SINAIS DE FOGO – VIRGÍNIA MOURA – por Soares Novais

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A PIDE prendeu-a por 16 vezes. Humilhou-a e torturou-a. O Estado fascista impediu-a de dar aulas, mas Virgínia Moura resistiu. Resistiu sempre. De pé e com a doçura e o sorriso largo com que brindou todos aqueles com quem se cruzou ao longo de uma vida intensamente vivida. No dia 19 de Julho assinalam-se os 100 anos do seu nascimento.

 

Fraternal e firme, lutadora incansável na luta pela Liberdade e pelos direitos das mulheres, Virgínia Moura foi uma mulher inteira. Participou em campanhas pela Democracia, pela Liberdade e pela Paz. A seu lado teve sempre António Lobão Vital – companheiro de uma vida e seu (e)terno cúmplice

Teixeira de Pascoaes considerou-a uma força da natureza” ; e Ferreira de Castro “uma das corajosas mulheres que muito tem sofrido por amor ao povo”. São dois retratos impressivos daquela que foi a primeira engenheira civil portuguesa, que também cursou Matemáticas e frequentou a Faculdade de Letras de Coimbra.

 A 26 de Abril de 1974, Virgínia Moura entrou na PIDE do Porto e ali exigiu e saudou a libertação dos presos políticos. Um deles teve um ataque de epilepsia e abraçou-a de tal maneira que foi necessária a intervenção do médico Strecht Monteiro para os separar.

 O registo do momento foi fixado pelas objectivas dos repórteres-fotográficos. A preto e branco. Mas o sorriso largo de Virgínia Moura dá cor às fotos que assinalam a sua entrada livre numa casa onde sofreu os maiores horrores.

Mulher culta, Virgínia Moura colaborou com “O Diabo”, de Lisboa; “O Pensamento”, do Porto; e “O Trabalho”, de Viseu. Assinava os seus escritos como “Maria Salema”– o pseudónimo com que fintou a polícia política e os censores. Promoveu, ainda, a criação da Revista “Sol Nascente” e organizou conferências com as participações de Maria Lamas, Teixeira de Pascoaes e Maria Isabel Aboim Inglês.

Virgínia Moura morreu no dia 19 de Abril de 1988 e a sua urna foi acompanhada por milhares de mulheres e homens do Porto, que sabiam ter na “senhora engenheira” uma Amiga.

Agraciada com a Ordem da Liberdade, com a Medalha de Honra da Câmara Municipal do Porto e com a Medalha de Honra do Movimento Democrático de Mulheres,  Virgínia Moura continua a caminhar ao lado daqueles que amam a Liberdade e a Justiça Social.

A nós compete-nos honrar o seu exemplo.

E (re)escutar os seus avisos.

Agora, mais do que nunca.

Os vampiros estão aí.

Travestidos de democratas.

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