Carta a uma amiga grega, a Marica Frangakis
Minha querida Amiga
Passaram-se quase três anos desde que a conheci, na FEUC, numa conferência organizada pelos docentes da disciplina de Economia Internacional. No primeiro dia da sua permanência na nossa casa, a FEUC, na nossa cidade, Coimbra, organizava-se na Faculdade uma homenagem a um dos mais respeitados professores que fez da FEUC grande parte da sua vida, o Professor Romero de Magalhães. Foi nesse dia que a Marika proferiu a sua conferência, notável, como seria de esperar. E nesse dia, a Faculdade recebeu um dos seus antigos alunos, que vinha de Atenas talvez assistir à homenagem ao professor Romero de Magalhães. Não que ela a não merecesse, mas era estranho, de tão longe para uma presença num auditório e numa homenagem a alguém que se despedia da vida docente, por jubileu. E mais estranho quando este homem, este antigo estudante, era o segundo homem da Troika em Atenas! Vir naquele dia para cumprimentar o Professor Romero ou escutá-la a si, para informar a Troika do que terá dito a “grega”, sinceramente não sei, mas acho estranho que seja a primeira hipótese.
Desse fim de tarde, nesse início da noite, lembro-me ainda da sua imagem de dor, da angústia estampada na sua cara, lembro-me da minha visão de um corpo que por dentro das roupas que vestia parecia estar a tremer por uma vontade louca de encontrar esse nosso antigo estudante e explicar-lhe, explicar-lhe que as políticas erradas de que ele estaria a ser o “ilegítimo” representante, explicar-lhe que com elas era o seu próprio país que eles estavam a destruir, mais uma vez acrescente-se. Disse-lhe que não, que não a levaria a encontrar-se com esse antigo e brilhante estudante, acrescente-se. Expliquei-lhe de que não tinha que se rebaixar a implorar pelo seu povo a quem aos sentimentos de solidariedade é completamente surdo. Se o não fosse, não ocupava tal cargo. Quase cinco anos de crise provam que a minha decisão daquela noite estava correcta. Sentimentos é coisa que os Draghi, os Juncker, os Schauble, os Jens Weidmann, Frau Merkel, não sabem o que é, e muito menos os lacaios que à volta deles vivem nas margens e das ricas migalhas que o poder lhes concede. Estar nessas margens e aproveitar essas valiosas migalhas é importante, daí os concursos de reptilização ou de outros géneros não menos repelentes, a que se assiste na Europa, a definir as posições de proximidade para melhor se poder viver. Olhem só para a fidelização de tantos políticos aos desígnios imperais de Frau Merkel, a começar por Passos Coelho ou por Cavaco Silva.
Dir-me-á minha amiga que talvez eu agora tenha razão na ideia que faço desses monstros, menores ou maiores tanto faz, porque monstros a realidade prova bem que eles o são. Veja-se o caso de François Hollande. Precisa de satisfazer um dos membros desse concurso, o da reptilização, o deputado Pierre Moscovici. Este vai para Comissário. O lugar dele de deputado é sujeito a uma eleição legislativa parcial, o que bem tentaram impedir, mas está na Constituição de França. Com ela o PS arrisca perder a maioria absoluta, com essa eleição, a França corria o risco de se tornar ingovernável. Mas que importa isso, se um candidato ao primeiro lugar do referido concurso fica bem posicionado! É certo que houve a grande manobra, Eu sou Charlie, mas isso não chegava para garantir a eleição de um deputado PS na circunscrição de Doubs. Criou-se então a ideia da Frente Republicana, isto é , constituída por todos os partidos contra a Frente Nacional, a extrema direita em França. A direita francesa jogou o jogo duplo mas na primeira volta saltou. Frente a frente, ficaram a FN e o sistema novo, o sistema UMPS ( a direita de sigla UMP e o PS, geram em conjunto a sigla UMPS). Tanto assim que na segunda volta o candidato do PS concorreu sem a sigla do PS! Era a maioria do novo sistema que ele queria representar! E ganhou o candidato UMPS por escassa maioria, mas ganhou. Uma triste vitória, como afirmava o jornal porta-voz mundial do PS, o jornal Le Monde. Podíamos passar à Itália e encontrávamos o mesmo sistema, o arco do poder definido por Matteo Renzi e por Berlusconi, até aqui apadrinhados por um verdadeiro padrinho à italiana, Georgio Napolitano. E podíamos continuar… até ao irrevogável Portas. Não vale a pena.
