A IDEIA V-VISÕES DA NÉVOA: SURREALISMO & BRASIL -por FLORIANO MARTINS

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(Continuação)

Vejamos mais detalhes. Murilo Mendes publicou uma série de artigos no jornal O Estado de S. Paulo, na década de 1940, onde esclarece, ao tratar especificamente de Ismael Nery, as dúvidas eventuais acerca dessa insólita relação entre Surrealismo e cristianismo. Vejamos uma passagem em que se refere ao perfil dos intelectuais brasileiros na época: Os intelectuais eram, na grande maioria, agnósticos, comunistas ou comunizantes. Mesmo muitos com tendências espiritualistas disfarçavam-nas, por respeito humano. A religião aparecia-nos como qualquer coisa de obsoleto, definitivamente ultrapassada. O catolicismo era sinônimo de obscurantismo, servindo só para base de reação. Não era possível, sobretudo a uma pessoa de bom gosto, ser católica. Nós todos éramos delirantemente modernos, queríamos fazer tábua rasa dos antigos processos de pensamento e instalar também uma espécie de nova ética anarquista (pois de comunistas só possuíamos a aversão ao espírito burguês e uma vaga ideia de que uma nova sociedade, a proletária, estava nascendo). Nessa indecisão de valores, é claro que saudamos o Surrealismo como o evangelho da nova era, a ponte da libertação.[23]

É neste momento que surge o conceito de Essencialismo, doutrina singular evocada por Ismael Nery e que se caracterizava, dentre outros motivos, por uma “alergia à desproporção”, no dizer de Murilo Mendes: O espírito do homem moderno caracteriza-se, sobretudo, pelo cansaço que tem das pesquisas inúteis; qualquer ideia de inutilidade nos repugna, sobretudo hoje, em que descobrimos que poderemos usar toda a ciência acumulada pelos homens de outras épocas, com a seleção inconsciente de um sistema de vida para fundarmos o domínio da pura consciência e da razão, pois já podemos dizer que o campo experimental da vida foi todo explorado, se bem que não esgotado. Se estudarmos a vida de um homem veremos que toda parcela de adiantamento moral foi obtida em período em que ele conseguiu harmonia entre sua vida e a vida exterior, produzindo isto a sensação da felicidade. Não pode haver felicidade quando se nota desarmonia de ritmo entre a vida interior e a exterior, por isto será inútil uma filosofia que nos ensine justamente a controlar estas velocidades.[24]

Esta harmonia entre vida interior e exterior dá ao pensamento – e, por extensão, à poética de Murilo Mendes um caráter mais amplo do que a simples conversão a um modelo religioso, e evidentemente contribuía para a busca, no homem, de conhecimento e reconhecimento de suas mais extremas possibilidades. Ao comungar com as ideias de Ismael Nery, Murilo o faz consciente de que o caminho que estava desbravando não encontrava refúgio no Surrealismo ou no formalismo da tradição lírica brasileira, possivelmente nos dois casos por igual motivo, o de entender a ambos como exemplos de desproporção, segundo ele, a ausência de uma “sabedoria harmônica”. A respeito de Breton, disse certa vez que “era obsedado pela ideia da descoberta da coisa mágica, do ‘sobrenatural’ na vida cotidiana; grato a Huysmans cujos livros muito o ajudaram a progredir neste terreno, e a quem ele chamou ‘o mais estrangeiro de meus amigos’, se bem que por outro lado tantos motivos os separassem, já que o autor de Lá-Bás era católico”.[25]

Murilo Mendes foi amigo de muitos surrealistas, especialmente dos artistas plásticos, e, ao escrever sobre alguns deles, jamais deixou de afirmar suas ideias acerca do Surrealismo. Além do espírito duro de Breton, para o brasileiro menos tolerante e eclético que o seu próprio, dois outros aspectos no movimento francês incomodavam o autor de Mundo enigma. O primeiro deles encontramos na recordação que tem de seu encontro com Max Ernst: “orientada a conversa para o Surrealismo e sua missão de vanguarda entre as décadas 20 e 30, o pintor vai resumindo as dificuldades que teve com o grupo, até a ruptura definitiva, em 1938, quando alguém, credenciado, procurou-o com o fim de informá-lo que, por motivos políticos, cada surrealista devia empenhar-se em sabotar por todos os modos possíveis a poesia de Paul Éluard”.[26] O segundo aspecto, o encontramos em um texto seu sobre René Magritte: O Surrealismo, teoricamente inimigo da cultura, tornou-se num segundo tempo um fato de cultura; e muitos surrealistas, superando a técnica do automatismo, dispuseram-se a trabalhar com um método planificador. Por isto mesmo, quando uns vinte anos atrás Breton procedeu em Nova York à revisão analítica do movimento, a contragosto incluía Magritte entre os pintores surrealistas, insinuando que o seu processo de compor não era automático, antes plenamente deliberado.[27]

Ou seja, os excessos na postura iconoclasta de muitos surrealistas, juntamente com o método do automatismo convertido em religião – segundo o poeta brasileiro, aí residia o “desleixo artesanal surrealista” –, seriam razões suficientes para que Murilo Mendes mantivesse sempre certa reserva em relação ao movimento. Observados estes aspectos, é possível entender muito bem sua famosa frase que no ambiente intelectual brasileiro soou como uma rejeição ao Surrealismo. Reproduzo aqui a frase em seu contexto, para que fique melhor compreendida. Em texto escrito em face da morte de Breton, ao recordar seus encontros – em 1952 e 1953 – com o poeta francês, nos diz: Reconstituí também épocas distantes, a década de 1920, quando Ismael Nery, Mário Pedrosa, Aníbal Machado, eu e mais alguns poucos descobríamos no Rio o Surrealismo. Para mim foi mesmo um coup de foudre. Claro que pude escapar da ortodoxia. Quem, de resto, conseguiria ser surrealista em full time? Nem o próprio Breton. Abracei o Surrealismo à moda brasileira, tomando dele o que mais me interessava; além de muitos capítulos da cartilha inconformista, a criação de uma atmosfera poética baseada na acoplagem de elementos díspares. Tratava-se de explorar o subconsciente; tratava-se de inventar um outro frisson nouveau, extraído à modernidade; tudo deveria contribuir para uma visão fantástica do homem e suas possibilidades extremas. Para isto reuniam-se poetas, pensadores, artistas empenhados em ajustar a realidade a uma dimensão diversa. Os surrealistas, com efeito, não se achavam fora da realidade. Reconhece-o – muito tarde! – o dissidente Aragon, que nos recentíssimos Entretiens avec Francis Crémieux faz justiça ao Surrealismo e lhe atribui alta missão histórica. Mas não resta dúvida que num primeiro tempo a rigidez do método da escritura automática provocou numerosos mal-entendidos.[28]

NOTAS

[23] Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 01/07/1948, cuja série foi posteriormente reunida em livro, Recordações de Ismael Nery. São Paulo: Edusp, 1996.

[24] Mais um dos artigos da série referida, este com data de 30/07/1948.

[25] “André Breton”, em Retratos-relâmpagos, 1ª série. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1973.

[26] “Max Ernst”. Retratos-relâmpagos. Ob. Cit.

[27] “René Magritte”. Retratos-relâmpagos. Ob. Cit.

[28] “André Breton”. Retratos-relâmpagos. Ob. Cit.

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