VIVAS À CRISTINA – por Nuno Santa Clara Gomes

 

Da Associação 25 de Abril, recebemos este texto do militar de Abril e membro da Direcção da A25A, Coronel Nuno Santa Clara Gomes, que, com os nossos agradecimentos, transcrevemos, bem como a nota introdutória do Presidente da A25A, Coronel Vasco Lourenço.

 

Apesar de ser dos que acreditam na teoria da conspiração – não me esqueço da minha atitude face ao ataque às “torres gémeas” – , desta vez ainda não “fui por aí… “
Mas, não acreditando em bruxas, “ o facto é que as há…”
Leiam mais um bom e pertinente texto do militar de Abril, e membro da Direcção da A25A, Nuno Santa Clara Gomes.

Cordiais saudações
Vasco Lourenço

Vivas à Cristina
Nunca fui adepto da Teoria da Conspiração – essa forma de raciocínio em que tudo deriva de tenebrosas cabalas, ocultas ligações e alianças espúrias, que explicariam o caminho que as coisas tomam. Decerto assim se encontra uma lógica para o caos aparente, mas essa forma tortuosa de encontrar razões e culpados sempre me pareceu demasiado rebuscada.
Por formação (ou deformação?) profissional, aceito com naturalidade a obra do acaso, essa componente aleatória que, para os que estudam a Natureza, está sempre presente. Sistemas planetários, sismos, erupções, evolução e mutação, todos esses fenómenos são regidos por tantas variáveis que o resultado terá sempre uma dose de imprevisibilidade.
Mas força é dizer que ninguém fica imune à Teoria da Conspiração.
Temos um bom exemplo no assassinato de John Kennedy. Um ano após os factos, quer os principais intervenientes, quer algumas testemunhas, já não contavam no mundo dos vivos. Daí a legitimar a Teoria da Conspiração, vai um passo – e muitos o deram.
Em terras de França, a desaparição de pessoas que muito teriam para contar é um fenómeno recorrente. Recordemos algumas.
Em 1934, uma criatura sem escrúpulos, Alexandre Stavsky, estava envolvido num escândalo de corrupção que implicava membros do governo socialista radical e autarquias da mesma cor. Stavsky, aparentemente, tentou fugir para a Suíça, mas foi encontrado morto perto da fronteira. Glosando com o relatório oficial, Le Canard Enchainé (jornal satírico homólogo do Charlie Hebdo) descreveu a morte como um suicídio com um tiro de pistola dado a três metros de distância; outros dizem que com três tiros pelas costas. De qualquer forma, é de artista!
O Almirante Darlan, n.º 2 do regime de Vichy, estava fins de 1942 em Argel, ao que parece por motivos particulares (doença de um filho), quando se deu o desembarque aliado (operação Torch). Representava a autoridade legal (não legítima) da França e a sua presença levantava problemas difíceis. Em 24 de Dezembro, um jovem de vinte anos matou-o; foi julgado no dia seguinte e executado no dia 26. Maior celeridade judiciária, impossível.
René Bousquet foi o chefe da polícia de Paris durante a Ocupação, e colaborou ativamente (entre outras coisas) na caça aos judeus que acabou na sua deportação maciça para os campos de concentração alemães. Perseguido, amnistiado, readmitido (trabalhou vários anos com François Mitterrand), acabou por ser acusado por crimes contra a Humanidade em 1993. Foi então assassinado por um doente mental.
Aqui vale a pena estabelecer o paralelismo com o assassinado de Miguel Bombarda, psiquiatra de profissão, por um seu paciente, em 3 de Outubro de 1910 (véspera da revolução). No ideário republicano, ficou sempre a sombra da suspeita de uma morte encomendada.
Posto isto, vamos então à Cristina.
A expressão “dar vivas à Cristina” vem do tempo da Restauração, quando Portugal conseguiu uma vitória diplomática através do reconhecimento do Reino e assinatura de um acordo com o governo sueco. D. João IV determinou então que se fizessem grandes festejos, e que o povo fosse junto da embaixada sueca vitoriar a rainha Cristina. Assim se fez, e com grande efusão – embora esse mesmo povo não fizesse bem ideia de quem era a rainha Cristina, por sinal uma das personalidades mais interessantes do seu tempo. E assim ficou a expressão “dar vivas à Cristina”, no sentido de aplaudir não se sabe bem o quê.
No rescaldo do universalmente condenado atentado ao Charlie Hebdo, não obstante estar inteiramente de acordo com essa atitude, e com a pronta (e sem olhar a economia de meios) perseguição dos criminosos, que terminou com a morte de todos eles, surge agora a notícia do suicídio do polícia encarregado da investigação do caso. De depressão, ao que se sabe. Galopante, diriam os cínicos.
E disto fica como que um travo (un arrière petit goût, diriam os franceses) de ter andado a dar vivas à Cristina…

Nuno Santa Clara

Leave a Reply