A IDEIA – Brito Camacho – por Gonçalves Correia

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Imagem1Brito Camacho — de quem apenas duas vezes na vida foi possível acercar-me, uma no comboio, de viagem entre Beja e o Carregueiro, e outra no Centro Socialista do Benformoso [em Lisboa], onde fui ouvir-lhe uma conferência — era personalidade a que só os asnos negam valor. Sou insuspeito porque o grande jornalista morto não era meu camarada de ideias.

Procuro ser justo e humano quando faço justiça aos adversários. E Brito Camacho, tendo-o sido, creio que o era por erro de visão e não porque em sua Alma se albergassem ruindades detestáveis. Pilar da república burguesa, aspirava, assim o creio, a humanizá-la tanto quanto possível. E isto, sendo pouco para os insofridos de perfeição, como eu, era alguma coisa de honesto.

Pretendi, quando do meu encontro no comboio com o combatente tombado, “meter conversa”: isso não foi possível, porque a viagem foi curta e eu nunca tinha chegado à fala com aquele que foi grande e que nascera relativamente próximo da minha aldeia humilde. Senti o facto, pois sei, felizmente, entender-me com os adversários, entretendo com eles uma conversação que, embora entusiástica e marcando a minha posição nos combates do espírito, é sempre correcta e cortês.

Na conferência acima citada, que o batalhador de A Luta realizou no Benformoso, pedi a palavra no final, declarando que eu faria outra de controvérsia dali por 15 dias, para a qual ficava convidado o Dr. Brito Camacho. Por razões superiores à minha vontade, não me foi possível realizar essa conferência.

Brito Camacho foi, quanto a mim, bastante grande como escritor e propagandista político. Orador de modestos merecimentos, notabilizou-se com a pena, que manejava duma maneira habilíssima, pondo a descoberto os podres monárquicos, que escalpelizou com energia invulgar.

A pena foi a grande arma de Brito Camacho, sendo certo que os seus livros, que são numerosos – talvez perto de 30 – se leem com agrado, saltando por vezes gargalhadas sonoras à boca do leitor, vivamente atraído pela descrição colorida e jocosa de certos episódios hilariantes e burlescos. Gente Rústica, se bem me lembro, é um deles, que fica a par de tantos outros que o artista legou à posteridade.

É certo que não conheço inteiramente a obra do grande Fialho, o artista máximo dos “Ceifeiros” e dessa obra-prima, honra da literatura mundial, que se chama “Mater Dolorosa”. Mas conheço algo dela, como se vê da referência que aqui deixo exarada, podendo dizer que Brito Camacho tem páginas, muitas páginas, que se igualam às de Fialho d’Almeida, o que é uma honra para o grande artista que nasceu no Monte das Mesas, próximo de Aljustrel.

Produzir bom, é bastante; mas bom e muito, como sucedeu com o autor da Gente Rústica, é ainda mais apreciável. Ora, Brito Camacho foi inegavelmente fecundo, e mais o seria se a morte o não arrebatasse numa idade que não era demasiadamente avançada.

Alguns adversários, dos que o foram com rancor, atacaram-no pelo desalinho da sua descuidada indumentária, esquecendo que as Almas superiores ligam pouca importância ao lustro das botas, procurando antes dar lustro ao espírito…

Embora político burguês, está provado que foi honesto, não emporcalhando as mãos nos cofres públicos, ao contrário de muitos para quem a política é larga gamela onde saciam o apetite devorador e insatisfeito. Isto é alguma coisa de apreciável.

Disse-me alguém, não há muito tempo, que o distinto jornalista republicano pensava em dar um passo em frente, aderindo ao partido socialista. Se bem que para os da minha trincheira isso fosse coisa quase banal, o facto, a ter existido em mente do homem público que há pouco recolheu ao cemitério da laboriosa vila de Aljustrel, revela um sincero desejo de Progresso espiritual, o que é excelente.

Quando os meus adversários, em 1918, no tempo do sidonismo, pretenderam envolver-me em determinados acontecimentos lamentáveis, a que fui completamente alheio, Brito Camacho, enganado por quem lhe não dizia a verdade, teve para mim palavras ásperas. Esqueci-as, perdoando, por ter a certeza de que o famoso político fora iludido na sua boa-fé.

O mais lindo gesto que se pode ter é ser justo com os adversários. Coerente com este simpático pensamento, quero fazer justiça a Brito Camacho, que, não militando no meu credo ideológico, procurou ser razoável não odiando os que não liam pela sua cartilha.

Lembro com emoção o episódio, que só por um triz não foi trágico, sucedido na noite em que Sidónio Pais foi assassinado, episódio em que Brito Camacho ia perdendo a vida, suspensa do cano da pistola dum facínora. Lobo Pimentel, embora sidonista cotado, salvou a vida a Brito Camacho, seu adversário. Atenda, Lobo Pimentel: — eu, que sou seu adversário também, louvo-o com entusiasmo pelo lindo acto que praticou!

E mais não me ocorre dizer hoje do destacado alentejano que há pouco deixou a vida, entrando definitivamente nesse mistério insondável que é a morte.

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