Esqueçamos a vez primeira que ouvimos este nome dito – Manuel de Castro! Isso aconteceu num café no Ocidente, em África, em Luanda. Corria o ano cristão de 1967, o dia era o de 12 de Setembro de 1971. A hora era por volta das dezoito. O café chamava-se Paris. O que faria um café chamado Paris no meio daquela cidade africana? Reunia poetas, outras pessoas. Numa mesa virada a Oeste estão dois poetas. Um é desertor do exército, o outro irá muito em breve ser declarado incapaz para o serviço militar. A guerra apertava muito as canelas e as canetas dos poetas. Diz o primeiro (David Mestre), poeta reconhecido já, para o segundo (o autor destas linhas), poeta quase oculto, Vai ali àquela mesa virada a Norte, onde estão sentados o Herberto Helder e o Carlos Fernandes e pede aos dois colaborações para a nossa editora Kuzuela . O poeta segundo, quase imberbe, ficou paralisado. A grandeza de Herberto era já consagrada, a diferença de idades, tudo possuía algo de terrificante, imobilizava-o, como numa tragédia antiga. Catártico levantou-se, pediu licença para se sentar, foi-lhe concedida. Expôs o plano congeminado pelo poeta desertor. Os outros, mais velhos, escutaram-no em silêncio.
Agora dou um salto até 2014. Porque entre esse dia de que falámos e o dia 11 de Janeiro de 2014 há uma ligação. Os laços deste texto são feitos obviamente de palavras, mas o que eles embrulham, o presente desta escrita, cingir-se-á sempre à pessoa do poeta Rutilante; se outros sentidos houverem desenlaçados para lá destas frases, eles só poderão ser entendidos por uma ciência poética da vida, porventura em construção. Neste último dia recebi uma carta electrónica dum velho amigo que traslado aqui excertada: “Dedico o próximo número da revista [A Ideia] ao poeta (maldito) Manuel de Castro que só publicou dois livros , Paralelo W em 58 e A Estrela Rutilante em 1960… Não queres tu escrever um pequeno estudo (nunca mais de mil ou mil e quinhentas palavras) sobre este último livro formidável e desconhecido?” Eis o que respondeu o antigo poeta quase oculto, hoje homem de copiosa barba, menos oculto, sentado a uma lareira: “É muito curioso este teu pedido, porque aconteceu que no dia em que conheci o Herberto, em Luanda, em 1971, ele disse-me que estava muito triste porque tinha morrido nesse mesmo dia, em Lisboa, um grande amigo dele, o Manuel de Castro, de quem eu na altura nunca tinha ouvido falar. Fiquei muito impressionado, porque ele estava verdadeiramente triste, eu nunca tinha visto um homem tão triste, fiquei com aquela imagem dele até hoje…”. Na realidade, o poeta incapaz para o serviço militar ficou tão marcado por esse momento profundo e compungente desenhado no semblante de Herberto que nunca mais lhe conseguiu falar. Subia-lhe uma angústia entorpecedora, um terror paralisava-o, haveria outra morte a anunciar? Assim, desde Paris-África até ao papel reciclado de A Ideia há um embrulho por desenlaçar chamado Manuel de Castro. O resto será matéria da hipotética ciência poética da vida.
A IDEIA – “MEU NOME É A ESTRELA RUTILANTE” MANUEL DE CASTRO: A LUZ EM VIAGEM (II) – por Jorge Telles de Menezes
poemas de combate
A Estrela Rutilante foi lido obsessivamente, ou quase. Se queremos, imaginativos, escrever sobre um livro devemos conceder-lhe espaço na nossa vida. Sequestrei assim tempo ao relógio universal e naveguei pelo Estrela Rutilante, nome atribuído pelo Poeta a si mesmo, acompanhado por outros lugres iluminados a quem irei saudando com o desenlaçar-se da própria jornada. Leiam-se então os poemas de Manuel de Castro em voz alta para um público fantasmático, que sejam lidos como uma convocação, um serviço público invisível, porque pela voz as palavras entram na circulação do sangue, no coração. Mas, cautela! que escrito à mão, diante do fogo crepitante no lar, o texto desliza perigosamente para os seus limites editoriais… e nem sequer começámos a falar dos poemas, excepto por algumas palavras ambientadoras, nem da experiência da sua leitura! A mente ordena a jornada textual conforme a partitura do Poeta. A jornada-livro Rutilante tem a duração de cinco dias, ou compassos; sigamos, então, cada passo como se fosse um dia, ou uma série. O dia começa com poemas de combate. Esta é a primeira série de um conjunto de cinco em que o livro se articula.