A Grécia está num ponto de viragem, ganha ou perde mas aqui não pode haver empates. A jogada é de fazer vertigens mesmo ao cidadão que esteja na posse do melhor sistema auditivo possível. Se a Grécia ganha, é toda a direita europeia que perde e não a vejo a perder desta forma tão evidente. Se considerarmos que aceita, o que não acredito, tudo bem. Se a União Europeia ganha, e a Grécia aceita, isto significa que é Syriza que trai o seu povo, como o esperava o director da revista Causeur que tal venha a acontecer. E aqui somos levados a seguir a viver uma outra tragédia, a da revolução que seria desencadeada na Grécia e feita por um povo que já não pode mais. Outro cenário: ninguém cede e a Grécia sai da zona euro. A seguir, reina então o caos e não haverá quantitative easing que salve a Europa. Como nos diz um jornalista inglês, Hamish Mcrae , do Independent, em 12 de Fevereiro : “Então, ou há um acordo, se não hoje então dentro de uma questão de semanas, ou a Grécia entra formalmente em incumprimento das suas dívidas e pode ser forçada a sair do euro. Isto, pelo que nos é dito, por quase todo o mundo incluindo o nosso próprio chanceler, seria um desastre. Essa é a visão convencional e está tudo bem enquanto funciona.» Neste caso, a médio prazo são os alemães os que mais irão perder enquanto a curto prazo serão os gregos que fortemente irão perder. Como quarta hipótese, ninguém ganha, ninguém perde, vai-se alterar a estrutura do euro, os fortes travões do défice, a famosa regra de ouro sobre o défice, são eliminados e um programa tipo Marshall passa a ser pensado para os países em dificuldade, e são muitos. Perspectiva-se uma estratégia de crescimento, dilatam-se as maturidades e reduzem a zero os juros da dívida presente ou cria-se um longo espaço de carência. Caímos pois numa situação quase do tipo do dilema do prisioneiro ou do jogo da galinha que explicávamos há dias neste nosso blog, ambos cedem uma parte do jogo e com a Grécia a ganhar no essencial, tendo-se desenrolado um jogo cooperativo com ganhos imediatos para todos e com ganhos a prazo incalculáveis, em vez dos prejuízos incalculáveis que neste contexto nos são garantidos.
Na nossa hipótese de cooperação, seria estarem todos os Estados membros a trabalharem em conjunto sobre um plano abrangente que desse e gerasse capacidades de crescimento tão necessárias quando se está perante muitos milhões de desempregados. Seria o que se passaria numa jogada de cooperação no dilema do prisoneiro, seria a dupla desistência no jogo da galinha, onde se perde na imagem pública e ganha-se a vida para ambos. Na outra hipótese, a que até agora têm defendido a Alemanha e o conjunto dos países por si ocupados, estar-se-ia a solidificar não uma União de países membros mas sim uma (Des)União dos mesmos, onde o relevante é criar estratégias do jogo da galinha ou do dilema do prisioneiro, numa guerra entre Estados-membros.
Querer a solução cooperativa acima enunciada seria um absurdo dir-me-ão os portugueses enfrascados no discurso oficial, os franceses do PS, os italianos dos partidos de Matteo Renzi e do de Berlusconi e assim sucessivamente mas querê-la não seria mais do que o que foi feito com a Alemanha. Veja-se o que nos diz o alemão Albrecht Ritschl, professor de História Económica da London School of Economics, fala sobre as dívidas de guerra da Alemanha e das reparações devida à Grécia depois da segunda guerra mundial. Sobre as dívidas e as reparações de guerra disse o chanceler Helmut Kohl :
“O único que falou, e é bastante revelador, foi o antigo Chanceler Helmut Kohl, a quem se interrogou sobre esta matéria à saída de uma conferência de imprensa aquando das negociações. Declarou: “Ouçam, afirmamos que não podemos pagar as reparações, porque se abrirmos a caixa de Pandora, tendo em conta a crueldade e a brutalidade nazis, dos genocídios – e os Nazis estão na origem de vários genocídios – tendo em conta estes factos horríveis e a escala incrível destes crimes aterradores, qualquer ensaio de quantificação e de queixa à Alemanha terminará, seja com compensações ridiculamente baixas ou então isso irá devorar toda a riqueza nacional da Alemanha. ” Esta é, de resto, a posição da Alemanha uma vez que : os prejuízos causados pelos Nazis, não somente em termos de sofrimento humano e moral, mas muito simplesmente termos de prejuízos materiais e financeiros, são tão elevados que isso ultrapassaria a capacidade de reembolso da Alemanha.
