Mudar de Rumo – Investimento Público- por Henrique Neto

Este artigo foi publicado  no Jornal de Leiria

e é por nós transcrito com expressa autorização do autor

 

 

O investimento público levado a cabo por sucessivos governos, em particular os governos de José Sócrates, foram desastrosos porque endividaram o País para além do razoável, tiveram um retorno económico fraco e copiaram desnecessariamente modelos com meio século, hojemuito desajustados relativamente ao futuro previsível das sociedades modernas. Por exemplo, o transporte rodoviário, de pessoas e de mercadorias, induziu custos e comportamentos insustentáveis no futuro, por razões energéticas, ambientais e de modelo económico e social.

Outros foram investimentos, próprios de países ricos, como os estádios, que, além do mais, servem sectores da sociedade dirigidos sem critérios ética e economicamente responsáveis. E, mesmo os investimentos com justificação social ou económica, como são os casos da Parque Escolar, portos, computadores Magalhães e energias renováveis, conduziram a custos muito superiores aos necessários e caracterizaram-se, na interpretação mais benevolente, por desorganização, favorecimentos e mesmo a ilegalidades, como é o caso das parcerias público privadas.

O caso particular de um investimento com justificação social, mas realizado de forma completamente desastrada, foi iniciado no tempo de António Guterres como Primeiro Ministro e continuado pelos governos seguintes, através dos diversos programas para a compra de casa própria. Ideia inspirada na forte descida dos juros resultante da nossa entrada no euro, mas que não levou em conta uma miríade de factores, erros que governantes mais sabedores nunca teriam cometido, tais como: (1) incentivou uma forte especulação imobiliária e a construção de muito mais habitações do que as necessárias; (2) permitiu uma fortíssima valorização dos terrenos agrícolas, transformados milagrosamente em urbanos, sem que o Estado tenha, como devia, actuado fiscalmente sobre as mais valias realizadas, com o resultado de fazer crescer de forma desorganizada as periferias das cidades e deixado degradar os centros urbanos; (3) motivou a corrupção, que não foi combatida, envolvendo promotores imobiliários e gestores autárquicos, numa das maiores transferências de riqueza da nossa história; (4) criação de uma cilada às famílias portuguesas e aos bancos, sendo que as famílias ficaram endividadas para a vida e os bancos amarrados a juros baixos e à dependência dos credores internacionais: (5) provocou um crescimento excessivo, demasiado rápido e não sustentável da indústria de construção civil, além da importação de mão de obra imigrante, com o resultado inevitável da sua queda e do consequente desemprego; (6) prejudicou fortemente a mobilidade profissional dos trabalhadores e funcionários portugueses, com custos económicos para o Estado e para as empresas.

Concluindo, o investimento feito em Portugal nas duas últimas décadas, inspirado ou realizado pelo Estado, teve consequências desastrosas no desenvolvimento do Pais e contribuiu de forma evidente para o desperdício dos fundos comunitários recebidos por Portugal da União Europeia e para a actual crise de endividamento do Estado, das empresas e das famílias. O que demonstra, de forma inequívoca, a inferior qualidade dos decisores políticos envolvidos e a suaimpreparação para as responsabilidades dos cargos que desempenharam, sendo   que a sua motivação foi sempre pensada para agradar às populações, assim enganadas em dois momentos diferentes: na mesa de voto e no endividamento excessivo, para mais sem a compreensão correcta dos preços pagos e dos riscos futuros desse endividamento.

05-02-2015

Henrique Neto

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