* Médico cardiologista
Nunca se viu tal caos e tal incompetência nas urgências hospitalares. Nem nos tempos passados nem nos tempos que antecederam este miserável governo. Não é só o tempo de espera de horas sem fim mas a notória incompetência com que um doente é atendido numa urgência. Incompetência cujas causas são conhecidas, embora não caiba aqui a sua explicação. Claro que não se incluem neste juízo os agentes de saúde, sábios e competentes nas suas funções, que ainda se encontram. Sabemos por experiência própria que não é fácil aos poucos médicos de uma urgência, tantas vezes inexperientes, carregada de macas nos corredores, ter um espírito sereno e calmo, factor indispensável ao bom e competente atendimento de um doente. Mas é profundamente lastimável o que acontece todos os dias. Ainda ontem. Um amigo meu fez uma tromboflebite aguda numa perna, que eu procurei resolver em sua casa com a minha experiência clínica de mais de meio século. A evolução foi muito favorável nos três primeiros dias. Surgiu, no entanto, uma dermatite de proximidade, que deu à perna um aspecto de agravamento da situação.
Como não é propriamente patologia da minha área, eu disse ao meu amigo: não é mau ires à urgência, só para que o colega da cirurgia vascular observe a tua perna, a fim de excluir sinais de tromboflebite profunda. Assim aconteceu. O meu amigo entrou na urgência às quatro horas da tarde e saiu às onze da noite, sem que ninguém da especialidade o visse, e com o diagnóstico de erisipela(!?), sem uma única referência ao problema de base: tromboflebite aguda. Nem sequer cheiraram o diagnóstico, tão simples e banal, o que é arrepiante. Felizmente o doente está melhor e a evolução parece muito favorável, o que não aconteceria se fosse um dos muitos casos fatais.
Com tudo isto pretendo dizer que este Governo é o único responsável pela destruição do SNS que tínhamos e pelas conceituadas carreiras médicas, reconhecidas em todo o mundo como das melhores. O único responsável por tantas mortes evitáveis. Um Governo irresponsável, criminoso, vendido sem a menor vergonha à execrável exploração da saúde, quando nela deveria investir como prioridade das prioridades. Um Governo que deveria sentar-se no banco dos réus. Ao ministro da saúde e aos membros do Governo deveria ser impossível recorrer, em caso de urgência, a qualquer outro local que não fosse o da urgência hospitalar de todos os portugueses.


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