Manuel Alegre, é um dos actores da cena política nacional mais difícil de enquadrar numa das muitas «sensibilidades» em que o Partido Socialista está dividido e as quais abrangem um leque que vai desde a direita, neo-liberal e anti-socialista, a uma esquerda ideologicamente subsidiária da social-democracia. Mantendo uma atitude hierática, bom poeta, não tem a sua produção de teoria política, nem a sua prática como quadro partidário correspondido ao papel de oráculo que parece querer desempenhar – alguém que no momento oportuno esclarece o que se apresenta nebuloso. Alegre é o líder e o único seguidor da corrente «alegrista».
Segundo os jornais hoje revelam, Alegre manifesta perplexidade ante a passividade de António Costa e exige que o secretario-geral peça a demissão do primeiro-ministro. Alegre diz não compreender o silêncio dos socialistas face ao caso das dívidas. O PS já devia “ter confrontado o primeiro-ministro com a obrigação ética e política de se demitir”. “Parece que Pedro Passos Coelho beneficia de uma absoluta impunidade política”.
A semana passada, depois do elogio do líder do PS ao trabalho do Governo, o antigo deputado exigira a Costa a ruptura total e clara com a austeridade. Agora, manifesta perplexidade pelo PS e os “outros partidos de esquerda” não terem ainda exigido a demissão de Passos perante as dívidas à Segurança Social. Segundo Alegre, já houve ministros que “por menos que isto se demitiram”, citando o caso de António Vitorino, que deixou o Governo de Guterres no verão de 1997 por causa de um problema de sisa. E no estrangeiro, por pecados menos graves ocorrem demissões nos governos. Só que “parece que Passos Coelho beneficia de uma absoluta impunidade política”. Alegre parece esquecer-se de que as demissões de Guterres e Vitorino foram mais motivadas por oportunismo político, largando uma batata quente que ameaçava explodir, do que pelas alegadas questões de ética. Para quem não tenha a memória excessivamente curta, foram dois maus exemplos.
A declaração de Alegre tem a importância que tem e, dadas as circunstâncias, é quase irrelevante. É mais um a juntar à lista de faits divers com que se alimenta a actualidade política. Apenas esclarece o carácter nebuloso que a ideologia do Partido Socialista assume – diversas cortinas de palavras inconsequentes e vagamente progressistas que cobrem a paisagem clara de uma prática neo-liberal – um partido de direita alternativo do que neste momento está no governo e que, como o elogio de Costa a este lamentável executivo o demonstram , se for eleito será tão lamentável como o de Passos Coelho. E que logo a seguir a ser empossado. começará a ser contestado pelos partidos e movimentos ditos “de esquerda”, pelos sindicatos… A commedia dell’arte, com arlequins, pierrots, columbinas e malatestas a desempenharem os seu papéis. E nós, pagando um espectáculo de má qualidade a peso de ouro. Pagando-o com sangue, suor e lágrimas.
Até quando vamos desempenhar o papel de papalvos? Quando é que nos resolvemos a saltar para o palco?