Logo no primeiro poema encontramos o Poeta na encruzilhada da história humana a ocidente. Aqui, o homem sem Deus, amparado apenas em sua volátil natureza, encontra-se no ponto zero da sua própria criação. Os homens, porém, preparam um novo destino, eles estão próximos do encontro com o dia necessário. Quase poderíamos percepcionar uma certitude histórica, uma inexorabilidade que compreende o homem nas raízes do processo histórico e na sua hegeliana superação de um momento que é feito ainda de segredos e grades que os homens a si próprios se oferecem. Por enquanto, os homens recusam a vida, e sua existência decorre assombrada pela última convulsão da peste. A derradeira convulsão do mundo de treva do homem na terra-tardinha, representa afinal o salto dialéctico para uma nova qualidade. O homem, no poema, encontra-se em simultâneo o mais distante e o mais próximo possível de um regresso futuro ao passado, ao paraíso perdido. Na incontornável abjecção da peste somos hoje adubo, número, palavra, hora e fruto, ou sejamos corpo em decomposição que nova vida dará, pois a morte, ao contrário da vida, não é possível recusar. Não se postula aqui qualquer redenção libertadora de natureza teológica. Só do próprio homem poderá nascer um outro, novo, aquele que um dia descobrirá o caminho de regresso, ao estado de divindade no próprio homem.
Mas temos tanto mar para navegar… e ainda não chegámos à noite do primeiro dia! Por onde nos não leva nossa Estrela Rutilante…Aprofundemos rápido este combate primeiro. Que combate é este? De quem, contra o quê ou quem? Porquê combater? Indo à raiz, diríamos que é um combate do homem consigo mesmo, porque queremos vencer a peste, porque aspiramos a mais do que sermos apenas matéria insciente de si mesma. A peste está ainda dentro de nós, para nos reunificarmos no arquétipo primordial, no Uno, devemos controlar e eliminar a doença em nós. Já no segundo poema desta série, intitulado Pêndulo o poeta conduz-nos, como num sapientíssimo livro antigo (A Divina Comédia, Dante Alighieri), através do inferno pestilento onde um dia é um dia nada mais que um dia / tudo se passa como se não houvesse fantasmas. O pêndulo marca o tempo do homem prisioneiro de si mesmo, como se a verdade fosse um relógio, o dono. Tudo é aparente, mas fugidio, o real não incorpora quaisquer fantasmas, ou metafísica. O homem é prisioneiro da peste que ele gerou na sua própria história, ele naufragou já com os últimos cacos da civilização. Mas o Poeta exorta-nos a libertarmo-nos da peste, anda meu animal, minha besta, diz o poeta / e põe o bicho às costas / estamos quase a chegar / há uma lua transoceânica, há uma lua súbita / donde tomba um martelo especial / para quebrar os relógios, para rasgar, / provocar terremotos (sic) nos cérebros. O Poeta, ser humano vivo, porque desperto para a transcendência, para o divino no homem, para um plano mais elevado da mente como cura metódica para a peste da vida morta, aponta-nos num desenho de onirismo surreal a solução, como o coelho mágico de Lewis Carrol, o relógio destruído para reencontrarmos um tempo que é o do homem em toda a sua dignidade original. Apressam-se os dias, e o Poeta continua sarcástico e zombador em Poker um percurso corrosivo de uma ordem suspensa no terror do próprio inferno. É em Criptograma, o poema final desta série que o Poeta nos desvela sua natureza estóica, com um apelo à mnésis colectiva, para que o dia venha a ser nosso: Não esquecer não esquecer / nem o tempo nem as armas / nem o sonho nem a verdade/ do que por vós passou / e o dia será vosso. O homem será novo, sob a condição de levar consigo para esse dia, inactiva mas inesquecida, a memória da peste hodierna, nesse combate pela conquista da vida dignificada. Que nunca esqueçamos também, e aqui Manuel de Castro aproxima-se de um outro grande moralista seu coevo, Albert Camus, que cada homem conhece onde estão o bem e o mal em si próprio, por conseguinte se Manuel de Castro acompanha