A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – Entrevista dada à Folha de S. Paulo

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Entrevista conduzida por Lucas Ferraz, da Folha de S.Paulo,  em 18 de Março de 2015

O que explica os protestos de domingo? 

Como sempre, quando multidões vêm para as ruas, há muitos fatores que contribuem. Entre eles, eu destacaria um enorme desgaste, uma certa saturação, por parte de muita gente com o PT e com o governo Dilma. Politicamente, foi uma “descida às ruas” de várias tendências de direita e, ao mesmo tempo, também de gente que se situa mais ao centro do espectro político.

A assinalar que as direitas não vinham para a rua desde a conjuntura imediatamente pré-golpe de 1964. É verdade que segmentos de direita estiveram nas manifestações de junho de 2013, mas aí estiveram misturados com tendências de esquerda, “tudo junto e misturado”.

Agora, não, as manifestações de domingo, embora, como já disse, contendo segmentos de centro, foram basicamente de direita, embora, a respeito do termo, eu faça questão, sempre, de flexionar o termo no plural: temos uma extrema-direita, uma direita moderada e até mesmo uma direita democrática.

O preocupante foi ter visto expressões da extrema-direita (pela intervenção dos militares, confraternização com PMs, etc.) se tornarem ostensivas sem receber nenhum tipo de crítica ou de reprimenda. Timidez dos que não rezavam pela sua cartilha?

Em qualquer caso, preocupante o fato de coros anti-democráticos (embora localizados e minoritários) não terem enfrentado oposição.Outro aspecto relevante e muito inteligente do ponto de vista dos manifestantes foi eles terem assumido as cores nacionais, o hino nacional e o símbolo da bandeira do Brasil. Considerando-se o profundo nacionalismo que existe no país, transversalmente, contaminando todas as classes sociais, foi um um gol a favor dos manifestantes.

 O recente Datafolha (publicado hoje) mostra pessimismo da população com a economia e a avaliação do governo é cada vez pior. O governo e o PT perderam as ruas? 

Até mesmo dirigentes do PT, e o próprio Lula, têm reconhecido que o PT tornou-se um “partido de gabinetes”. É uma forma suave de caracterizar o extremo burocratismo que avassalou o partido, fenômeno que não é de hoje, arrasta-se há muito tempo. Agora, dizer que “perderam as ruas” é ir um pouco longe demais.

É importante observar, porém, que os segmentos mais radicais dos movimentos populares vão adquirindo uma dinâmica própria. Podem até, se houver possibilidade, negociar e “instrumentalizar” o PT e o governo, mas já não confiam neles, e, realmente, não tem razões para confiar, principalmente, depois desta “virada” espetacular dada pela presidenta Dilma – depois de eleita, incorporou as propostas da oposição que eram, na campanha, demonizadas. Uma incongruência que vai ter – já está tendo – um custo alto.

Junho de 2013 foi um movimento anárquico, com diferentes pautas. Agora, são sobretudo pessoas de classe média (ou média alta) com um discurso direcionado contra Dilma e PT. O que aconteceu? 

Eu não diria que houve um movimento anárquico em junho de 2013. Acho que foi um movimento plural, com objetivos dispersos, porém, muito nítidos, sem, contudo, ter tempo histórico para forjar organizações próprias. O principal saldo do movimento, porém, inegável, foi ter feito as gentes discutirem sua situação e a política do país. E afiarem sua crítica ao que chamo de “processo de aristocratização” das lideranças políticas, sindicais e jurídicas deste país. Vejo indícios, desde então, de uma crescente insatisfação na sociedade em relação a esta situação.

 Quanto às manifestações de domingo, além do que já disse, evidenciaram também um distanciamento claro de segmentos consideráveis das classes médias em relação ao PT e ao governo. Dada a importância social e política destas classes, e seu papel na história do Brasil, vai ser muito necessário que partidários e adversários das manifestações reflitam melhor sobre o acontecimento.

 Penso que, talvez, o país tenha entrado num ciclo de manifestações sociais – de direita e de esquerda. Aliás, hoje, as manifestações em vários estados dos sem-teto mostraram que não apenas as classes médias vão tomando gosto por uma visão “participativa”. Vai ser preciso muita compreensão e tolerância para que estas manifestações fortaleçam e não enfraqueçam nossa ainda frágil

 Pelo que as ruas mostraram no domingo, é possível dizer há no Brasil uma nova direita? 

 O Brasil tem mania de “novo”- Estado Novo, República Nova, Nova Esquerda. Há um adágio russo carregado de sabedoria: “o novo é o velho que foi esquecido”. O que é importante na análise do que houve domingo é ter a noção das nuanças. Não foram manifestações unânimes, nem monolíticas. Como disse acima, ali apareceram várias tendências de direita e mesmo segmentos da opinião centrista.

 Avaliar isto com adequação e crítério será um grande desafio para lideranças e analistas.

  • Daniel Aarao Reis

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