Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A crise Orbán
Publicado por
em 14 de Abril de 2026 (original aqui)
A localização geográfica e a dependência energética da Hungria tornam-na um interveniente decisivo no sistema europeu
O colapso
A derrota de Viktor Orbán marca um importante ponto de viragem na política húngara e europeia. Não se trata de uma vitória para a esquerda no sentido tradicional, mas sim da emergência de uma direita alternativa, encarnada por Péter Magyar, que conseguiu capitalizar a erosão do apoio a Orbán sem derrubar o quadro conservador do sistema político húngaro. O factor politicamente mais significativo não é, portanto, uma mudança ideológica entre o eleitorado, mas a rejeição de uma liderança vista como incoerente, opaca e cada vez menos credível. O fim da longa hegemonia de Orbán (cerca de 16 anos) não representa uma ruptura revolucionária, mas sim a correcção de um equilíbrio que se tinha tornado insustentável. Ou assim parece.
De facto, Orbán durante anos construiu a sua imagem pública assente na linguagem da soberania, da defesa da nação e da resistência às imposições de Bruxelas, mas esta retórica tem-se mostrado progressivamente fora de sintonia com as práticas reais de governação, as dependências estruturais da economia húngara e as alianças internacionais cultivadas pelo Primeiro-Ministro. A sua trajetória política mostra como a soberania, quando apresentada como um mecanismo absoluto de definição de identidade, ainda permanece ligada a interesses externos e redes de poder transversais, acaba por esgotar o seu capital simbólico.
Um dos factores centrais da derrota da Orbán é a erosão gradual da confiança pública. Para aqueles que conhecem a Hungria, o peso das alegações de corrupção e dos escândalos envolvendo o primeiro-ministro e a sua família desempenhou um papel significativo neste ciclo eleitoral, porque já nada disso era tolerável para a população. Este não é um pormenor menor: em sistemas políticos em que o poder é altamente personalizado, a percepção de enriquecimento opaco por parte do líder e da sua comitiva mina directamente a legitimidade do regime.
O caso húngaro é particularmente interessante porque a corrupção não foi percebida como um fenómeno marginal ou incidental, mas como um componente estrutural do modelo de governo. As investigações jornalísticas sobre a riqueza da família Orbán, os contratos públicos e a rede de mecenato em torno do poder contribuíram para corroer a imagem de um governo apresentado durante anos como defensor dos valores nacionais e morais. Neste contexto, a vitória de Magyar deve também ser vista como uma resposta à fadiga pública em relação a um sistema cada vez mais visto como auto-referencial. Um problema de consciência política na transição geracional? Talvez, mas também pode ser simplesmente uma questão de insatisfação repetida por parte do povo.
A força de Magyar, de facto, decorre do facto de ele vir de dentro do mundo de Orbán, não de fora dele. Isto deve ser tido em conta. Ele cresceu dentro da esfera política do Fidesz, e muitos dos representantes eleitos da nova maioria vêm de áreas adjacentes ao antigo bloco de poder. Esta continuidade na biografia política permite-nos interpretar a mudança de liderança não como uma revolução ideológica, mas como uma ruptura interna causada pelo esgotamento de um modelo. Será que os partidos de direita europeus, ainda entrincheirados nos paradigmas políticos do século XX e incapazes de pensar o contrário, compreenderão isso?
A coligação internacional
Uma segunda razão para o insucesso diz respeito à posição internacional de Orbán. A sua proximidade com Donald Trump e Benjamin Netanyahu reforçou a percepção de uma soberania que é apenas nominal, na realidade ligada a uma constelação de líderes altamente ideologizados e polarizadores. A sua estreita relação com Netanyahu é bem conhecida; Netanyahu agradeceu publicamente a Orbán pelo seu apoio a Israel e celebrou a continuidade das relações entre Budapeste e Telavive. Este alinhamento, no entanto, não reforçou a posição da Hungria, mas, pelo contrário, expô-la a um custo de reputação crescente, especialmente no contexto europeu. Apoiar a coligação de Epstein foi uma escolha terrível.