profundamente o seu tempo, precede também a contemporânea tendência para recentrar no indivíduo o combate por uma pura justiça. Esqueçamos igualmente a questão escolar se Manuel de Castro pendula entre surrealismo e abjeccionismo, porque mais do que qualquer fidelidade de tendência, o autor tem um compromisso fundamental com a Poesia. Esta, nele, é o arco tenso do atirador zen, em que a relevância se situa unicamente na atitude, na dignidade resistente do próprio discurso poético. O autor mergulha no combate da vida com as suas armas, a defesa do bem, que é todo ele um bem interior, lembremos no passo a lição do ser moral na sua poética, cada homem conhece onde estão o bem e o mal em si próprio; porque este é o momento de eliminar as palavras por excesso…e renovar o espírito antes que se dissolva no excremento. Poesia tensa, que ao lado do bem, busca a contenção absoluta do arqueiro no momento dilatadíssimo de atirar ao alvo. A vida é o alvo, mas a vida do espírito, a vida do homem que se constrói a si mesmo ad nihil. a terceira viagem Em a terceira viagem o Poeta distende-se pelo amor. Na jornada do lugre este é um dia do amor humano, da proximidade ao outro, da fraternidade. Dia límpido, ao iniciar de um novo ciclo, em que o Poeta não transige com a condescendência do quotidiano, porque a sua tarefa de combate continua a ser o método dos mortos vegetais, e a busca do tempo total. O Poeta-Lugre prossegue sua rota entre canções, próximo do mundo, sabendo de sua natureza primordial oculta, mas deixando-se submergir numa atmosfera vibrátil, caminhando isolado, indiferente, distante e sóbrio, imerso na musical tristeza da chuva.
A IDEIA – “MEU NOME É A ESTRELA RUTILANTE” MANUEL DE CASTRO: A LUZ EM VIAGEM (III) – por Jorge Telles de Menezes
O Poeta embarcado ama como nós, os enleados na não-vida cronometrada, mortos-vegetais, ama, mas seu lugre do amor afasta-se das cidades, que são já-só uma ausência iluminada, enquanto o lugre é uma presença única / na imensidão da treva. Nesta viagem em que o mar é um estado mental e o amor um processo de transformação dos corpos, o tempo é uma paragem na matéria, uma reflexão que abrange as próprias condições do nascimento do poema. O Poeta vislumbra-se no ofício egoísta de escrever palavras azuis / gotículas sobre papel de neve. Ele deixa correr célere a pena sobre papel branco e gelado, o amor suspendeu o voo do Poeta sobre o mundo, um mundo em que a vida poderia ter sido verdadeiramente amada, e aqui reencontrámos o mito de Sísifo, como tematizado em Camus (v. O Mito de Sísifo) aquele sentimento de uma impotência face ao absurdo da condição humana no seu esforço heróico para espiritualizar a matéria, a sua própria e a restante, sob a eterna condenação de sempre recomeçar essa ascensão libertadora após mais uma inexorável queda. Deixaríamos aqui, como pista escolar, que nesta terceira viagem Manuel de Castro se fundamenta, nos parece, nas águas rumorejantes no seu tempo do existencialismo camusiano, visitando ainda alguns dos topos simbolistas como Ofélia, cantada por Rimbaud e retomada por António Maria Lisboa, o que, como o autor sublinha, o ajudou a construir poeticamente uma nação para o seu amor. Na lama dos corpos cintila a Estrela Rutilante mais uma vez: o Poeta resiste ao absurdo podre do mundo iluminando a matéria por dentro, já não se trata apenas do êxtase de um momento de amor que se problematiza, mas o regresso do homem à sua condição arquetípica, ao indivisível ser de carne espiritualizada e espírito carnalizado que constitui o homem em sua natureza pendular. 