Texto transcrito de O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques.
1 – É uma ousadia o acto que assumo perante vós: só se explica porque a boa convivência e a amizade têm obrigações que se tornam tanto mais compulsivas quanto vêm acompanhadas pela lhaneza de trato e pela solidariedade de estarmos em linha com responsabilidades comuns, como são as que procedem do mandato divino de anunciar o Evangelho ao Mundo inteiro.
Não fora isso e teria respondido negativamente, e de forma peremptória, ao convite do Dr. Timóteo Cavaco, da Sociedade Bíblica, para estar aqui: efectivamente, não sou biblista, sou filólogo (por obrigações profissionais); além do mais, se sou filólogo, sou de outra filologia que é de matriz clássica (grego e latim) e apenas respondo casualmente pela língua portuguesa (enquanto derivada do latim) e não por outras que quase desconheço, como é a língua mirandesa.
E, no entanto (eppure, como diria Galileu, confundido com a autoridade dos seus contendores), aceitei o encargo que é nada menos o de apresentar a público a tradução para mirandês de Os Quatro Evangelhos, feita pelo Dr. Amadeu Ferreira.
Se me perguntarem porque assim procedo, quase não saberei dizê-lo, ou terei algum acanhamento em responder, e não estranho que outros tenham ficado surpreendidos por não ter sido outro o preferido. Na parte que me toca, fui aprendendo na vida que negar um convite é deselegante, mas que a negação, às vezes, obriga a muitas explicações, nem sempre sinceras. É facto que, inicialmente procurei esquivar-me, pois estava (e estou) convencido de que havia um equívoco ou, no mínimo, um desvio no encaminhamento da mensagem por mim recebida. Confrontado com a insistência, acentuei que havia qualquer equívoco quanto a predicados que estivessem a ser pressupostos; porém, em combate desigual, acabei por me conformar, pois não tinha tido tempo para alinhar argumentos que me deixassem de consciência tranquila na recusa: afinal, quando os que deviam estar se recusaram ao banquete evangélico, não faltou quem fosse cooptado nas encruzilhadas dos caminhos para encher a sala das bodas (sem qualquer mérito da sua parte).
Havia, efectivamente, poucos argumentos que me convencessem a estar aqui. Na verdade, ter-me dedicado, com alguma persistência, a seguir a saga das traduções portuguesas da Bíblia não chegava, mas ter-me convencido de que o processo foi lento e não está todo desvendado despertou em mim novo interesse e obriguei-me a olhar para além dos meus horizontes habituais. Em anos passados, foi por razões científicas (mas também de amizade) que me acerquei das traduções da Bíblia em português, em problematização e em análise de conjunto[2], para depois atender a testemunhos menos frequentados, como o da tradução quinhentista do Livro do Eclesiastes, feita e publicada por Damião de Góis, em 1538 (impressor Estêvão Sábio)[3]; atrevi-me a fazer o percurso das traduções da Bíblia em português[4]e estou convencido de que há segredos a desvendar: em tempos recentes, nas colecções esquecidas da Biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa, consegui identificar o manuscrito de um dos volumes da tradução dos Salmos, feita pela Marquesa de Alorna, de que colhemos informação num dos verbetes da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira; devo confessar que não desisti, ainda hoje, de, em tempo oportuno, me dedicar ao estudo das variantes rejeitadas a João Ferreira de Almeida – que foi traído pelas exigências de autoridades que presidiram à edição primitiva, mas cujas revisões de autor nunca foram especificamente atendidas[5].
Ter eu próprio aceitado, em tempos, rever uma tradução dos Evangelhos[6], para um trabalho colectivo que nunca passou daí, também não me dava créditos ou méritos de maior, pois nunca mais voltei formalmente a tal exercício, embora repetidas vezes a mim mesmo tenha imposto rever a forma dada a público. Razões sobrariam, pois, em juízo crítico, devo confessar que não me agradam totalmente as traduções que servem para a proclamação litúrgica da Igreja Católica; algumas lições não deixam de me causar arrepios…
Não é fácil revermo-nos na voz de outros para a fazermos nossa, quando nós mesmos no sentimos implicados no texto que foi objecto de tradução. Para convocar um exemplo, confesso que nunca entendi o que era «o servo inútil» que cumpriu os seus deveres – no contexto, não posso senão entender que se trata de «um servo banal» que se limita às obrigações básicas e não toma iniciativas, pelo que não pode estar à espera de recompensa complementar (porque já a tem e não deve arvorar-se em reclamante daquilo que lhe não pertence); se outro exemplo fosse necessário, também me parece que uma partícula desiderativa negativa («oxalá que não») não pode ser tomada como conjunção final (Mat. 13, 15), pois põe distorce o sentido de um passo de Isaías colocado nos lábios de Cristo; enfim, para um terceiro caso, o «administrador esperto» de algumas versões soa a banalidade: trata-se do «espertalhão», que é oportunista e só pode ser «safado», mas, por exigência de decoro em linguagem nobre, não admitiremos tal termo em contexto litúrgico, por andar coçado nos bancos de todos os dias.
