A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
As ideias do Syiriza são “conto de crianças”, diz Passos Coelho enquanto Mariano Rajoy se apressa a dizer que Espanha não é a Grécia. Desacreditar a Grécia, transformando os gregos num povo que vive de expedientes, parece ser a forma encontrada para «explicar» a surpreendente vitória do Syiriza. A comunicação social acampou em Atenas. A RTP encarregou José Rodrigues dos Santos de nos contar como foi e ele vai enviando os seus despachos com o à vontade próprio de quem sabe o que faz. E parece saber…
Não tenho particular entusiasmo pelo trabalho profissional de José Rodrigues dos Santos. Como apresentador de Telejornal é mais um entre os muitos (diria quase todos, não diria todos) que não têm capacidade para se emancipar das “evidências” do pensamento dominante, nem preparação para colocar, em tempo oportuno, as questões essenciais às criaturas que soem perorar por aí, nas sua maioria (não totalidade!) igualmente incapazes. E, sim, profere algumas da asneiras de português hoje muito em voga no jornalismo falado e escrito, já que encontrar um jornalista no activo e que saiba português, em canais de TV ou de rádio, em jornais ou revistas, é tarefa quase (não totalmente!) impossível. O mais comum, no jornalista modernaço, é que conheça apenas a preposição “a”, ignore – nas formas verbais – o que é o Condicional, repita em coro quase uníssono com os outros oficiantes que alguém “é inocente” (atrasado mental, criança de mama?) e não “está inocente”, pronuncie “secüestro” e vomite, oralmente ou por escrito, mais umas centenas, senão milhares, de erros linguísticos crassos.
Acresce que sou incapaz de ler o “escritor” José Rodrigues dos Santos, porque não lhe reconheço talento nem oficina para atingir um mínimo de qualidade que permita seguir as histórias que inventa, ainda que fossem tão aliciantes como os seus fãs “acham”. Ler 2 ou 3 páginas de um livro de sua autoria impacienta-me (já fiz a experiência), porque se trata de péssima literatura, com vocabulário reduzido, sintaxe tosca e ausência total de preparação literária que lhe permita uma variedade mínima de recursos estilísticos, algo que evite, por exemplo, passar um capítulo inteiro a designar um transporte móvel, grandalhão e com rodas por, alternadamente, “camião” e “veículo”. O leitor que sou esgota a sua tolerância ao fim da décima alternância, isto em dia de sol aberto e excepcional boa-disposição: foi precisa uma atitude de dura militância para levar a cabo a experiência de ler um folheto, acoplado a uma revista que assino, com todo o primeiro capítulo de um dos seus livros, para ficar seguro de que não se tratava de má vontade, pois o rapaz acumulava veículos e camiões em barda pelo capítulo inteirinho.
Teria, pois, todas as condições para me associar ao clamor condenatório suscitado pelo seu trabalho na cobertura das eleições gregas.
Mas acontece que assisti, em directo e ao vivo, às suas principais intervenções.
E parece que tenho a sina de ser sempre do contra.
De facto, não creio que JRS tenha feito, na Grécia, um trabalho que se aproxime, sequer, da mediocridade que tanta gente se apressou a colar-lhe.