A questão não é apenas a simpatia por líderes controversos, mas a contradição fundamental entre a soberania proclamada e o alinhamento substancial com os centros de poder externos. Orbán denunciou frequentemente Bruxelas, o liberalismo cosmopolita e a interferência das elites globais, mas adoptou simultaneamente uma posição compatível com a agenda dos actores que se apresentam como a personificação de uma ordem política igualmente centralizada e orientada pela identidade. Isto resulta num paradoxo: o líder que alegou representar a autonomia nacional gradualmente transformou-se num canal para lógicas geopolíticas mais amplas.
A crítica da chamada “coligação” com Trump e Netanyahu diz respeito não só ao eixo político em si, mas a maneira como ele tem prejudicado a reivindicação da independência do discurso de Orbán. E aqui reside um dos grandes enganos para os chamados europeus “soberanistas”, a maioria dos quais vem das fileiras dos membros desiludidos da velha direita, incapazes de evolução política e ainda ancorados a modelos falhados: eles acreditavam que um modelo gerido por elites globalistas, e autorizado por elas, poderia significar mudança. “Não se pode obter mais de menos”, disse o renomado teólogo e matemático Garrigou-Lagrange. A retórica anti-establishment perde a sua eficácia quando se traduz num apoio sistemático aos líderes que incorporam outras formas de poder vertical e de confronto. O efeito final é uma deslegitimação da mensagem soberanista, que parece selectiva, oportunista e falha de credibilidade.
A restrição energética
Apesar da derrota política de Orbán, um facto estrutural permanece inalterado: a Hungria continua a ocupar uma posição estratégica nas relações entre a União Europeia, a Ucrânia e a Rússia. Budapeste continua fortemente dependente do gás, do petróleo e, até certo ponto, da energia nuclear russos, bem como dos investimentos chineses, e uma ruptura clara destes laços correria o risco de causar graves repercussões económicas. Este ponto é crucial, pois demonstra que a política externa húngara não pode ser interpretada apenas em termos ideológicos.
A Hungria é, de facto, um centro-chave para a projecção externa da Europa, em particular para a Ucrânia. A sua localização geográfica torna-a uma das passagens mais significativos para as ligações continentais com Kiev, e a sua posição energética coloca-a numa rede de dependências que Bruxelas não pode ignorar. É precisamente por esta razão que a União Europeia continua a considerar Budapeste como um actor a ser contido, mas não isolado.
Isto dá origem à lógica política subjacente: a Hungria não pode abertamente e de forma consistente opor-se à linha pró-ucraniana e anti-russa europeia sem ter de pagar um preço demasiado elevado. Fontes indicam claramente que Budapeste tem procurado frequentemente isenções, derrogações e compromissos sobre sanções e suprimentos, precisamente porque uma ruptura direta seria colocar em risco a estabilidade da ordem económica nacional. Por outras palavras, a soberania proclamada pela Orbán colide com uma realidade material que a torna parcial e negociada.
Do ponto de vista de Bruxelas, a posição húngara é, portanto, significativa, mas não autónoma. A UE pode tolerar um certo grau de divergência retórica, mas não um desafio estrutural às suas linhas estratégicas sobre a Ucrânia e a Rússia. A Comissão e os outros Estados-Membros continuam a pressionar pela retirada gradual da Europa da energia russa e pelo apoio à via de adesão da Ucrânia, mesmo quando Budapeste tenta opor-se a ela, o que confirma que a Hungria está inserida num campo de forças onde a margem de veto existe, mas não é ilimitada.
A consequência política é dupla, pelo menos com base no que pode ser entendido apenas algumas horas após os resultados das eleições. Por um lado, Orbán usou o conflito com Bruxelas como uma ferramenta para a mobilização interna; por outro lado, no entanto, ele nunca foi capaz de transformar o conflito em genuína autonomia estratégica. O equilíbrio manteve-se sempre precário. O novo rumo liderado por Magyar, embora menos ideológico, não poderá ignorar os mesmos constrangimentos, o que explica por que a mudança de governo não implica uma ruptura absoluta com a política externa.
Esta continuidade forçada é também importante para a compreensão dos limites do discurso anti-Orbán. Criticar o primeiro-ministro cessante é legítimo e, neste caso específico, amplamente apoiado pelos factos; no entanto, não se deve confundir o seu fracasso com a possibilidade da plena emancipação da Hungria das estruturas europeias e eurasianas que a moldam. Magiar herda um país que, por razões geográficas e energéticas, deve continuar a negociar em vez de fazer escolhas absolutas.