Por uma vez, não irei dar lições de Filologia a quem pretende seguir regras da exegese bíblica, mas talvez alguém as devesse pedir… Não deixarei, porém, de dizer a mim próprio que a cultura da tradução exige normas e não pode prescindir de níveis de linguagem que se coadunem com a dignidade da Palavra, com a solenidade da situação de uso, com a relação de respeito, com a retórica da proclamação: em nome de todos esses predicados, haverá que buscar a palavra mais apropriada em qualquer língua quando nela há-de incarnar a Palavra de Deus – que é viva e deve interpelar (tanto mais se perde quanto é banal o termo em que se converte)[7].
2 – Não foi, todavia, para discutir problemas como estes que aqui cheguei, trazido por mão amiga. Na realidade, fácil me era admitir que estava convidado para uma festa e não para um exame (nem de mim a outros, nem dos outros a mim); convenci-me que era (e é) minha obrigação participar nesta festa da língua mirandesa, pela boa razão de também ela entrar agora no coro das traduções bíblicas. Venho confiante em que me empresteis os trajes convenientes (provavelmente um capote de romeira, que me abrigue do frio que aí vem) para que não seja colocado fora dessa festa, sobretudo porque há alguém que nunca falta quando dois ou três se reúnem em nome d’Ele (Mat. 18, 20).
O mordomo-mor da festa é o editor, a Sociedade Bíblica. As atenções, por outra parte, vão para o Dr. Amadeu Ferreira, a quem devemos a razão de ser desta iniciativa, pois dele é a tradução d’ OsQuatro Evangelhos, na voz mirandesa resgatada de uma ausência que agora se preenche com Ls Quatro Eibangeilhos. Cumpre-me saudar o esforço a que o tradutor se entregou depois de se ter exercitado noutros trabalhos do mesmo género: ao chegar a este, quase parece que, pelos outros trabalhos, se quis preparar para ele.
Cumpre-me louvar o esforço do Dr. Amadeu Ferreira, licenciado e mestre em Direito, que, não obstante outras obrigações de ofício, não se poupou ao trabalho de pôr em nova língua Os Quatro Evangelhos de Jesus Cristo. Melhor do que eu saberá ele, se assim o entender, enunciar as razões que o levaram a esta experiência de tradução e explicar os processos de que se valeu, depois de várias outras experiências por textos formalmente muito exigentes, ainda que doutrinariamente não tão delicados: sabe ele, por experiência, como é delicado expor-se a sensibilidades alheias, pouco habituadas a linguagens novas e como é necessário um trabalho honesto (sincero e aturado) para enfrentar melindres de contraposições que podem advir de o texto de base ser conhecido e ter entrado por outras vias.
À primeira vista, tratando-se de um texto conhecido das gentes de Miranda (de há muito evangelizadas – não é fácil remontar no tempo e perceber por onde e por que linguagens o foram), poderia parecer fácil entrar nele. Quanto a isso (da convivência com a Bíblia por parte das sucessivas gerações do planalto mirandês) porventura Amadeu Ferreira tem informações que alarguem os nossos horizontes e terá também confidências a fazer sobre dificuldades a vencer, sobre hesitações ultrapassadas, sobre adopção de expressões da linguagem, sobre eventual aceitação de modismos entrados na cultura daquelas gentes do planalto de Miranda… Na verdade, uma língua não se faz em dois dias nem se esgota nalgumas possibilidades e há porventura escolhas motivadas para o registo de um texto com séculos de história e conhecido por outros intermediários.
