Carta do Rio – 39 – por Rachel Gutiérrez

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No dia 28 de fevereiro, Paulo Mendes Campos (1922-1991) jornalista, escritor, tradutor de várias línguas e excelente poeta completaria 93 anos. Não cheguei a ser sua amiga, mas costumava encontrá-lo na casa de um seu conterrâneo, de inteligência luminosa – Marco Aurélio Matos, nosso amigo comum. Ambos pertenceram ao grupo dos mineiros, do qual faziam parte Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende, intelectuais influentes e muito festejados nas décadas de 1960, 70 e 80 do século passado. Sabino e Campos dividiam o espaço das crônicas, na revista Manchete, que ainda acolhia outro grande cronista da época, o gaúcho Álvaro Moreyra, um pouco mais velho. E embora a data lembre o poeta, é Marco Aurélio que recordo agora com saudade. Esse era, como ele mesmo dizia, o “primo pobre” dos mais famosos. Bibliófilo apaixonado e colecionador “contumaz” (palavra do seu peculiar vocabulário), foi um anfitrião extraordinário, generoso e divertido, que promovia saraus e tertúlias em sua casa sempre aberta, nas noites de sábado, no Leblon. Tive oportunidade de citá-lo no Prólogo do meu livro Narcisismo e Poesia, ao me referir a um de seus convivas, o Professor de piano Georg Wassermann, filho de Jacob Wassermann, o famoso escritor alemão.

Marco Aurélio era também melômano e pianólatra. Durante vários anos, dei-lhe aulas de piano, mas é provável que eu tenha aprendido mais com ele do que ele comigo. A verve e o senso de humor originalíssimos do meu amigo transformavam qualquer encontro, reunião, ou mesmo uma aula, numa festa recheada de anedotas, piadas e chistes impagáveis. Ele foi um precursor do que depois se chamou one man show e mais recentemente, stand-up comedy. Mas era erudito demais para ser apreciado pelos públicos de agora, ou mesmo pelos daquele tempo. Seu palco era a sala de sua casa e seu público, apenas os amigos. Os chistes que criava diante de nós podiam ter como personagens pássaros da pré-história, donzelas medievais, ou figuras conhecidas das artes ou da política. Certa vez disse que Adolfo Celli, o ator e diretor italiano que viveu no Brasil, deveria tomar cuidado porque a cada dia se assemelhava mais a um busto romano. “Se ele ficar distraído num corredor, muito tempo parado e em silêncio, corre o risco de ser espanado pelo primeiro faxineiro que passar.”

Deixou somente, além de uma coletânea de poemas juvenis, um livro de contos hilariantes – As Magnólias do Paraíso, publicado no Rio pela editora Codecri, em 1982. E assinou, com Fernando Sabino, O Evangelho das Crianças, adaptação dos textos bíblicos para o público infantil.

Nas reuniões e festas da casa de Marco Aurélio, rolava uísque, a bebida que mais se consumia naquele tempo, em pleno calor do Rio de Janeiro. Socialmente, bebia-se muito e ainda não sabíamos que o alcoolismo é uma doença. Morando também no Leblon, encontrei muitas vezes o poeta Paulo Mendes Campos, que podia ser visto nos bares desde cedo, de manhã, com um copo de uísque na mão. Ele sempre me cumprimentava de uma forma polida e cordial, que me comovia. Como o galês Dylan Thomas, Paulo Mendes Campos, o doce poeta mineiro foi vencido pelo álcool. E este pungente poema em que ele fala em muitos lados seus, sugere um quadro de Braque, ou de Picasso:

 

Há um lado bom em mim.

O morto não é responsável

Nem o rumor de um jasmim.

Há um lado mau em mim,

Cordial como um costureiro,

Tocado de afetações delicadíssimas.

ooooooooooooooooooooo

 Há um lado triste em mim.

Em campo de palavra, folha branca.

ooooooooooooooooooooo

 Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos.

Sois em mim o lado irreal.

ooooooooooooooooo

 Há um lado em mim que é mudo.

Costumo chegar sobraçando florilégios,

Visitando os frades, com saudades do colégio.

oooooooooooooooo

 Um lado vulgar em mim,

Dispensando-me incessante de um cortejo.

Um lado lírico também:

Abelhas desorientadas de meu beijo;

Sei usar com delicadez um telefone,

Não me esqueço de mandar rosas a ninguém.

 ooooooooooooooooo

Um animal em mim,

Na solidão, cão,

No circo, urso estúpido, leão.

Em casa, homem, cavalo…

oooooooooooooooooo

 Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio

Como um discurso,

Um lado frágil, verde-úmido.

Há um lado comercial em mim,

Moeda falsa do que sou perante o mundo.

oooooooooooooooooo

 Há um lado em mim que está sempre no bar,

Bebendo sem parar.

ooooooooooooooooooooo

 Há um lado em mim que já morreu.

Às vezes penso se esse lado não sou eu.

2 Comments

  1. Excelente crónica, Rachel. Há personagens e acontecimentos que merecem ser evocados. O que não é escrito, não existe. A palavra é o eixo, o suporte da memória colectiva. Nesta Carta do Rio por palavras contidas, mas rigorosas, recujpera-se uma vida intelectual que seria crime deixar na sombra. Não conhecia Paulo Mendes Campos. Deste lado do Atlântico ignora-se muito do que se passou e passa no Brasil. E o contrário também ocorre – «tanto mar a nos separar»… Parabéns Rachel Gutiérrez.

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