Pelo contrário, várias informações que recolheu e transmitiu assemelham-se-me assaz úteis a um conhecimento da realidade grega que tem andado arredia do que é divulgado pelos diversos “media” cá do burgo (e de outros burgos). A questão da pequena corrupção generalizada foi corroborada por gregos (todos apoiantes da hipótese de mudança representada pelo SYRIZA) presentes no programa “Prós e Contras”, bem como o pormenor de serem “muitos” os envolvidos em tal prática (o que é sempre, além de meramente condenável, um importante indicador da extensão e gravidade de uma crise política e económica e da quantidade de pessoas que afecta – ou não leram Günther Grass ou Heinrich Böll, nem viram filmes de Fassbinder, para ir directo ao sítio dos bons exemplos?). Não considero que JRS estivesse a tentar ter piada (nunca lhe notei qualquer semelhança com o ministro Lima das economias), nem mesmo quando se referiu ao antigo ministro da defesa “de lá” e ao facto de estar preso por causa de uma negociata relacionada com submarinos alemães, o que é capaz de ter incomodado uma quantidade de santas e puras almas “de cá”… E ainda menos quando afirmou e repetiu, de maneira certamente muito desagradável para qualquer daqueles economistas encartados e cientes da seriedade desta coisa das “dívidas” – que são para ser pagas, mesmo as de origens assaz duvidosas -, que a dívida grega era “impagável”, bastando a simples aplicação da Matemática para se chegar a tal (escandalosa!) conclusão… Quanto à interpretação de que terá tido a intenção de minimizar ou ridicularizar a escolha do eleitorado grego é, em meu entender, não só desatenta e superficial, como preconceituosa e ridícula.
Acontece que, além de comentar com a minha mulher (jornalista, que continua a sê-lo, pois reforma não é profissão) a boa surpresa do desempenho de JRS, também recolhemos, eu e ela, apreciações similares de amigos, igualmente jornalistas “dos antigos” e outros profissionais de comunicação social. Mais, todos (os com quem falámos, atenção!) consideraram que, entre os diversos canais de televisão, se tratou da melhor reportagem (a SIC não enviou a Cândida Pinto, talvez a única capaz de inverter a classificação, à parte alguns excelentes profissionais do serviço público, mas… sobretudo da rádio). Estranha coincidência de opiniões entre oficiais do mesmo ofício, críticos constantes e acérrimos opositores do jornalismo que habitualmente se perpetra, hoje em dia, e oscila, quase todo (não todo!) entre mau e péssimo…
Quanto a José Manuel Pureza, é alguém cujas opiniões há muito aprecio, bem como a forma como as expõe, em nada contribuindo para tal apreço a sua condição de professor universitário, que nada garante em termos de inteligência, cultura ou honestidade intelectual: o que me interessa é o que as pessoas dizem, a pertinência das análises que fazem, a clareza com que as expõem, a coerência das suas atitudes e da sua intervenção cívica.
Neste caso, porém, JMP cometeu o que para mim é um pecado de difícil penitência. Prezo muito o rigor e odeio (odeio mesmo!) a inexactidão, em particular quando mancha a reprodução de um texto ou intervenção oral de outrém. Admito que a maioria das pessoas que navega facilmente à superfície dos dias e dos acontecimentos, sem a preocupação de sondar as profundezas das águas que sulca, considere que não passo de um chato maniento. mas, pelo meu lado, não há volta a dar-lhe…
Ora, definitivamente, quando alguém diz “muitos”, não diz “todos”, por muitas cambalhotas e golpes de rins retóricos que se executem, para distrair o estimado público das manipulações do ilusionista em palco. Pelo que, a partir dessa deturpação, que JMP (e não só) comete, JRS aponta (e tem todo o direito de o fazer) e é, para a minha exigência de rigor, inadmissível, todo o raciocínio que se siga arrasta atrás de si o insuportável peso desse pecado original, que o prende completamente ao labéu do engano que transmite aos receptores dos argumentos que o acompanham. Todo o discurso que se erga sobre um dado errado fica debilitado e torna-se(-me) suspeito.
Parece-me que, neste caso, algumas pessoas resolveram partir da sua “superioridade intelectual” (legitimada ou não) para a classificação preconceituosa de um trabalho que classifico de profissionalmente escorreito. Nem todos são Adelino Gomes, Baptista Bastos, Cândida Pinto, José Manuel Rosendo e outros (felizmente houve e há mais) grandes profissionais do passado e do presente. No jornalismo, como em qualquer outra profissão, o número dos que se distinguem vai-se reduzindo à medida que a qualidade vai aumentando. Mas um trabalho honesto e esforçado de um bom repórter não pode ser denegrido por pressupostos deslocados e encharcados em confusas subjectividades.