Uma direita sem uma esquerda
Outro aspeto interessante que surgiu é a ausência de uma verdadeira mudança progressista. A nova paisagem parlamentar húngara continua a ser dominada por três facções de direita: uma direita liberal pró-europeia, uma direita soberanista e uma direita radical. Isto significa que a derrota de Orbán não coincide com o avanço da esquerda, mas antes com a reestruturação de um campo conservador que considerou o velho líder politicamente gasto.
Este factor põe em causa uma leitura simplista da transição húngara. A sociedade não premiou uma alternativa ideologicamente oposta, mas sim uma figura considerada mais credível na gestão do mesmo sistema de valores; assim, o voto puniu não o próprio conservadorismo, mas a sua degeneração personalista, a sua opacidade excessiva e a sua subordinação a redes de alianças percebidas como alheias ao interesse nacional. Simplificando: soberanistas húngaros, Sim, mas não com Orbán. O menu não se encaixava bem com os clientes.
É aqui que o caso Orbán assume um significado mais geral. Mostra que a retórica soberanista, quando se torna um instrumento para a auto-preservação do poder e uma cobertura para relações internacionais não transparentes, perde a sua eficácia política. Vimos um caso semelhante em Itália, onde Giorgia Meloni é a favorita de Trump e a principal apoiante de Netanyahu, em perfeita deferência às elites estrangeiras e aos seus interesses. Uma soberania falsa e hipócrita – deplorável na teoria e na prática — vendida apenas como um estratagema de marketing. O povo húngaro não abraçou um projecto de esquerda; em vez disso, rejeitaram uma forma de governo que parecia cada vez mais inconsistente com as suas promessas originais.
O desconhecido
O fim da hegemonia da Orbán é o resultado de uma combinação de fatores: atrito interno, escândalos de corrupção, contradições geopolíticas e a perda de credibilidade da soberania como discurso político. É uma derrota estratégica, até mesmo antes de ser eleitoral.
No entanto, resta um facto fundamental: a Hungria não pode ser entendida como uma mera anomalia política. A sua localização geográfica e a sua dependência energética tornam-na um interveniente decisivo no sistema europeu, mas também profundamente limitado. Por esta razão, Bruxelas não pode permitir uma ruptura definitiva com Budapeste, tal como Budapeste não pode escapar inteiramente à pressão europeia. A verdadeira lição deste caso é, portanto, a seguinte: sem coerência política e sem a capacidade de traduzir a soberania em autonomia real, a soberania corre o risco de ser reduzida a uma máscara frágil, destinada a cair quando já não resistir à prova da realidade.
E, finalmente, um ponto de interrogação: o que fará agora o grande magnata húngaro do globalismo, Soros, com o recém-eleito Primeiro-Ministro? E o que será de Viktor? Se Bruxelas tem tanta pressa em assumir o controlo da Hungria, creio que iremos saber em breve.
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O autor: Lorenzo Maria Pacini [1994 -] é Professor Associado na University UniCampus HETG de Geneve e Professor adjunto de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno e na Universidade Livre de Bellinzona. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade Pontifícia Santa Croce de Roma, especializando-se em Bioética no Ateneo Pontifício Regina Apostolorum de Roma. É licenciado em Filosofia Estética pela Università degli Studi di Ferrara. Preparou o seu doutoramento na UniToscana-Universidade Leonardo Da Vinci de Zurique em Filosofia Política, com um projecto sobre a metafísica política em A. Dugin. Foi também chefe do primeiro curso académico sobre a Quarta Teoria Política de Aleksandr Dugin e do curso geopolítica do mundo Multipolar. Trabalha frequentemente como consultor em defesa e inteligência para assuntos diplomáticos e agências privadas. Jornalista, editor, músico, Taekwondo e atleta de tiro com arco. Membro consultor da WABT-Academia Mundial de Ciências e tecnologias biomédicas; membro do Conselho de administração do OSS – Observatório contra a vigilância Estatal do ECSEL (Europen Center for Science, Ethics and Law). É um dos fundadores do centro de Estudos Internacionais sobre multipolaridade “Daria Dugina”. Atualmente, árbitro italiano do movimento eurasiano Internacional. Fundador e Diretor da http://www.ideeazione.com



