Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Valls, o aprendiz de feiticeiro – As manobras do executivo voltam-se contra o PS
David Desgouilles, Valls, l’apprenti-sorcier – Les manœuvres de l’exécutif se retournent contre le PS
Revista Causeur, 19 de Fevereiro de 2015
Ele devia certamente andar a sonhar com isto. Sacar do seu 49.3. Mostrar que é o chefe. Manu Militari, como o alcunhou Libération, Valls decidiu que a lei Macron era a ocasião de pôr em ordem estes malditos cidadãos fraudulentos, empecilhos que querem impedir de liberalizar a torto e a direito. “Não há outra alternativa” à sua política, martelou na terça-feira à noite no Telejornal de TF1, apelando implicitamente às ideias de Maggie, e da sua TINA. Um verdadeiro macho dominante, Margaret Thatcher! Um modelo. Não é certo que Emmanuel Macron tenha ficado satisfeito, ele que assegurava o serviço pós-venda do anúncio do 49.3 sobre a outra cadeia de televisão, com a manifestação de autoridade do Primeiro ministro. O ministro da Economia pensava certamente que a lei podia passar sem a ajuda do martelo-pilão da Constituição.
E talvez a perguntar se esta decisão também não estava destinada a amarrá-lo também, a impedi-lo de ganhar uma bonita vitória e em que esta teria sido apenas a sua vitória. Mas voltemos aos contestatários. O que motiva Valls a visá-los é, sobretudo, a propensão deles a pôr em causa a sua legitimidade em dirigir uma maioria de esquerda, de recordar incessantemente que a linha que ele encarna não recolheu mais do 5% nas primárias de Outono de 2011. E quererem preparar um congresso onde ele não pesaria muito mais. É necessário por conseguinte cortar-lhes as patas. A melhor defesa, é o ataque. Ouviu-se esta quarta-feira o deputado Christophe Caresche reclamar que a pertença ao grupo socialista na Assembleia esteja a partir de agora sujeita a uma fidelidade sem falhas à disciplina maioritária. Deste modo, ele indicava claramente a saída, não somente do grupo mas também do partido. O mundo às avessas. Estes contestatários que permanecem os únicos a fazer ouvir uma música socialista, não seriam eles que deveriam deixar o seu partido? É evidente que é o congresso de Junho que arranca. O desafio lançado à esquerda do partido pelos Valls e os seus apoiantes constitui uma arma de dois gumes. Comportando-se desta maneira, o primeiro ministro fixa os seus oponentes. O bumerangue lançado com o 49.3 poderia nessa altura vir a ser um tiro pela culatra, demonstrando a fraqueza do seu peso político no partido. Ver-se-á então se a sua espingarda de um só cano e de um só tiro não vai funcionar apenas como uma obra de aprendiz de feiticeiro.
Aprendiz de feiticeiro, Manuel Valls foi-o inegavelmente, quando era ministro do Interior, e preparou o novo modo de voto nas eleições departamentais. Esta eleição de notáveis, no entanto, tinha servido impecavelmente os edis socialistas na altura da década precedente. A obsessão socialista pela paridade combinou-se com a vontade de Valls de politizar a eleição. O número de cantões tem sido normalmente dividido por dois, mas é necessário doravante eleger um binómio paritário de titulares e outro de substitutos, ou seja uma lista de quatro nomes. Somente os partidos realmente instalados têm a capacidade de apresentar tais candidaturas. O notável dissidente, o pequeno partido que obstrui, está daqui em diante na impossibilidade de fazer concorrência aos grandes partidos. Valls, agindo desta forma, estaria a pensar em pôr travões à Frente Nacional, apostando na dificuldade histórica dos frentistas em encontrar candidatos? Se for este o caso, errou, dado que Marine Le Pen anunciou que o seu partido está representado em 95% dos cantões. Sobre este plano, apresentamos o nosso pedido de desculpas pelo nosso erro. Há dois meses, tomando o exemplo do departamento de Jura , apostávamos na impossibilidade de a Frente Nacional estar presente em mais de três cantões. Em algumas semanas, conseguiu fazê-lo na quase totalidade dos cantões (16 sobre 17) e dar-se ao luxo de não obstruir o presidente da câmara municipal de Saint-Claude. Como votarão os eleitores, com estas espécies de listas de quatro nomes? Mudarão constantemente de nomes e votarão pelo rótulo partidário. Com este tipo de jogo, é a FN que será o vencedor. O PS, que teria podido contar sobre o balanço local dos seus numerosos conselheiros gerais, agora de saída, será quem perde. Pior ainda, Valls brincou duplamente com o fogo aumentando para 12,5% dos inscritos o limiar para ser candidato à segunda volta no caso de terceiro ou quarto lugar na primeira volta. Anteriormente, era necessário ter 10% dos sufrágios expressos. Ainda aqui, visava-se sem dúvida a Frente Nacional. E esta determinação irá atingir na maior parte dos casos o PS, é o que podemos apostar a partir de hoje. As eleições departamentais serão uma verdadeira carnificina para o PS; Manuel Valls terá afiado ele mesmo as facas com a sua reforma do processo eleitoral.
Aposta-se também e desde já que ele será considerado o culpado da derrota a partir de 30 de Março. Nesse momento, todos os que constituem o viveiro de membros do PS (eleitos, colaboradores de eleitos, etc.) e que terão sido enviados para enfeitarem as prateleiras do PS por causa desta reforma genial, por quem é que se pode pensar que eles votarão no próximo Congresso do PS? Votarão naqueles que apoiam o jovem aprendiz de feiticeiro que se sonha um macho dominante? Sinceramente, duvidamos que assim seja.
David Desgouilles, Revista Causeur, Valls, l’apprenti-sorcier-Les manœuvres de l’exécutif se retournent contre le PS.
Texto disponível em: http://www.causeur.fr/valls-loi-macron-departementales-31564.html
*Photo : WITT/SIPA. 00705200_000003.
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There is no alternative ↩
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L’alinéa 3 de l’article 49 ne peut, depuis la réforme constitutionnelle de 2008, être utilisée qu’une seule fois par session. ↩