E como economista, tenho efectivamente medo de que isto não venha a ser arrancado totalmente pelos cabelos; há disso. O que afirmou seguidamente Helmut Kohl era de que em vez de abrir a caixa de Pandora e de entrar nas questões das reparações de guerra, seria certamente preferível continuar no que lhe parecia ser uma cooperação económica frutuosa na Europa. Na época, era uma boa ideia, e estávamos nessa época pré- euro onde todos éramos muito optimistas quanto ao futuro da cooperação económica na Europa. Tornámo-nos depois um pouco mais realistas, mas na época não era totalmente irrealista e insensato pensar regular assim estes problemas.”
E o mesmo professor diz-nos ainda:
E eu estou inquieto quanto ao futuro da democracia na Grécia, e como alemão estou inquieto por duas razões.
Primeiro porque não se pode negar a responsabilidade histórica da Alemanha e, em seguida, porque a Alemanha atravessou uma experiência muito muito similar. Esta experiência fez-se a partir no fim dos problemas das reparações que se seguiram à Primeira guerra mundial, durante a Grande Depressão dos anos 1930. O governo alemão deveria pagar as reparações de acordo com um programa muito rigoroso. O programa, o plano Young, tinha começado em 1929; era duro, e sob vários aspectos, este programa fazia-me lembrar o que o ministro das finanças alemão e a Troika impõem à Grécia; os efeitos foram os mesmos: queda da produção económica de 25 a 30 %, o desemprego em massa, a radicalização política. Em síntese, o plano Young fez sair os Nazis da floresta. Sim, estou muito preocupado com a situação na Grécia e, por conseguinte, penso que deveríamos rapidamente tomar medidas para estabilizar a democracia grega. Pensarei eu que isso se vai realizar? Estou um pouco céptico. Tenho medo que duas coisas se passem: primeiro, que no fim haja uma anulação de dívida generalizada, mas isso chegará demasiado tarde e em que estragos profundos terão já sido provocados na democracia grega”.
Minha querida amiga, não posso deixar de sublinhar aqui as palavras do professor Albrecht Ritschl:
“O que afirmou seguidamente Helmut Kohl era de que em vez de abrir a caixa de Pandora e de entrar nas questões das reparações de guerra, seria certamente preferível continuar no que lhe parecia ser uma cooperação económica frutuosa na Europa. Na época, era uma boa ideia, e estávamos nessa época pré- euro onde todos éramos muito optimistas quanto ao futuro da cooperação económica na Europa. Tornámo-nos depois um pouco mais realistas, mas na época não era totalmente irrealista e insensato pensar regular assim estes problemas”.
O que era válido em 1990 com o Chanceler Helmut Kohl é no fundo o que deveria ser valido agora, ou então criamos dois pesos duas medidas, o que é valido para uns, os alemães, não é valido para os gregos. E é aqui, minha querida amiga, nesta lógica que se deve pensar reconstruir a Europa que os vândalos dos nossos políticos desde há 30 anos andam a destruir.
Se assim não for, não nos deixemos cair na desesperança. A Grécia com o governo que tem actualmente há-de sobreviver, este não há de trair o seu povo e, sendo assim como nos mostram os textos simples que acompanham esta carta, as soluções económicas existem, mesmo que dolorosas a curto prazo mas sempre menos do que o é a situação presente.
Sobre estas questões, minha querida amiga, lembro-me aqui do que escreveu Gil Mihaely, director da revista Causeur. Num texto desta revista Mihaely escreveu:
“Na França, foi-nos necessário quase três anos (entre a vitória de Maio de 1981 e a formação do governo Fabius, sem os comunistas em 1984) para avaliar as dadeiras as margens de manobra política de um governo de esquerda. Pode-se desejar aos Gregos que o processo seja mais rápido neles. De qualquer modo, a esquerda radical europeia deve a partir de agora procurar responder a esta pergunta fundamental: como se irá poder sobreviver à inegável traição ideológica de Syriza? Certas vitórias são piores que as derrotas.”
Face à ideia de inegável traição de Syriza, como aconteceu em 1983 e acontece actualmente em França, escrevi ao autor das linhas acima, manifestando o meu desagrado pela equivalência por ele considerada entre os traidores franceses e o actual governo grego, dizendo-lhe:
J’ai publié votre article sur Syriza et la éventuelle trahison de la gauche de la gauche grecque (combien des mois ?) et je suis d’accord dans le fond, on a vu avec la gauche française en 1983 mais quand même je me interroge si vous n’avez pas été trop dur envers les grecs que jusqu’à présente sont les seuls que ont affronté les maitres de l’Europe : Schauble, Merkel, Jens Weidmans. Pourront tomber, peut-être, et je crois qu’ils iront tomber. mais j’ai en bien des doutes si dans ce cas on peut parler de trahison, ou seulement de défaite. De défaite peut-être, pas de trahison, voici notre point de discorde.
