EDITORIAL – «Desenrascanço» ou capacidade de improvisação

logo editorialCircula há meses na Rede um texto onde se diz que um site norte-americano fez uma lista das dez palavras estrangeiras que mais falta fazem à língua inglesa e que a palavra portuguesa “desenrascanço” saiu vencedora. E define desenrascanço como a arte de encontrar  solução para um problema sem planeamento e sem meios: “Conseguir uma improvisação de última hora que, não se sabe bem como, funciona, é o que os portugueses consideram como uma das aptidões mais valiosas: até a ensinam na universidade e nas forças armadas. E acreditam que esta capacidade tem sido a chave da sua sobrevivência durante séculos[…] a dada altura conseguiram construir um império que se estendeu do Brasil às Filipinas à custa do desenrascanço”.

O termo desenrasca ou desenrascanço sob a forma verbal de desenrascar, aparece em dois dos mais credíveis dicionários de língua portuguesa, o de José Pedro Machado e o de Antônio Houaiss com acepções que demonstram ser o conceito mais original e menos colado é etimologia de raiz portuguesa, parecendo que no Brasil a acepção louvada no site americano é relativamente desconhecida. O poeta José Fanha no seu poema “Eu sou português aqui,”  diz –  Eu sou filho do sarilho/do gesto desmesurado/nos cordéis do desenrasca. 

Porém, ser essa capacidade de improvisação apontada como razão do sucesso dos Descobrimentos constitui uma daquelas características dos norte-americanos para a qual talvez falte ainda a palavra certa – referimo-nos ao que não sabemos ser uma capacidade se uma limitação, mas que constitui um traço relevante da idiossincrasia ianque – facilitar as explicações,  mesmo daquilo que é difícil explicar.

Os Descobrimentos foram empreendidos e concretizados de acordo com as técnicas mais avançadas da época, apoiados nos conhecimentos científicos disponíveis – embora, segundo parece, a “escola de Sagres” não tenha existido, foi concentrada em Portugal a nata da ciência náutica, pilotos, cartógrafos, astrónomos… Na preparação não houve improvisação – o desenrascanço terá desempenhado o seu papel quando, no terreno, surgiam imprevistos.

O nosso amigo e argonauta Ernesto V. Souza, na sua rubrica A Galiza como tarefa, definia numa das suas mais recentes intervenções, a natureza dos nacionalismos, nomeadamente dos nacionalismos peninsulares o que deu lugar a um pequeno debate. Há aspectos do nacionalismo dos portugueses que nos parece justo salientar. Não se trata de elogiar ou de denegrir, mas apenas de pôr em destaque aquilo em que os portugueses se diferenciam dos restantes povos peninsulares. Talvez este pudesse ser o tema para um debate a realizar no nosso blogue. Nacionalismos e caracteres nacionais dos povos peninsulares, eis um tema interessante e em cujo âmbito o desenrasca deveria ser discutido.

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