Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A caminho da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade
Tsipras et Putin
O que se passa na Grécia é enorme.
Ariane Walter, Tsipras et Poutine
Agora Vox, 30 de Janeiro de 2015
Devo dizer em primeiro lugar que desconfiei das intenções “à Hollande ” de Tsipras. (“A finança é o meu inimigo”. Conhece-se muito a sequência desta afirmação em França. )
O partido comunista grego (KKP) que não apoia Syriza, o que pode parecer paradoxal, tinha explicado as suas razões este Verão. Razões que foram retomadas por Asselineau recentemente. Em suma, Tsipras que tinha feito a tournée dos mestres do mundo, tinha deixado a entender a estes senhores que podiam deixá-lo ser eleito sem nenhum medo porque ele não era perigoso e não pretendia de modo nenhum abandonar a Europa ou o Euro. Foi então que o Partido Comunista o tinha apelidado de traidor à Grécia.
Ora, a realidade é exactamente o oposto.
Tsipras joga uma partida de xadrez que não deixa, obrigatoriamente, de nos fazer lembrar um mestre que se chama Putin.
Avança jogadas precisas e audaciosas.
Por um lado, excepto para os cegos, a partir das primeiras horas do seu mandato dá sinais do seu interesse para com Moscovo. Como o sublinhou Bild “em Die Russen-Connection der Griechen-Radikalos”: “Apenas passados 90 minutos depois da sua tomada de posse […], Tsipras encontra quem? O embaixador russo na Grécia”
Já este Verão, Tsipras tinha recusado reconhecer o governo fascista de Kiev. Escapa por conseguinte à doxa europeia. Como imaginar que a Grécia possa permanecer na UE e ter uma política externa que é, e em muito, o oposto da União Europeia e sobre que assunto!
Outro elemento de importância: poucos tempos antes da eleição de Tsipras, Putin tinha anunciado que no caso de vitória das suas cores, faria saltar o embargo e retomaria as suas relações comerciais normais com a Grécia. Enorme proposta. Depois de sabidos os resultados da eleição, as felicitações de Putin recordam este progresso. Uma possibilidade que foi precisada esta noite:
“O ministro russo das Finanças, Anton Silouanov, declarou na quinta-feira que a Rússia encararia atribuir uma ajuda financeira à Grécia se esta lho solicitasse. “Podemos imaginar que se um pedido for apresentado ao governo russo, estudá-lo-emos rigorosamente, tomando em conta o conjunto dos factores das nossas relações bilaterais”, disse ele à cadeia CNBC. Por conseguinte não nos surpreendamos que o novo ministro grego da Energia, Panagiotis Lafazanis tenha confirmado que Atenas estava contra as sanções e que “não há divergência com a Rússia”.
https://www.zonebourse.com/…/Moscou-pret-a-aider-la-Grece-…/
Acrescentemos por último, há dois dias, a maior e inimaginável estalada que se possa imaginar. A Grécia recusou votar novas sanções contra Moscovo na sequência dos acontecimentos de Mariupol.
Le Point recorda então acontecimentos anteriores num artigo titulado “Tsipras o novo amigo de Putin.”
“Não é por acaso que o primeiro diplomata a ter vindo apresentar cumprimentos a Alexis Tsipras após o seu juramento como novo Primeiro ministro da Grécia tenha sido o embaixador da Rússia. A proximidade do líder da extrema-esquerda com a política de Moscovo, incluindo no que se refere à Ucrânia, já se tinha manifestado em Maio de 2014 aquando de uma viagem a Moscovo. Recebido pela presidente de uma das Assembleias do Parlamento russo, Tsipras tinha então apoiado a anexação da Crimeia e tinha defendido o referendo organizado, com a bênção de Moscovo, na parte oriental da Ucrânia pelos separatistas.”
“Le Temps” sublinha a mesma evolução: “Contra as sanções da UE na Rússia, contra o governo ucraniano, contra a austeridade, contra a Alemanha: Alexis Tsipras não demorou a demonstrar a continuidade ideológica de Syriza. Um novo eixo se desenha entre Atenas e Moscovo.”
Isto não escapou ao diário económico russo Kommersant: “o novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, tem, já mesmo antes da vitória de Syriza, anunciado que era favorável a uma redução das sanções e contra a política de isolamento da Rússia. ” O Neue ZürcherZeitung resume a situação com a fórmula: “O cavalo de Troia de Putin”.