4 poemas para a destruição de um mito O Poeta no seu lugre iluminado entre a treva envia-nos um telegrama de sinal. Ele encontra-se em Héliopolis, a cidade da luz. À sua volta um oceano juncado de mortos-vegetais, corpos não animados de consciência, ainda que vivos. A revolta de Manuel de Castro dirige-se contra o homem moderno devindo autómato numa ordem que se reproduz ao infinito, sem nunca se questionar se o que vive será a verdadeira vida ou apenas um simulacro empestado dela. Ao Poeta, anjo-homem, está destinado o ser o guardião do primordial. Qual Orfeu, ele não deve olhar para trás, mas enquanto prometaico destruidor de mitos ele quer ainda recordar, só pode mesmo recordar, Eurídice para sempre perdida do mundo. ele deve regressar ao Uno, como aqueles anjos que neste vivem como no filme de Wim Wenders (Der Himmel über Berlin, na versão portuguesa As Asas do Desejo), vigiando eternos o sofrimento humano, sentindo em silêncio a profunda dor do mundo, de que falou Nietzsche. O amor não pode ser triste como a vida sem glória num subúrbio, o Poeta continua assim sua derrota rumo às constelações. Adeus, diz ele a sua amada deixada, tu / única para quem fui / […] o homem sem comédia. O amor foi proscrito no mundo, tomba uma lenta poeira de saudade, e o poeta-homem regressa ao seu quotidiano reencontro com a morte. O Poeta está de novo cercado. Que não se viva um amor que destrua o cronómetro societário. regresso ao oriente O lugre iluminado cercado de densa treva progride no sentido da Estrela Rutilante. Ele é uma barca d’amor que aponta a Oriente, porque partir é renascer inteiramente. Depois d
“MEU NOME É A ESTRELA RUTILANTE” MANUEL DE CASTRO: A LUZ EM VIAGEM JORGE TELLES DE MENEZES Intróito Esqueçamos a vez primeira que ouvimos este nome dito – Manuel de Castro! Isso aconteceu num café no Ocidente, em África, em Luanda. Corria o ano cristão de 1967, o dia era o de 12 de Setembro de 1971. A hora era por volta das dezoito. O café chamava-se Paris. O que faria um café chamado Paris no meio daquela cidade africana? Reunia poetas, outras pessoas. Numa mesa virada a Oeste estão dois poetas. Um é desertor do exército, o outro irá muito em breve ser declarado incapaz para o serviço militar. A guerra apertava muito as canelas e as canetas dos poetas. Diz o primeiro (David Mestre), poeta reconhecido já, para o segundo (o autor destas linhas), poeta quase oculto, Vai ali àquela mesa virada a Norte, onde estão sentados o Herberto Helder e o Carlos Fernandes e pede aos dois colaborações para a nossa editora Kuzuela . O poeta segundo, quase imberbe, ficou paralisado. A grandeza de Herberto era já consagrada, a diferença de idades, tudo possuía algo de terrificante, imobilizava-o, como numa tragédia antiga. Catártico levantou-se, pediu licença para se sentar, foi-lhe concedida. Expôs o plano congeminado pelo poeta desertor. Os outros, mais velhos, escutaram-no em silêncio. Agora dou um salto até 2014. Porque entre esse dia de que falámos e o dia 11 de Janeiro de 2014 há uma ligação. Os laços deste texto são feitos obviamente de palavras, mas o que eles embrulham, o presente desta escrita, cingir-se-á sempre à pessoa do poeta Rutilante; se outros sentidos houverem desenlaçados para lá destas frases, eles só poderão ser entendidos por uma ciência poética da vida, porventura em construção. Neste último dia recebi uma carta electrónica dum velho amigo que traslado aqui excertada: “Dedico o próximo número da revista [A Ideia] ao poeta (maldito) Manuel de Castro que só publicou dois livros , Paralelo W em 58 e A Estrela Rutilante em 1960… Não queres tu escrever um pequeno estudo (nunca mais de mil ou mil e quinhentas palavras) sobre este último livro formidável e desconhecido?” Eis o que respondeu o antigo poeta quase oculto, hoje homem de copiosa barba, menos oculto, sentado a uma lareira: “É muito curioso este teu pedido, porque aconteceu que no dia em que conheci o Herberto, em Luanda, em 1971, ele disse-me que estava muito triste porque tinha morrido nesse mesmo dia, em Lisboa, um grande amigo dele, o Manuel de Castro, de quem eu na altura nunca tinha ouvido falar. Fiquei muito impressionado, porque ele estava verdadeiramente triste, eu nunca tinha visto um homem tão triste, fiquei com aquela imagem dele até hoje…”. Na realidade, o poeta incapaz para o serviço militar ficou tão marcado por esse momento