CARTA DO RIO – 38 – por Rachel Gutiérrez

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Ó abre alas, que eu quero passar… assim começa a mais antiga e tradicional marchinha brasileira, que os foliões dos clubes, das quadras de samba ou dos blocos de rua sempre haverão de cantar enquanto existir o Carnaval. Foi composta em 1899 por uma mulher, Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a nossa Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935), exemplo de pioneirismo e coragem em muitos sentidos. “Ninguém antes dela marcou tão vigorosamente na música popular brasileira o espírito nacional”, disse o crítico Andrade Muricy, citado na excelente biografia escrita por Edinha Diniz, que inspirou uma minissérie de grande sucesso na TV brasileira. Numa época em que as mulheres sequer andavam sozinhas na rua, a compositora soube se impor tocando piano em lojas de instrumentos musicais, apresentando-se em salões e em lugares públicos, regendo orquestras e dirigindo suas próprias operetas, das quais Forrobodó chegou a 1500 récitas em 1911. Sua aparição em saraus no Palácio do Catete, durante a presidência de Hermes da Fonseca, em 1914, escandalizou a conservadora sociedade carioca. Chiquinha era amiga da primeira-dama, Nair de Tefé von Hoonnholtz, outra pioneira hoje reconhecida como a primeira caricaturista mulher do mundo. Fugindo do escândalo e de falatórios, há muito separada do primeiro marido e de um segundo companheiro, a compositora morou vários anos na Europa, em Portugal, com João Batista Lage, seu amigo e discípulo trinta anos mais moço, com quem viveu feliz maritalmente até morrer.

Chiquinha Gonzaga, que pelo lado materno descendia de escravos, participou ativamente da campanha abolicionista e da que resultou na proclamação da República. E usando o seu prestígio de compositora e regente aclamada pelo público, criou o primeiro sindicato dos músicos e, em 1917, fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais , a SBAT, que perdura e funciona até hoje.

Lembrei-me de Chiquinha Gonzaga porque é carnaval e porque o jornal O Globo do último sábado publicou uma matéria sobre mulheres “geniais, mas esquecidas”, as até então inimagináveis, para mim, “pioneiras da computação”. Fiquei sabendo que Ada Lovelace, filha de Lord Byron e talentosa matemática “criou o primeiro algoritmo para ser lido por uma máquina” o que, décadas mais tarde veio a inspirar Alan Turing, “cujo trabalho resultou no computador como o conhecemos”!

O Globo mostra uma primitiva máquina analítica e um retrato de Lady Lovelace com uma roupa sobrecarregada com pufe e xale até a cabeça, os cabelos penteados em bandós, luvas brancas e um leque dourado nas mãos – uma dama típica do século XIX ! No texto, lê-se que “se Charles Babbage é considerado o ‘pai da computação’, Ada deveria ser ‘a mãe’”.

O jornal ainda revela que a programação do primeiro computador eletrônico de uso geral, (criado no século XX, em 1946), foi feita por mulheres, selecionadas num “grupo de 80 matemáticas que trabalhavam com cálculos balísticos na Universidade da Pensilvânia.” O lamentável, mas bastante comum na nossa cultura de dominação masculina, que gosto de chamar de androcêntrica, “elas nunca receberam o crédito por isso.” E mais: “também foi uma mulher a responsável por acelerar o desenvolvimento das linguagens de computação” : uma almirante da Marinha norte-americana, a “visionária” Grace Hopper, cujo “grande feito foi a criação dos compiladores (programas capazes de ‘traduzir’ uma linguagem para outra, em geral mais simples).” Por causa disso, os softwares escritos em notação matemática passaram a funcionar com palavras em inglês.

E por falar em comunicação, quem se lembra de Edy Lamar, a bela atriz húngara do cinema norte-americano das décadas de 1930, 40 e 50, que inventou, com o compositor George Antheil, nada menos que um sistema de comunicações para as Forças Armadas, que serviu de base para a atual telefonia celular ? Infelizmente, sua beleza extraordinária se encarregou de ofuscar seu grande talento de cientista.

Muito antes, na belle époque, Lou Andreas-Salomé, cuja inteligência influenciou Nietzsche, Rilke e Freud, era tida como simples “discípula” deles. Mas de acordo com seu biógrafo H.F.Peters, houve quem compreendesse que “quando Lou se apaixonava por alguém, nove meses mais tarde, ele dava à luz um livro”! Para além da anedota, é conhecida uma carta que Friedrich Nietzsche escreveu à sua irmã, na qual revela que sem a convivência enriquecedora com a jovem russa, não teria escrito o seu Assim falava Zaratustra.

Precisei, em pleno Carnaval, abrir alas para as mulheres nem sempre valorizadas por sua inteligência e criatividade. E volto à nossa grande Chiquinha Gonzaga, cuja obra musical se alimentou não apenas dos ritmos africanos, mas também das diferentes expressões regionais de um país vasto como o nosso. Dizia-se que sua música podia ser tanto “um poema do nordeste” quanto “uma paisagem do Rio de Janeiro” ou “um drama dos pampas”. Compôs também no estilo português. E além da música para 77 peças teatrais, escreveu polcas, tangos, choros, maxixes, marchas e operetas. Mas seu nome não consta da Enciclopédia Larousse.

Vamos ouvir o “ Abre Alas” ?

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