D’une chose nous sommes sûrs : avec cette austérité l l’Europe, y compris même l’Allemagne, nous irons mourir et finir esclaves de la Chine ou de bien des autres.
Na sequência ao meu texto o director da revista Causeur responde :
« Quant à vos remarques concernant mon texte sur Syriza: vous avez raison, j’étais dur. La raison est simple: la plus grande question de notre temps est de savoir si oui ou non il existe un véritable alternative au capitalisme. et quand j’écris véritable je veux dire quelque chose qu’on peut appliquer à grande échelle dans les années à venir et donc pas d’utopies correspondant à des petites communautés. Le problème avec Syriza est qu’il a l’image aux yeux de beaucoup d’un acteur politique porteur d’un véritable alternative, d’une promesse qu’autre chose est possible. Or, il me semble que Tsipras essaie de jouer mieux que les autres le même jeu… Je pense qu’il est très doué et capable de réussir là où ses prédécesseurs ont échoué mais il n’apporte pas un changement radical, il ne changera pas les règles du jeu. On ne peut pas jouer l’alter mondialiste, communiste, anti capitaliste et ensuite une fois au pouvoir, accepter le jeu ! C’est ça la trahison de la gauche radicale. Il va prouver que le système actuel est le seul possible. »
Aqui, o texto mostra uma muito maior compreensão para com o partido Syriza mas, do meu ponto de vista, não ainda o suficiente face ao trabalho já feito e face à inexistências de alternativas outras, no curto prazo. Há ainda um forte apriori nesta resposta, a da possibilidade de um mundo ideal num só país, tema que atravessou a esquerda em meados do século passado. No quadro da situação presente, é o pequeno David a desafiar o gigante Golias, sozinho com todos os outros répteis do concurso organizado pela Comissão Europeia a recuarem para as suas tocas ou a mostrarem-se que estão ao lado do gigante e dispostos a morrer por ele. Dramática a cena a que se está a assistir. Veja-se desses concursos os exemplares portugueses, sejam eles o Primeiro-Ministro ou o Presidente da República, para não falar dos lacaios da imprensa como é o caso, por exemplo, de José Rodrigues dos Santos. No pior dos cenários expostos acima, o da saída da Grécia do euro, o pior cenário em termos de curto prazo e na visão dominante à escala mundial, até mesmo na Grécia, é então suposto que a situação se iria degradar face ao que ela está actualmente. Mas face a esta visão da dinâmica de destruição comandada por Berlim, encontrei, minha querida amiga, alguns textos que nos mostram que ou a Europa muda, e muda radicalmente a sua estrutura de funcionamento, ou então a melhor solução para a Grécia, e a pior para a Europa, é mesmo a saída da Grécia do euro. Se assim for saudemo-la, pois. São estes textos minha querida amiga que aos leitores portugueses aqui apresentamos, solidários que estamos com a luta travada pelo povo grego.
E, minha querida amiga, não posso deixar de, e em forma de conclusão desta carta aberta, lhe lembrar, a si, o que me escreveu de Atenas em Julho de 2013 e que passo a citar:
“ Em última análise, sair do euro é uma decisão política. Se é tomado pela classe politica dominante, então pode não ser particularmente benéfica para aqueles que já sofrem sob o regime da Troika. Se ela é tomada pelas forças políticas que são sensíveis às necessidades da ampla maioria das pessoas, há uma oportunidade de que esta possa funcionar!
A saída do euro levanta a questão de coligações com outros países (na Europa principalmente) como sendo especialmente pertinentes. Tais coligações não estão a ser procuradas pelos actuais governos de Portugal ou da Grécia, apesar da necessidade óbvia de o deverem fazer. E isto é assim, porque eles seguem as linhas políticas ditadas pelo modelo neoliberal-financeiro predominante. Na prossecução de uma política radical, fundamentalmente divergente da que é hoje dominante, a necessidade de trabalhar em conjunto com as forças políticas dos outros países que tenham quadros de referência semelhantes ou próximos é hoje imperativa.
Em geral, a saída do euro não resolverá por milagre os problemas de Portugal ou da Grécia. No entanto poderá actuar como um catalisador e, nesse sentido, irá acelerar a sua própria dinâmica. Se isso vai na boa ou má direcção irá depender de uma série de outros factores, tanto nacionais como europeus. Mais ainda, tais desenvolvimentos serão desencadeados primeiramente a nível político. A longo prazo, no entanto, saber lidar com os problemas económicos e sociais desses países é um requisito necessário para a sua sobrevivência num mundo globalizado e altamente competitivo.”
Coimbra, 12 de Fevereiro de 2015
Júlio Marques Mota



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