EDITORIAL – Direita e esquerda – dicotomia sem sentido?

Imagem2A chamada morte das ideologias é uma tese de direita e, na sua base está o pressuposto de que a dicotomia direita/esquerda deixou de fazer sentido. O fim da Guerra Fria pareceu aos seus ideólogos o momento ideal para passar a certidão de óbito a um confronto que sempre decorreu num terreno em que a direita é pobre – o das ideias. O fim do conceito de esquerda e direita, a extinção do conceito de classe, são coisas que interessam à direita e à falsa esquerda. Porém, num certo aspecto, o alinhamento político dos cidadãos não se faz em ordem a ideologias.

Um inquérito realizado na passada  semana em Espanha e ao qual já aqui aludimos, demonstra que o perfil dominante do votante no Podemos não se ajusta à ideia que dele fazíamos. Pensava-se que era gente muito jovem – a média de idades ultrapassa os 45 anos; supunha-se ser gente com estudos superiores –  a média de escolaridade fica aquém da dos votantes no PP. Pensava-se que era gente da esquerda mais radical  – o inquérito revela que a ideologia dos votantes no Podemos é em média mais conservadora do que a dos eleitores da Esquerda Unida (IU) ou da Esquerra Republicana de Catalunya (ERC). Os votantes no Podemos estão unidos por objectivos, por interesses, e não por uma ideologia. E, neste aspecto, pode dizer-se que as ideologias morreram.  Norberto Bobbio, na sua obra Direita e Esquerda (Destra e Sinistra), com o subtítulo Razões e significados de uma distinção política, diz: «Os dois conceitos – «direita» e «esquerda» – não são conceitos absolutos. São conceitos relativos. Não são conceitos substantivos ou ontológicos. Não são qualidades intrínsecas do universo político. São locais do «espaço» político, representam uma determinada topologia política, que nada tem a ver com a ontologia política: Não se é de direita ou de esquerda, no mesmo sentido em que se diz que se é «comunista», «liberal» ou «católico». Por outras palavras, «direita» e «esquerda» não são termos que designam conteúdos definitivamente assentes. Podem designar conteúdos diferentes, de acordo com as épocas e as situações». Por seu turno, José Saramago, num artigo de 2007 no ‘La Republica, dizia: “A direita nunca deixou de ser direita, mas a esquerda deixou de ser esquerda. […] Para serem participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com uma direita política e económica já instalada que não tinha necessidade de se camuflar de centro. Entrou-se, então, na farsa carnavalesca de denominações caricaturais com as de centro-esquerda ou centro-direita.”. Talvez seja uma visão pessimista, mas as coisas passaram-se como ele diz.

Há um erro de paralaxe na classificação de esquerda e de direita – se não oferece dúvidas que PSD e CDS, são formações de direita, classificar  o PS como esquerda não tem sentido. Há gente de esquerda no PS – é inegável; mas está assepticamente distante do núcleo dirigente. E na perspectiva da direita, um acordo entre os três partidos neo-liberais faz todo o sentido. As ideologias não morreram – o que morreu foi o carácter de esquerda com que o Partido Socialista foi fundado.

1 Comment

  1. Não fora o comportamento política e socialmente desajustado das chamadas esquerdas e os autores citados não teriam razões para as suas conclusões. Nenhum dos citados, bem pode querer proclamar o contrário, porém, de facto, qualquer deles tem um entendimento idealista no modo de olhar a evolução social mundial. Os fenómenos de concentração do poder político em favor dos interesses dos capitalistas que, anos atrás, sucessivamente, geraram várias das chamadas unificações produzidas na velha Europa foram acompanhados da reformulação dum pensamento político que passou a sustentar-se fundamentalmente no apoio das classes médias educadas, por seu turno, na base do “amor pátrio e do acendrado patriotismo” que, como mostrou a evidência, as guerra europeias do último século só fizeram exacerbar. Com a entrada no jogo imperialista mundial da força imensa e dominadora dos ianques e, também, mais recentemente – não pode esquecer-se – dos emergentes, então, as classes sociais possidentes dos estado dominantes da Europa passaram a conclamar que “isso das Pátrias já não interessa” e que para substituí-las com vantagens – vantagens para os possidentes – nada melhor que uma união de todos os estados. Era uma força económica poderosa capaz de fazer frente a todas as outras envolvidas na disputa da hegemonia mundial. Como a burla da Europa unida tinha de ser bem burilada e melhor aperfeiçoada deram-lhe um conteúdo irrecusável como foi o de propagandear a democracia acima de tudo e, dessa maneira capciosa, empacotaram, emolduraram, senão mesmo, pintaram essa tal união. Esqueceram, tanto a direita como e esquerda, que as classes médias sociais dos estados periféricos europeus, por essência as produtoras tradicionais do pensamento mundial, o político em especial, acabariam por perder a sua posição destacada em qualquer das suas múltiplas intervenções sociais e, sobretudo, viam-se privadas do seu melhor instrumento de afirmação económica, social, cultural e política utilizado constantemente nas suas próprias casas governadas agora, numa nova modalidade, por uma bando de burocratas assistidos de perto por uns tantos inúteis, pagos a peso de ouro para brincarem aos parlamentos. Na Grécia quem levantou cabeça foi, essencialmente, quem não só a união europeia/IVreich arrastou muito para baixo, para um patamar económico e social que já não era o seu como, ela mesma, sem disso tirar quaisquer benefícios, pelo contrário, até viu destronadas, senão pervertidas, as suas referências sócio-culturais mais nacionais. Que não se arrependam!!!
    Só espero que esta Frente Grega não tenha o destino infeliz daqueloutras que, nos transactos anos trinta, tanta esperança deram.
    Em Atenas conseguir-se-á a “tumba” falhada na Madrid de 36? CLV

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