Tal como a Ponte é a Ponte, a Praça é a Praça. Coração cívico do Porto, a Praça da Liberdade desempenhou, ao longo dos últimos dois séculos, um papel de referência como palco de acontecimentos que deixaram marcas perduráveis na his-tória da cidade e do país. Deles se contam alguns episódios. Do primeiro escreveu Alberto Pimentel: «No princípio do séc. XIX arde na Praça Nova das Hortas uma fogueira patriótica». Tratou-se da queima pública, em plena ocupação francesa, de um folheto antinacional que fazia o elogio do General Soult como futuro rei de Portugal. Depois, em 24 de Agosto de 1820, a «Tropa, Nobreza e Povo» concorreram à Praça para, diante do edifício da Câmara (demolido para a abertura da Av. dos Aliados), jurarem unir-se na «Regeneração da Pátria», iniciando a Revolução Liberal. Em Maio de 1821, quando se soube que o rei D. João VI jurara as bases da Constituição que as Cortes iriam elaborar, decorreram na Praça festejos durante quatro noites. Em 4 de Julho seguinte, mal se soube que o rei regressara a Portugal, logo à Praça (então chamada) da Constituição confluíram os tripeiros em «estrepitosas torrentes de entusiasmo». E, em 31.7.1826, na Câmara, perante grande multidão reunida na Praça Nova, foi jurada, no meio do entusiasmo popular, a Carta Constitucional outorgada por D. Pedro IV. Pelo contrário, o dia 7 de Maio de 1828 ficaria assinalado como um dos mais trágicos da história da Praça e do Porto, com a execução, por enforcamento seguido de decapitação, de dez liberais, vítimas da intolerância miguelista, perante o gáudio dos «absolutistas fanáticos». E, em 9 de Outubro, seriam ainda enforcados mais dois liberais. Após a entrada no Burgo do Exército Libertador, em 9 de Julho de 1832, com a fuga dos absolutistas, as forcas foram removidas da Praça e o edifício da Câmara seria o primeiro local a acolher D. Pedro IV e o seu Estado-Maior, que ali anunciou a vigência da Carta Constitucional. Em 4 de Abril de 1833, com a cidade sitiada e debaixo dos bombardeamentos miguelistas, comemorou-se, na Praça, «com muita concorrência», o 14.º aniversário da Rainha D. Maria II. Após a vitória liberal na guerra civil, todos os anos, nos dias 9 de Julho e 24 de Agosto, na Praça agora designada de D. Pedro, comemorava-se, com música, iluminações e fogo de artifício, aquelas datas emblemáticas para o regime constitucional. Em 19 de Outubro de 1866, novas manifestações sucederam, tendo «as ilumi-nações atraído imensa concorrência de famílias» aquando da inauguração da está-tua de D. Pedro, com «festa imponente – toda de regozijo e de entusiasmo». Pros-seguindo a vocação política revolucionária da Praça, na madrugada de 31 de Janei-ro de 1891, perante soldados da guarnição do Porto e a população, na varanda da Câmara, seria içada a improvisada bandeira republicana e, por Alves da Veiga, pro-clamada a República. Vencida a revolução, após o bombardeamento dos Paços do Concelho pelas forças monárquicas postadas nos ângulos dos Lóios e dos Congregados, a ideia republicana continuaria a germinar, saindo vitoriosa na revolução de 5 de Outubro de 1910. No dia seguinte, da varanda da mesma Câmara, o Dr. Nunes da Ponte proclamaria a República perante o povo reunido na Praça. Depois, no dia 31 de Janeiro, enquanto se manteve como Feriado Nacional, ali se realizavam, anualmen-te, cerimónias comemorativas daquela data (após 1926, reprimidas pela Ditadura). No século XX, esta dimensão cívica e política da Praça, já chamada da Liber-dade, manter-se-ia. Em 30 de Abril de 1930, milhares de pessoas aqui assistiram à passagem do funeral do estudante João Martins Branco, morto em incidentes com a polícia, na que seria a primeira grande manifestação da cidade contra a Ditadura. Em Maio do ano seguinte, a Praça ficaria associada à vida cultural tripeira, com a realização da 1.ª Feira do Livro. E, em 14 de Maio de 1958, encheu-se para aclamar o General Humberto Delgado, candidato da Oposição às eleições para a Presi-dência da República, apoteoticamente recebido no Porto por mais de 200 000 pes-soas. Em Ditadura e em Democracia – na repressão e em liberdade – sempre o 1.º de Maio foi assinalado com cortejos, concentrações e manifestações que tiveram esta espécie de alma-mater do Burgo como palco. Tal como nos banhos de multidão das noites eufóricas e efusivas em que os portuenses festejam o S. João. Sem esquecer a alegria vibrante e espontânea dos adeptos que, desde há anos, se habituaram a festejar, na Praça e na Avenida, as vitórias nacionais e internacionais do F.C. Porto. Espelho, centro vital e fórum cívico da urbe e do próprio sentir portuense, lugar de confraternização, luto, júbilo, resistência, revolta e, sobretudo, espaço de cele-bração, a Praça da Liberdade é a confluência das esperanças e dos agravos, desa-gravos e expectativas de futuro de toda uma cidade. Não admira que, num poema de 1883, do popular poeta cego António de Mesquita e Melo, ela fosse assim canta-da:
A Praça, aonde se ostenta Soberano cavaleiro, Esse lugar de memorias Das festas foi o primeiro.