profundo e compungente desenhado no semblante de Herberto que nunca mais lhe conseguiu falar. Subia-lhe uma angústia entorpecedora, um terror paralisava-o, haveria outra morte a anunciar? Assim, desde Paris-África até ao papel reciclado de A Ideia há um embrulho por desenlaçar chamado Manuel de Castro. O resto será matéria da hipotética ciência poética da vida. poemas de combate A Estrela Rutilante foi lido obsessivamente, ou quase. Se queremos, imaginativos, escrever sobre um livro devemos conceder-lhe espaço na nossa vida. Sequestrei assim tempo ao relógio universal e naveguei pelo Estrela Rutilante, nome atribuído pelo Poeta a si mesmo, acompanhado por outros lugres iluminados a quem irei saudando com o desenlaçar-se da própria jornada. Leiam-se então os poemas de Manuel de Castro em voz alta para um público fantasmático, que sejam lidos como uma convocação, um serviço público invisível, porque pela voz as palavras entram na circulação do sangue, no coração. Mas, cautela! que escrito à mão, diante do fogo crepitante no lar, o texto desliza perigosamente para os seus limites editoriais… e nem sequer começámos a falar dos poemas, excepto por algumas palavras ambientadoras, nem da experiência da sua leitura! A mente ordena a jornada textual conforme a partitura do Poeta. A jornada-livro Rutilante tem a duração de cinco dias, ou compassos; sigamos, então, cada passo como se fosse um dia, ou uma série. O dia começa com poemas de combate. Esta é a primeira série de um conjunto de cinco em que o livro se articula. Logo no primeiro poema encontramos o Poeta na encruzilhada da história humana a ocidente. Aqui, o homem sem Deus, amparado apenas em sua volátil natureza, encontra-se no ponto zero da sua própria criação. Os homens, porém, preparam um novo destino, eles estão próximos do encontro com o dia necessário. Quase poderíamos percepcionar uma certitude histórica, uma inexorabilidade que compreende o homem nas raízes do processo histórico e na sua hegeliana superação de um momento que é feito ainda de segredos e grades que os homens a si próprios se oferecem. Por enquanto, os homens recusam a vida, e sua existência decorre assombrada pela última convulsão da peste. A derradeira convulsão do mundo de treva do homem na terra-tardinha, representa afinal o salto dialéctico para uma nova qualidade. O homem, no poema, encontra-se em simultâneo o mais distante e o mais próximo possível de um regresso futuro ao passado, ao paraíso perdido. Na incontornável abjecção da peste somos hoje adubo, número, palavra, hora e fruto, ou sejamos corpo em decomposição que nova vida dará, pois a morte, ao contrário da vida, não é possível recusar. Não se postula aqui qualquer redenção libertadora de natureza teológica. Só do próprio homem poderá nascer um outro, novo, aquele que um dia descobrirá o caminho de regresso, ao estado de divindade no próprio homem. Mas temos tanto mar para navegar… e ainda não chegámos à noite do primeiro dia! Por onde nos não leva nossa Estrela Rutilante…Aprofundemos rápido este combate primeiro. Que combate é este? De quem, contra o quê ou quem? Porquê combater? Indo à raiz, diríamos que é um combate do homem consigo mesmo, porque queremos vencer a peste, porque aspiramos a mais do que sermos apenas matéria insciente de si mesma. A peste está ainda dentro de nós, para nos reunificarmos no arquétipo primordial, no Uno, devemos controlar e eliminar a doença em nós. Já no segundo poema desta série, intitulado Pêndulo o poeta conduz-nos, como num sapientíssimo livro antigo (A Divina Comédia, Dante Alighieri), através do inferno pestilento onde um dia é um dia nada mais que um dia / tudo se passa como se não houvesse fantasmas. O pêndulo marca o tempo do homem prisioneiro de si mesmo, como se a verdade fosse um relógio, o dono. Tudo é aparente, mas fugidio, o real não incorpora quaisquer fantasmas, ou metafísica. O homem é prisioneiro da peste que ele gerou na sua própria história, ele naufragou