HOMENAGEM A AMADEU FERREIRA – 2 – Uma Voz que faltava na Sinfonia Bíblica: O Mirandês e «Ls Quatro Eibangeilhos» – por Aires A. Nascimento

Texto transcrito de O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques.

(Continuação)

Imagem13– Felicito o tradutor pelo trabalho que nos apresenta e certamente as gentes da sua terra gostarão de ser rever nele. Quanto a mim, que não tenho origem mirandesa mas comungo das suas vidas por sentimentos vividos com outros, sinto grande alegria em partilhar com as gentes de Miranda nesta iniciativa. Alguns dos meus amigos e companheiros de percurso de vida não deixarão de se sentir mais irmanados com as suas gentes através desta versão; não sei quantos foram e são, mas imagino como eles irão saudar este trabalho: tive um colega que era de Sendim, outro que veio de Vilar Seco, alguns outros que eram de Genízio (como era o Sebastião João e os seus irmãos – o Laureano, o Basílio), outros vinham de aldeias vizinhas, uns pertencentes a terras de Miranda, outros de Vimioso, outros mais de Macedo de Cavaleiros ou Bragança. Com eles aprendi em tempos a dançar os pauliteiros; em algum momento passei pelo planalto de Miranda, mas nunca com disponibilidade para me entreter com as suas gentes e aprender a língua de seus avós – que academicamente fui levado a entender como variedade de leonês encravada em território nacional. Conheci ainda António Maria Mourinho (autor dos livros: Nossa Alma e Nossa Terra, poesia, 1961, ScobaFrolidaAn Agosto / Lhiênda de Nôssa Senhora de l Monte de DuesEigreijas, 1979; Ditos Dezideiros, 1995) e conheci também os seus sobrinhos António e Margarida (que não vejo há muito tempo). Não tive convívio bastante e descomprometido com eles para aprender a língua das suas terras – pois a língua comum era outra e o mirandês apenas em alguma montagem de disfarce em dias de descontracção nos deixava ao saber da recomposição levada a palco em dia de festa.

Hoje estamos mais disponíveis para a diversidade, em convívio alargado. Admitimos mesmo que não há línguas que sejam dispensáveis e espero que não fiquemos alguma vez condenados ao mundialês, tosco e sem vibração (como é o globlischque aparece no horizonte). Somos a nossa língua, ainda que sem desprezarmos a língua de outros.

Nem por isso deixaremos de nos rever na expressão pessoana de que «minha pátria é a língua portuguesa». Por contraposição, e em emulação, vale a pena rever expressões do poeta:

«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente; mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a página mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada (…).»

Entusiasmara-se o poeta com a versão majestática, polida e nobre, de um texto do P.e António Vieira e não conteve as lágrimas:

 «Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão, «Fabricou Salomão um palácio…» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquelle assombro vocálico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é — não — a saudade da infância, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d’aquelle momento, a mágua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphónica.»[10]

O amor da língua pátria (terra de base) está bem retratado nesse trecho: a partilha dessa língua com os outros e sobretudo a comunhão com aqueles que lhe dão nobreza e dignidade dá-nos dimensão cultural e orgulho de comunidade que se revê na língua.

Têm as gentes de Miranda o direito a reivindicarem o uso da sua língua para os textos que mais estimam, sem que ninguém lhes possa tolher esse direito, mas também no sentimento de nesses textos investirem o que de melhor têm na sua língua.

Já era tempo de, na constelação bíblica, estar também a língua mirandesa: não porque as gentes de Miranda não entendessem a língua comum, o português, mas porque há expressões que se sentem melhor em registo da língua materna e porque esta merece o tratamento que acolha o apreço de uma comunidade alargada.

Em exercício de trabalho profissional, ao longo da minha carreira académica, trabalhei sobretudo com textos escritos em língua de cultura comum, o latim, espalhada por regiões diversas – da costa ocidental até países do centro da Europa e do norte da mesma – nas suas variedades medievais; dessa língua se dizia que as variantes regionais não colidiam com os usos comuns e que isso abonou em favor de uma consciência cultural que serviu a coesão das gentes; por sua parte, a língua comum serviu a circulação das pessoas e permitiu expressões de níveis elaborados que induziram clarificações e aperfeiçoamentos das línguas pátrias, por tal forma que, no intercâmbio que se foi fazendo, se originaram formas de enriquecimento, sem exclusões de ninguém: na diversidade de documentos latinomedievais que os nossos arquivos guardaram, podemos reconhecer que a língua vernácula passou por ali, em tentativas de passagem da oralidade para a escrita, mas com o reconhecimento da sua identidade que se foi afirmando por entre as diferenças que despontavam na pena dos notários.

