PRAÇA DA REVOLTA – GOMES FREIRE DE ANDRADE NASCEU EM 27 DE JANEIRO – por Carlos Loures

Gomes Freire de Andrade e Castro nasceu no dia 27 de Janeiro de 1757  em Viena de Áustria e morreu em 18 de Outubro de 1817, executado no Forte de São Julião da Barra, perto de Oeiras. General português, combateu nas forças napolónicas e, derrotados os franceses, ao regressar a Portugal, veio a ser em 1817 implicado e acusado de liderar uma Gomes Freire de Andrade.jpgconspiração contra o poder real deD. João VI. Portugal estava então sob o governo militar britânico do marechal Bersford. Gomes Freire de Andrade foi preso, condenado à morte e enforcado (embora tenha pedido para ser fuzilado) por crime de traição à Pátria juntamente com outros onze oficiais do Exército. Na realidade, tendo combatido ao serviço de uma potência estrangeira, pode dizer-se que «traiu a pátria». Mas aqueles que o condenaram, obedecendo a um regente britânico, nomeado comandante em chefe do Exército português, não estariam também  a «trair a pátria»? A questão reduz-se a este princípio – quem vence é que determina quem é herói e quem é traidor. A verdade objectiva não interessa. Passados três anos sobre a execução destes «traidores», a Revolução de 1820 transformou-os em heróis assassinados às ordens do «cão inglês e dos traidores e sabujos portugueses».

Há tempos atrás, na Livraria Ler Devagar, na sessão de lançamento do site «Memoriando», dirigido pela Isabel do Carmo e pelo Carlos Antunes, o Carlos disse – « A história é sempre escrita pelos vencedores; a versão dos vencidos é, geralmente ignorada» e acrescentou, «as novas tecnologias, os sites, os blogues, a internet em geral, permite que mesmo aqueles que não ganharam, mesmo os vencidos, contem a sua versão dos acontecimentos». Isto é uma grande verdade, pelo menos enquanto os vencedores, ou seja, quem está no poder, não descubrir uma maneira de silenciar também estas vozes que, na rede, têm oportunidade de fazer passar a sua versão – a versão dos vencidos.

Referia-se o Carlos Antunes, naturalmente, à derrota do Poder Popular em 25 de Novembro de 1975 e à vitória daquilo a que na altura se chamou a “normalidade”. A normalidade prevaleceu e aí a temos, a normalidade de 20% de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, a normalidade da pedofilia e do tráfico de seres humanos, a normalidade da violência e do crime organizado, a normalidade da corrupção a todos os níveis da sociedade, a normalidade dos impostos, da especulação bancária, do enriquecimento súbito de alguns políticos – normalidade a rodos e para todos os gostos. Mas fomos derrotados, nós os que queríamos que as coisas fossem diferentes. Cometemos erros, por certo. Exagerámos por vezes? Sim, também.

Éramos anormais. Não queríamos que fossem estrangeiros a mandar em nós, não queríamos que os trabalhadores fossem explorados, não queríamos que os banqueiros nos roubassem, não queríamos pessoas a viver em bairros degradados, não queríamos as nossas crianças abandonadas á sua sorte e sujeitas a todo o tipo de violências, não queríamos os nossos jovens mergulhados na droga, fornecendo efectivos ao exército da marginalidade. Não queríamos «essa» a normalidade que a globalização encontrando terreno fértil na nossa endémica fragilidade económica, facilmente nos trouxe. Perdemos. E mesmo que ganhássemos em Novembro de 75, os que desejavam a «normalidade» não iriam desistir. Os “amigos” de Madrid, por exemplo, receberiam uma ordem dos “amigos” de Washington e viriam aqui, com a divisão Brunete e se ela não chegasse, viriam os camones com a sétima ou com a sexta esquadra, ajudar os “amigos” portugueses a repor a normalidade. Afinal para que servem os “amigos”?

Talvez daqui por muito tempo, quando já cá não estiver nenhum de nós, esta democracia antropofágica, que salvaguarda todas as “liberdades”, mas que espezinha a Liberdade, seja erradicada. Torna-se evidente que este conceito de democracia é profundamente antidemocrático – em torno do pensamento colectivo instala-se um círculo de fogo (marketing, opinion makers, a cartilha do politicamente correcto…) onde apenas há saída para esta forma padronizada de ver a realidade.

Lembram-se daquela peça do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt – A Visita da Velha Senhora? A poderosa velha chegava à sua aldeia natal,  onde fora humilhada e escorraçada na juventude. Queria vingar-se e ia conquistando adeptos para sua deletéria causa. Na excelente encenação de Luca de Tena, em 1960, para a companhia do D, Maria II, com Palmira Bastos no principal papel, todos os dias o número dos que a combatiam ia diminuindo e engrossando o grupo que a apoiava. A esses, a velha déspota oferecia uns sapatos amarelos. Em cada manhã, os resistentes deparavam com mais amigos que calçavam os malditos sapatos amarelos. É o que acontece a quem se quer opor a esta forma de pensar que aceita quase tudo. Só não aceita que a espécie humana dê o salto qualitativo de colocar o ser adiante do ter. E os sapatos amarelos não cessam de aumentar.

A biografia de Gomes Freire de Andrade? A do traidor pode ser encontrada em António Sardinha, Dia de S. Traidor – A revisão de um processo”, A Monarquia, 18 de Outubro de 1917. A do herói, escreveu-a Raul Brandão em 1817 – A conspiração de Gomes Freire. Referências em obras de Luz Soriano, Latino Coelho, António Ferrão… E uma bela peça do Sttau Monteiro – Felizmente há Luar.

1 Comment

  1. Portugal sempre foi e será o lugar mais perigoso do mundo para os portugueses que teimam em não esquecer, que um dia houve, existiu realmente um Povo Português!!!!!

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