EDITORIAL – SE ENTRE ELES JUSTO EXISTE…

logo editorialTodos os dias, quer chova quer faça sol, emitimos aqui uma opinião sobre a situação política, social, do país, do mundo, da cidade, no sentido mais amplo do termo civitate – o conjunto de cidadãos que constituem um Estado. Na “Divina Comédia”, Dante Alighieri fala-nos d’Os cidadãos da urbe dividida/Se entre eles justo existe; e qual razão/Os leva da discórdia a todo o mal. E sob o manto de uma forma literária clássica, descreve-se afinal uma situação muito concreta, muito semelhante às que, sete séculos depois vivemos. Dante refere a luta sem quartel, o clima de profunda divisão política, que se vivia na Florença medieval – gibelinos e guelfos, os primeiros defendendo o sistema imperialista e os segundos, adeptos das liberdades sob protecção do papa.

Não se tratava de uma luta pelo poder entre membros de classes sociais antagónicas, mas da querela entre membros da mesma classe social que preconizavam soluções, essa sim antagónicas,  para os problemas políticos e sociais dos cidadãos. «Soluções» em que as diferenças não se verificavam no ponto de chegada – com os cidadãos a pagar todos os custos do aparato político, mas no percurso, ou seja, em quem enriquecia no processo de aplicação da acção governativa. Gibelinos ou guelfos, brancos ou negros, «socialistas» ou «social-democratas»?

Ouvir e ver na televisão uma sessão parlamentar  da Assembleia da República é, (comparação recorrente), assistir a um espectáculo de commedia dell’arte – arlequins, columbinas, pedrolinos ou pierrots, il capitano, il dottore…  Falta o scaramucci! Uma actuação pobre, mas que pagamos bem caro. Mais nos valia investir numa boa temporada lírica no São Carlos e no São João, com tenores, sopranos, barítonos, orquestras de primeira linha, executando um repertório que se visse e ouvisse. Pagar balúrdios para assistir às intervenções de um Passos Coelho pesporrente, com o sorriso estúpido de quem descobriu o caminho secreto para a casa das máquinas, as pobres diatribes de Ferro Rodrigues, as réplicas imbecis de um líder parlamentar cujo maior motivo de  relevo é o de ser cão de companhia de um dos gangasters do futebol… E repetimos o que já aqui antes dissemos – «analisando a composição social do Parlamento português, vamos encontrar da, direita à esquerda, uma maioria de pessoas formadas nas mesmas universidades, pertencentes a um estrato social comum. O que os divide não é uma razão profunda, vivida, mas sim uma opção política que não muda a sua maneira de estar no presente, apenas afectando a forma como analisam o passado e como preconizam o futuro».

Nesta tragi-comédia representada por «meninos » e «meninas» de uma burguesia oca como a concha de um bivalve pré-histótico, actores sorvados e sem categoria,  e que pagamos a peso de ouro, só o sofrimento do público pagante é real – Se justo entre eles existe, tarda em aparecer.

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