AMIGOS PARA SEMPRE
Já aqui falei antes na Pirâmide, uma revista publicada entre 1959 e 1960, da qual fui um dos coordenadores. O primeiro número saíra em Fevereiro com colaboração inédita de, entre outros, Mário Cesariny de Vasconcelos, Raul Leal, Pedro Oom, António Maria Lisboa, Luiz Pacheco. Foi, de uma maneira geral, mal recebido pela crítica – em Lisboa, na página literária do Diário de Notícias, João Gaspar Simões zurzia-nos fortemente e, no Porto, no Jornal de Notícias, António Ramos de Almeida ia ao ponto de dizer que se justificava a intervenção da polícia ou de um enfermeiro com um colete de forças. No segundo número, Luiz Pacheco prometia responder a Gaspar Simões e ocupava-se de Ramos de Almeida, transcrevendo um artigo e comentando-o com ironia cáustica. Por meados de Junho de 1959 , fui ao Porto com a missão de contactar os escritores, as livrarias e tentar que o meio intelectual da cidade aceitasse a iniciativa sem as reacções que o primeiro número provocara. Este número tinha colaboração inédita de Herberto Helder, Manuel de Castro, António José Forte, Ernesto Sampaio, Luiz Pacheco, António Pinheiro de Guimarães, Manuel d’Assumpção e outros.
Estive um pouco mais de uma semana na cidade. Dormia na galeria Domínguez Alvarez num recanto que Jaime Isidoro muito gentilmente me reservou e algumas refeições comi em sua casa que ficava no prédio da galeria. Não muitas, pois houve uma certa competição de hospitalidades, com convites sobretudo para jantar. Foram nove ou dez dias com a agenda bem preenchida. Montei o quartel general no Café Ceuta com frequentes idas à Divulgação. Fernando Fernandes proporcionou-me os meios logísticos, sobretudo a utilização do telefone. Fiz diversas deslocações como, por exemplo, ao escritório do António Pinheiro de Guimarães, que era representante de uma conhecida marca de produtos de beleza, a Max Factor, salvo erro. Fui conhecendo muita gente, a livraria era, sobretudo nos fins de tarde, um ponto de reunião do povo de esquereda – Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão…
Num serão em casa de Jaime Isidoro, apareceram mais dois lisboetas que tinham aproveitado uma boleia – o António José Forte e o Henrique Tavares. E a meio do serão chegou o Manuel D’Assumpção, que colaborara com a reprodução de um quadro seu na Pirâmide-2 – “Génesis”, uma obra que viria a merecer a José Augusto França os mais rasgados elogios.
Porém. já com a revista em fase de acabamento foi noticiado que o quadro obtivera o primeiro prémio do Salão dos Novíssimos do Secretariado Nacional da Informação que era a agência de propaganda do regime salazarista. Não podíamos retirar o quadro sem inutilizar o caderno em que estava impresso e optámos por numa contracapa incluir um «aviso aos distraídos», onde chamando a atenção para o lançamento de O Tempo e o Modo, uma revista literária de direita, dirigida por Fernando Guedes, falávamos no prémio do SNI e acusávamos alguns intelectuais de esquerda de distracção – na lista figurava o nome do D’Assumpção.
Com a entrada do pintor, o clima ficou gelado, pois o anfitrião estava dividido entre o dever de hospitalidade que o mandava acolher alguém que até há dias atrás era um «dos nossos» e a coerência política que o impelia a pô-lo na rua. Houve um murmúrio generalizado e intimidado, o D’Assumpção parecia disposto a sair. Olhava em volta e pousou o olhar em mim. Atravessou a sala. Fez-me um discurso patético – não recordo as palavras exactas, mas foi qualquer coisa do género – Peço perdão, os senhores são puros e eu sou um traidor! –» e acompanhou o balbuceio com lágrimas. «– oxalá consiga manter essa coerência…»Toda a gente esperava que eu dissesse qualquer coisa. Mas eu imobilizado pela surpresa. O Forte salvou-me. Saiu do grupo onde estava e veio abraçar o D’Assumpção – «Traidor? Qual quê? Tu és é maluco!» Uma gargalhada geral, o gelo derreteu e o serão prosseguiu. Naquele tempo, como podia um pintor jovem não tentar expor no Salão dos Novíssimos? Era um rapaz estranho, este excelente pintor que estudara em França com o grande Fernand Léger. Suicidou-se em 1969.
Pelo meio da minha estada, meteu-se o São João. Tinha cartas para escrever e disse ao Egito com quem almocei, salvo erro na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, dessa minha ideia – Nem pense nisso! Tem de vir ao São João. – garantiu-me que o São João era um acontecimento sem paralelo no País. E à noite. após um jantar leve lá fomos. A Baixa estava cheia de uma multidão alegre – pelas esquinas vendia-se o alho porro – os martelinhos de plástico são coisa muito posterior. Na Ribeira fomos dar com o Mário-Henrique Leiria numa roda de jovens, saltando a fogueira e cantando as orvalhadas a plenos pulmões e imitando (com perfeição, disse o Egito) a pronúncia portuense. Juntou-se a nós e já de madrugada fomos cear o tradicional anho a um restaurante da Rua Sá da Bandeira – os restaurantes e cafés estavam abertos. O Egito contou episódios do seu serviço militar nos Açores, onde serviu como rádio telegrafista. Usou uma expressão que anos depois, ao visitar o arquipélago, me ocorreu – «Nos Açores, para respirar é preciso ter guelras».
A simpatia dos escritores portuenses foi ao ponto de, na véspera do meu regresso a Lisboa, organizarem um jantar na Cooperativa Árvore – para um rapazinho como eu, que nem na minha rua era conhecido, foi inesquecível. E fiz amigos para sempre – o Egito, o Veiga Leitão, o Papiniano Carlos e tantos outros Colaboraram em tudo o que fui fazendo pelos anos fora.