Houve nivelamentos e reduções de uso, com esquecimentos difíceis de recuperar: na lonjura dos tempos, olvidaram-se as diferenças regionais e foram precisas reacções de sensibilidades de escritores, como Aquilino Ribeiro, para guardar memórias de língua ou repor em letra de forma o que se ia esquecendo em terras do interior, como as minhas; por insensibilidade, os registos dos dicionários não incluem variantes que dão a dimensão das virtualidades da língua comum ou as variedades que apenas em algumas partes se conservaram – por maior apego à terra e por menos infiltrações exógenas; outras vezes, a palavra tem registo, mas a fixação em termos de uma área de conhecimento, leva a esquecer outros. Se perguntarmos, por exemplo, a um interlocutor se conhece a palavra «alboroque» (em hapologia, também «alborque», ou, em permuta de som, «alvaroque»), muito provavelmente esse interlocutor dirá que tal termo não existe; se insistirmos, esclarecendo que tem registo no Dicionário de Português de Caldas Aulete, o nosso interlocutor alvitrará, porventura, com ar de erudito que não aceita ser contrariado, que se tratará de um regionalismo e com isso descartará o alargamento do seu conhecimento da língua e de um gesto de cultura e de convívio: em oferta de boas maneiras, vale a pena relembrar o valor do termo castiço (segundo explica o referido dicionário, trata-se de «copo de vinho ou refeição oferecida aos presentes na ocasião da assinatura de um contrato, ou depois de realizado um negócio»; o recurso à etimologia, [do ár. al + bo + rok.], alargará os nossos horizontes)[11]. É certo: a vida modula a língua, mas esta há-de servir para alargar horizontes ou convocar os que vivem distantes a partilharem as particularidades sentidas mais intensamente por alguns.

A consciência de que num único território (ainda que reduzido) temos variedades de língua deve servir de estímulo a descobrir a própria língua e a dos outros: numa mesma terra podem conviver várias línguas e nada deve impedir que uma língua comum (sem que tenha de ser apresentada como dominante) seja complementada por outra mais particular – é que nem tudo se sente da mesma maneira e o que se alarga a muitos não deve ser confundido com o que é de poucos (que, às vezes, guardaram expressões de grande riqueza semântica que outros esqueceram ou nunca chegaram a experimentar).

Sem pretensa captatiobeneuolentiae(que seria desajustada), mas com autêntica apreciação da variedade linguística que é o mirandês, só me posso congratular com o trabalho de adequar ao registo escrito a memória que ainda existe das suas potencialidades.

Não deixa de solicitar a atenção o processo inverso. Na língua comum pode ter-se recusado um termo por motivos prudentes e fundamentais: reparo, por exemplo, que na tradução mirandesa d’ OsQuatro Evangelhos se usa o termo «prenhe / prenhado» que a língua portuguesa reservou para as fêmeas dos animais (substituindo-o por «grávido» para a mulher); do mesmo modo, o termo «curral» aparece no episódio da negação de Pedro, quando interpelado pela criada de serviço – a língua portuguesa utilizaria «átrio», que já J. Ferreira de Almeida verte por «pátio» (lição assumida por outros).

É óbvio que o uso quotidiano não tem de confrontar-se com todas as possibilidades nem há que negar diferenciações que, à falta de melhor tradição na própria língua, habitualmente se vão buscar à língua de origem para marcar distinções positivas.

Assim, quando na parábola das Virgens que esperam pelo noivo, em plena noite, leio que o «noivo» é o «moço», tenho receio de que se percam as conotações tradicionais por ser «moço» palavra muito comum. Sintomaticamente, em Joa. 3, 29, o nosso tradutor resistiu a equivalência directa e escreveu: «Quien tem la mulhierye l home, mas l amigo de l home, que lo acumpanha i oube, queda mui cuntento al oubir la boç de l home»; facto é que a notação de esponsórios se perca…

As escolhas obrigam necessariamente a descobrir motivações de língua e podemos perguntar se, mesmo quando se tenha esquecido um termo, vale a pena recuperá-lo na origem: efectivamente, a vitalidade das línguas revela-se também na adopção de termos que se tornam necessários para exprimir realidades específicas ou que há que marcar.

Questão é se, na defesa de uma língua, são desejáveis as contaminações ou se o purismo vai ao ponto de manter distâncias e recusar empréstimos. O problema coloca-se para todas as línguas de contacto; a aposta numa língua não deve ignorar os processos havidos na história de uma cultura. A lição está em Cícero, que emitiu conselhos que valem ainda hoje; inspiraram eles os autores cristãos, que não se coibiram de também dessa maneira moldar a língua das novas comunidades: Tertuliano e Cipriano adoptaram ou inventaram termos quando necessário para corresponderem a exigências das suas comunidades e tal experiência não deve ser ignorada – não teríamos a forma «baptismo», por exemplo, se não tivesse sido respeitada uma unidade de vida que se prolongava para além das diferenças linguísticas)[12].