Na minha ignorância da língua mirandesa, através do português e da língua que serviu de base (o latim), aventurei-me a analisar um ou outro parágrafo: com resultados positivos – devo antecipar.
Seja o que marca a entrada de Jesus na vida pública, após a experiência do deserto, na versão de Marcos, 1, 12-13:
«Lhougoapuis, l Spritoampurrou-lopa l zerto. Eilhi, ne l zerto, stubo quarenta dies i era atentado por Satanás; bibieculsbichos de l monte i ls anjos andában a serbirpar’el.»
Procurei uma tradução que tem como patrocinador um grande exegeta e poeta, o jesuíta Luís Alonso Schökel, dada em português no Brasil[8]. Traduz ele:
«Imediatamente o Espírito o levou ao deserto, onde passou quarenta dias, posto à prova por Satanás. Vivia com as feras e os anjos o serviam.»
Tomo outra tradução, a da Bíblia para todos – edição interconfessional[9], preparada por um grupo de biblistas portugueses:
«Logo a seguir, o Espírito conduziu Jesus para o deserto. Ficou no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava entre os animais selvagens e os anjos o serviam.»
Para maior acribia fui à versão da Vulgata latina que o nosso tradutor tomou como instrumento de trabalho (atendo-se à revisão recente):
Voltando à tradução para mirandês, apraz-me salientar que o tradutor não optou por uma literalidade ingénua, mas procurou acentuar aspectos que denotam bem a vivência de um texto que toma com sensibilidade literária e elegância discursiva. As marcas são de vária ordem, com sinal positivo em mérito do nosso tradutor:
1) a notação de tempo ajusta-se primorosamente à situação (seja de ponto de partida, seja de continuativo): «logo após / Lhougoapuis»; «ls anjos andában a serbirpar’el»; por detrás de «ls anjos andában a serbirpar’el», julgo descortinar a correspondência de uma continuidade temporal na prestação dos anjos que, mesmo que se não vejam, não saem do lado de Cristo e não se limitam a acto isolado;
2) a variação de lexemas e a explicitação de algum significado depõe igualmente em favor do trabalho realizada: assim, em «bibieculs bichos de l monte» (nas traduções referidas, apenas Schökel usa «viver» em vez de «ser»); na nova tradução, não há apenas a marca de continuativo, mas também uma conotação de familiaridade que remete para os tempos genesíacos, no convívio de Cristo, o Novo Homem, com os animais;
3) em ajustamento de língua, evita-se termo menos comum: julgo que por algum lexema equivalente a «feras» não estar ao alcance da linguagem activa das gentes das suas terras, o tradutor optou pela expressão «bichos de l monte»;
4) pressinto também ajustamento ao original: em «l Spritoampurrou-lopa l zerto» noto uma fidelidade directa à versão do grego e do latim: de facto, ἐκβάλλει = expellitobrigará qualquer tradutor a não esquecer o «impulso forte» vindo do Espírito que «empurra» Cristo para o deserto, como traduz a Bíblia de Jerusalém (impeliu) ou como entende a Bibleda Bayard (l’entraîna).
Com todas as reservas, bastará este pequeno exercício analítico para dar conta do zelo e cuidado havido pelo Dr. Amadeu Ferreira para constituir a sua tradução. Considero assim que não é retórica a confissão de que procedeu a revisões ao longo de vários anos (o editor aponta que houve duas revisões, embora não esclareça como procedeu: se foi no segredo do gabinete ou se foi em discussão de grupo). É um dado que todos os que nos dedicámos à tradução de algum texto (e tanto mais quanto ele goza de autoridade, por ter sido integrado em comunidade de uso e de cultura – muito mais quanto ele entre em ritual de culto) sabemos o melindre do trabalho: uma tradução é uma aproximação; a de um texto sagrado tem de jogar com várias aproximações – pessoais e colectivas. Justamente porque se trata de um texto comunitário, muito apreciaríamos saber até que ponto as revisões tiveram em conta alguma recepção experimentada em grupos mais ou menos largos das terras mirandesas.
Quanto a este aspecto, tenho ainda na memória alguns relatos de alunos e companheiros meus provenientes da região de Vimioso e de Vinhais (e de outros lados) que reconstituíam com grande vivacidade algumas representações bíblicas, como a do «Filho Pródigo»: possivelmente, essas representações faziam-se em língua da terra, em vernáculo puro e não em versão da língua comum.