LIVRO & LIVROS – ANÁLISE NA OBRA DE CYRO MARTINS DE “O REGIONALISMO DISSIDENTE”

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Do Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins recebemos a informação relativa a um estudo sobre o psicanalista que inspira este Centro. Trata-se de “O regionalismo dissidente de Cyro Martins”, de autoria de Zilá Bernd, professora Doutora em Letras (língua e Literatura Francesa pela USP,  pesquisadora, escritora, Presidente pro tempore da Associação Brasileira de Estudos Canadenses – ABECAN, reconhecida internacionalmente por seus estudos interdisciplinares e interculturais em língua francesa, é também autora da primeira dissertação de mestrado sobre a obra de Cyro Martins (O gaúcho a pé: estudo do romance social de Cyro Martins – 1977). Já então revelava seu olhar arguto para a nossa literatura e nosso contexto sócio-cultural, como se percebe no texto que transcrevemos a seguir.

 Cyro Martins

Transcrevemos umas passagens:

 “O conceito tradicional de regionalismo abrange “toda a ficção vinculada à descrição regional e dos costumes rurais desde o romantismo” (1973, p. 7-24). Contudo, no momento em que aflora a consciência de subdesenvolvimento, a partir dos anos 30 e mais claramente após a Segunda Guerra Mundial, o termo regionalismo reveste-se de um caráter ambíguo passando a englobar textos de características muitas vezes divergentes.

 […] Centraremos os exemplos dessa guinada, que caracteriza regionalismo dissidente, na figura do autor que talvez seja o mais lídimo representante dessa vertente: Cyro Martins, autor da trilogia do gaúcho a pé, composta por Sem rumo (1937), Porteira fechada (1944), e Estrada nova (1954), obras que melhor evidenciam o trânsito de uma consciência ingênua a uma consciência crítica da realidade, inaugurando o regionalismo dissidente.

 Campo fora, de 1934, livro de estréia, embora ainda muito preso aos cânones tradicionais, onde pode ser detectado forte intertextualidade com a obra de Alcides Maya, evidencia já, em alguns contos, o embrião de uma próxima cisão do autor com a frase heróica do conto gauchesco. É, entretanto, na trilogia que se pode acompanhar a construção de um projeto ideológico. Os três romances se estruturam sobre o mesmo eixo: a denúncia do processo de marginalização do proletário rural que, despilchado do cavalo e da distância, torna-se um gaúcho a pé. Os três enfocam os cinturões da miséria que se formam em torno das cidades em conseqüência das migrações do proletariado rural que dá início á constituição do contingente que hoje chamamos de sem-terra.

 Sem rumo e Porteira Fechada cujas ações são fixadas em 22 e 38 respectivamente, mostram as personagens principais provindas das classes subalternas, totalmente despolitizadas sem nenhuma consciência de classe. Nestes romances as personagens que detêm a visão crítica da realidade são os intelectuais, o que caracteriza uma postura elitizante do autor. Entretanto, esta postura será abandonada no principal livro da trilogia: Estrada nova. Aí se verifica um amadurecimento político do autor, reflexo de um momento histórico (fins da década de 40) onde se observa a progressiva conscientização das massas populares. Tal amadurecimento é comprovado pelo aparecimento, pela primeira vez na ficção martiniana de uma consciência crítica em uma personagem da camada subalterna: Ricardo.

A classe dominante – fazendeiros – atua nas três obras com a mesma característica: se por um lado o despovoamento dos campos fortalece economicamente o fazendeiro, por outro, esvazia seu poder político. Essa perda é enfatizada em Estrada Nova onde Teodoro, o proprietário rural, termina tendo que realizar a mudança para a cidade, da mesma forma que Janguta, o peão, pois não suporta mais a triste paz que passa a reinar nos campos.

 […] a importância da produção literária de Cyro Martins aumenta na medida em que o autor se afasta da gratuidade e se encaminha para a responsabilidade. Comprometido tornou-se Cyro Martins, assim como os demais autores cujas obras se inscrevem no regionlaismo dissidente, no momento em que optou pela temática da denúncia, da crítica à linha de ação das classes dominantes da época e do sistema político que recusou-se a implementar a tão esperada reforma agrária.

 Esta escolha permitiu ao autor tornar-se coerente com seu ideal político e humano. O trânsito da gratuidade (consciência ingênua) ao comprometimento (consciência crítica) foi a saída encontrada pelo autor diante da crise em que se encontrava nossa literatura devido à complexa exaustão do temário gauchesco voltado para a glorificação de um gaúcho heróico que já não mais correspondia à realidade vivenciada em nosso Estado. Em Cyro Martins e nos demais integrandes do Regionalismo dissidente, a intencionalidade, contudo, não sufocou a livre criação artística; o aproveitamento das raízes autênticas da tradição gauchesca não inibiu o vanguardismo da mensagem e o registro histórico não preponderou sobre o valor estético.”

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