“Apenas acabado de se instalar, o governo de Syriza passa à acção: recusa as novas sanções contra a Rússia reclamadas por Bruxelas após a retoma de violentas hostilidades no Leste da Ucrânia. Durante este tempo, Nikos Kotzias, o ministro dos Negócios estrangeiros, trânsfuga do Partido comunista grego, defende relações bilaterais mais estreitas com Moscovo. Já teria agradecido a Putin de ter defendido “ os nossos irmãos ortodoxos na Crimeia”.
Está-se, por conseguinte, confrontado com uma evolução brusca e fascinante que muito poucos teriam imaginado. Que Tsipras, assegurado o apoio da Rússia, muito feliz por recuperar um trampolim sobre o Mar Mediterrâneo, prepare uma saída da Europa e do Euro, inevitável, eis o que abre horizontes incríveis.
Tsipras, o novo Hercules que limpa as cavalariças de Augias?
“Le Point”, a voz do dono mestre atlantista, não chega a acreditar no que os seus olhos estão a ver. Não pode imaginar que Tsipras se lance de forma tão directa nos braços de Putin.
“Os diplomatas europeus contam com o pragmatismo de Tsipras para não agitar o pano vermelho, símbolo das ideias do seu partido, votando contra as sanções com o risco de quebrar a solidariedade europeia sobre um assunto essencial de política estrangeira. Muitos pensam que o problema do reescalonamento da dívida grega, que é a sua principal preocupação e pela qual o novo dirigente vai ter que lutar firme, o obrigará a certas concessões sobre outros assuntos. Assim, no programa de Syriza há a ideia da Grécia sair imediatamente da NATO e o pôr em causa os direitos atribuídos à aliança que fazem de Creta um das suas principais bases navais no Mar Mediterrâneo. Estranhamente, esta é uma exigência que Alexandre Tsipras abandonou, exactamente antes das eleições.”
Sim, mas agora está eleito, e as suas primeiras medidas são completamente o oposto dos conselhos da Troika.
As suas primeiras decisões são completamente fiéis às suas promessas. Actualmente, está-se tão pouco habituado a que a prática política corresponda às promessas feitas. Sobretudo com esta esquerda crapulosa que temos em França…
Entre todas as decisões que honram este governo, (revogação da decisão de privatização da EDP grega, dos portos do Pireu e de Salónica, o salário mínimo aumentado de 580 euros para 751,) a reintegração das mulheres da limpeza no Ministério das Finanças, são actos fortes e simbólicos:
“Um dos nossos primeiros gestos será uma redução imediata e espectacular das despesas do ministério que permitirá a reintegração das mulheres de limpeza”, anunciou o novo ministro das Finanças Yanis Varoufakis aquando da outorga de poder com o seu antecessor Guikas Hardouvelis.
“Com o novo governo, esperamo-nos que haja uma vida melhor para os mais pobres”, espera Lilly Giannaki, que deveria fazer parte dos agentes reempregados. Eram 595 pessoas postas no desemprego, postas na rua, em 2013, em que cerca de 300 de entre elas desejam ser reempregadas.
O ministro Varoufakis, chegou de mochila às costas e vestindo por cima apenas uma simples camisa, foi o primeiro ministro das Finanças a não ser gozado com este conjunto de duros difíceis de roer que frequentemente se chocam com as forças da ordem, à frente do ministério. As forças da ordem estavam, de resto, pela primeira vez, invisíveis.
É necessário dizer que ver no poder políticos que respeitam o humano, isto, sinceramente, faz-nos sentir bem.
Sangue novo e bom, é muito bom !
Tsipras, o novo Ulysses que vai atacar os pretendentes que arruínam o seu reino e desonram a sua mulher?
Tem-se desejo de um pouco de heroísmo nestes tempos de vulgaridades.
O ridículo de Holland é ainda bem maior quando, depois dos acontecimentos “Charlie” terá dito : “A vida retoma o seu caminho. É necessário ir às compras. São os saldos.” Ridículo!
Sim, nós, temos um governo a saldar! Entregamo-lo nada caro, mesmo muito barato…entregamo-lo gratuitamente.
Ariane Walter, Tsipras et Poutine, publicado por AgoraVox, a 30 de Janeiro de 2015. Texto disponível em: http://mobile.agoravox.fr/tribune-libre/article/tsipras-et-poutine-162933