4-Recordo ainda os tempos em que a diversidade de línguasaparecia sob o signo da contradição, arvorando-se como princípio que as divergências só podiam ser resultado de desvios menos cultos. Preconceito? A questão não é simples, pois reflecte vicissitudes da história de uma cultura (mais aberta ou mais fechada).

Não perdi ainda a memória de como relativamente ao episódio da Torre de Babel, na Bíblia (ponto bíblico originário), se acentuava a diversidade das línguas como resultado de uma dissidência com o divino – como se, naquela narrativa mítica, não houvesse outra mensagem que o da humanidade revoltada contra um Deus que dos Homens não esperava mais que adoração submissa ou se, em contrapartida, a revolta dos homens, figurados em Nemrod (émulo do Prometeu helénico), fosse castigada com a consequente divisão das línguas e o desentendimento entre os homens.

É diferente hoje o entendimento de tal episódio, iluminado, aliás pelos antecedentes que há que reconhecer naquele relato ou pelo entendimento havido pelos Padres da Igreja, que, como Orígenes, perceberam a Torre de Babel à luz do Pentecostes, festa em que cada povo fala a sua língua e todos convergem para confessar as maravilhas de Deus. Tanto quanto se pode descortinar, na Torre de Babel, há o reflexo de uma concepção mais antiga de um Deus que gosta de vir partilhar uma vida com os homens (como, aliás, era o sentido do relato inicial da criação): Babel é Babilónia, contemplada na sua variedade transbordante de gentes e de bens; a Torre é um zigurate que serve de lugar de oração e de encontro entre Deus e os homens; só por maldade dos homens essa Torre se pode converter em lugar de perdição e Babel se torna confusão de gentes. No Pentecostes viram os Padres da Igreja, não tanto o reverso dessa realidade, mas sim a repristinação da realidade primitiva, reconhecendo que todas as línguas exprimem, a seu mundo, a riqueza da Revelação de Deus e de que todas em conjunto não esgotam a riqueza divina. É isso: todas são necessárias para darem a conhecer, nos diversos matizes, a beleza e a grandeza divina que não pode ser expresso de uma só vez e de uma única maneira; os poetas sabem que a realidade não se esgota numa única voz e chegam a reclamar uma «boca bilingue» para enunciarem o que a sua intuição lhes propõe (a expressão é estranha, mas é colhida directamente por Ruy Belo na Vulgata latina).

Babel é assim uma bênção. Não é preciso subir à Torre de Babel para assumir a diversidade de línguas, porque a Torre de Babel é o símbolo de um Pentecostes antecipado, em que, em vez da confusão das línguas, se denota a diversidade delas para representar, tão largamente quanto possível, a riqueza insondável de um Deus que incarna na pessoa de Jesus Cristo – feito Palavra[13].

Na narrativa bíblica convergem tradições e concepções diferentes: afinal, a Bíblia reflecte as contradições dos homens e há-de prevalecer o sentido da Redenção trazida por Cristo; da parte de Deus, a pluralidade faz parte dos planos divinos e são os homens que, buscando totalitarismos de unicidade (um nome único), conspiram para

Repare-se na advertência que, nem por vir de reflexão comum, deixa de ser pertinente (artigo «Notes surlelatinliturgique», vol. II, pp. 93-108 [98]: «sempre que o homem entra em contacto com as coisas divinas e se apresenta perante Deus, o homem larga o domínio puramente humano e profano, pelo que a sua linguagem tende também a afastar-se das fórmulas correntes».

que tal unicidade seja força de contrapeso à divindade; da nossa parte, sabemos que não basta falar uma única língua para que os homens tenham «um só coração e uma só alma» – como acontecia com os cristãos da primitiva comunidade cristã, atravessados pela experiência da Ressurreição de Cristo.

Por paradoxal que pareça, a diversidade suscita o intercâmbio e a partilha. Importa reconhecer que o capítulo do Génesis que narra o episódio da Torre de Babel começa em tom lúgubre: «Toda a gente se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras»; a intenção divina é diferente, pois a diversidade está no âmago da própria criação: do contributo humano depende o entendimento de todos, por superação dos particularismos que fazem parte da nossa condição natural. Por muito que os laços naturais sejam insubstituíveis, é o afecto que lhes dá coesão; a linguagem é a primeira prova a superar na socialização que importa criar; a tradução é a confirmação de que as divergências se podem resolver na variedade das expressões, sem as anular[14].

Outra lição a tirar: a diversidade é um estímulo à procura singular dos indivíduos ou dos grupos – ninguém se pode confiar aos outros, mas os outros, na sua multiplicidade, são necessários e úteis para encontrar o caminho pessoal e colectivo. Na realidade, para tudodizermos à sombra de uma autoridade, «longe de ser uma maldição, o corno da abundância das diferentes línguas, despejado sobre a espécie humana, constitui uma bênção sem fim»[15].

(Continua)

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