
– Albert Camus in, O Homem Revoltado.
A revolta é um sentimento de insatisfação isolado ou contínuo. Pode exprimir-se num gesto, constituir-se numa atitude ou posição face ao que se quer contrariar. Pode, inclusive, determinar uma acção direta, imediata ou não.
A revolta é a escolha daquele que foi impedido de escolher. Atitude ou gesto, a revolta manifesta-se perante o arbitrário da vida que, como se sabe, é sempre uma contínua prepotência social para o ser isolado, para o eu.
Enquanto a revolução é exclusiva da História e tem os dias contados pelos adeptos das ideologias colectivistas, a revolta está ao alcance de todos e só precisa de um acto individual de vontade para se exprimir, de forma a acontecer na realidade espiritual e material da vida.
Cada revolução tem sempre como objectivo impor a sua Ordem à Ordem estabelecida, naturalmente através de uma falsa-desordem. Porém, seja qual for a revolução, trata-se sempre de um movimento de vanguardas condutoras que, após a tomada do Poder serão conservadoras. O fim da revolução é “fazer parar” o processo histórico da sociedade, de modo a conduzi-la até um estado pré-determinado e, depois, conservá-la dentro do caminho imaginado, “planificando-lhe” a velocidade de andamento e procurando controlar-lhe os eventuais desvios. Nesta ordem de ideias, a revolução comandada pelas ideologias é a negação da mudança a longo termo, ainda que este tipo de revolução se apresente, nos seus tempos heroicos, como potencial motor de inovação revolucionária, e o possa mesmo ser efectivamente…
A revolução recruta e arregimenta revolucionários, isto é, agentes da nova Ordem, mas nunca terá nas suas fileiras verdadeiros revoltados. – A soma das revoltas individuais nunca deslizará para a revolução. Entretanto, a revolução não aceita de bom grado a presença da revolta individual no seu seio, dado que esta nunca fica quieta, satisfeita e confortada.
Na verdade, a revolta dependa da capacidade de indagaão de cada um, da consciência que tiver sobre a impossibilidade de viver a sua vida segundo os seus desejos, por pacíficos e fraternos que eles sejam.
A revolta permanente contra a sociedade e o Poder estabelecido, é um estado de espírito de contínuo alerta, por isso de grande tensão e desgaste. Tem-se verificado porém que, se está ao alcance de todos, só uma minoria tem conseguido praticá-lo com coerência: – Profetas e Santos… Poetas e Anarquistas!
Normalmente, o cidadão comum revolta-se a conta-gotas, com intermitências. Mas nunca permanece no estado de revolta completamente, sem descanso. A revolta esporádica, assim, levada a efeito é, pois, um desejo de reconciliação disfarçado. A revolta permanente é a forma de estar na vida do ser insatisfeito, do verdadeiro revoltado!
Seja como for, aqui se declara que a revolta é fácil, está ao alcance de todos. Não é necessário despender tempo nem ocupar espaço para a alcançar. Mesmo assim, poucos a querem pôr em prática.
A revolta exige permanente lucidez, sobretudo exige espírito crítico contínuo, e isso cansa!- Por isso, a revolta acaba por ser a maioridade de cada ser!
A revolta ensina que o Homem não é, não pode ser aquilo que a sociedade impõe que ele seja. O Homem não nasceu para obedecer! – Pode aceitar regras, por necessidade de diálogo com o seu semelhante, mas reivindica o direito de viver para si próprio e não para ser animal doméstico, aborregado ao redil.
A revolta anuncia uma grande verdade: – Quem se cansa de ser revoltado, cansou-se de viver a sua vida, fartou-se de ser ele próprio.