já com os últimos cacos da civilização. Mas o Poeta exorta-nos a libertarmo-nos da peste, anda meu animal, minha besta, diz o poeta / e põe o bicho às costas / estamos quase a chegar / há uma lua transoceânica, há uma lua súbita / donde tomba um martelo especial / para quebrar os relógios, para rasgar, / provocar terremotos (sic) nos cérebros. O Poeta, ser humano vivo, porque desperto para a transcendência, para o divino no homem, para um plano mais elevado da mente como cura metódica para a peste da vida morta, aponta-nos num desenho de onirismo surreal a solução, como o coelho mágico de Lewis Carrol, o relógio destruído para reencontrarmos um tempo que é o do homem em toda a sua dignidade original. Apressam-se os dias, e o Poeta continua sarcástico e zombador em Poker um percurso corrosivo de uma ordem suspensa no terror do próprio inferno. É em Criptograma, o poema final desta série que o Poeta nos desvela sua natureza estóica, com um apelo à mnésis colectiva, para que o dia venha a ser nosso: Não esquecer não esquecer / nem o tempo nem as armas / nem o sonho nem a verdade/ do que por vós passou / e o dia será vosso. O homem será novo, sob a condição de levar consigo para esse dia, inactiva mas inesquecida, a memória da peste hodierna, nesse combate pela conquista da vida dignificada. Que nunca esqueçamos também, e aqui Manuel de Castro aproxima-se de um outro grande moralista seu coevo, Albert Camus, que cada homem conhece onde estão o bem e o mal em si próprio, por conseguinte se Manuel de Castro acompanha profundamente o seu tempo, precede também a contemporânea tendência para recentrar no indivíduo o combate por uma pura justiça. Esqueçamos igualmente a questão escolar se Manuel de Castro pendula entre surrealismo e abjeccionismo, porque mais do que qualquer fidelidade de tendência, o autor tem um compromisso fundamental com a Poesia. Esta, nele, é o arco tenso do atirador zen, em que a relevância se situa unicamente na atitude, na dignidade resistente do próprio discurso poético. O autor mergulha no combate da vida com as suas armas, a defesa do bem, que é todo ele um bem interior, lembremos no passo a lição do ser moral na sua poética, cada homem conhece onde estão o bem e o mal em si próprio; porque este é o momento de eliminar as palavras por excesso…e renovar o espírito antes que se dissolva no excremento. Poesia tensa, que ao lado do bem, busca a contenção absoluta do arqueiro no momento dilatadíssimo de atirar ao alvo. A vida é o alvo, mas a vida do espírito, a vida do homem que se constrói a si mesmo ad nihil. a terceira viagem Em a terceira viagem o Poeta distende-se pelo amor. Na jornada do lugre este é um dia do amor humano, da proximidade ao outro, da fraternidade. Dia límpido, ao iniciar de um novo ciclo, em que o Poeta não transige com a condescendência do quotidiano, porque a sua tarefa de combate continua a ser o método dos mortos vegetais, e a busca do tempo total. O Poeta-Lugre prossegue sua rota entre canções, próximo do mundo, sabendo de sua natureza primordial oculta, mas deixando-se submergir numa atmosfera vibrátil, caminhando isolado, indiferente, distante e sóbrio, imerso na musical tristeza da chuva. O Poeta embarcado ama como nós, os enleados na não-vida cronometrada, mortos-vegetais, ama, mas seu lugre do amor afasta-se das cidades, que são já-só uma ausência iluminada, enquanto o lugre é uma presença única / na imensidão da treva. Nesta viagem em que o mar é um estado mental e o amor um processo de transformação dos corpos, o tempo é uma paragem na matéria, uma reflexão que abrange as próprias condições do nascimento do poema. O Poeta vislumbra-se no ofício egoísta de escrever palavras azuis / gotículas sobre papel de neve. Ele deixa correr célere a pena sobre papel branco e gelado, o amor suspendeu o voo do Poeta sobre o mundo, um mundo em que a vida poderia ter sido verdadeiramente amada, e aqui reencontrámos o mito de Sísifo, como tematizado em Camus (v. O Mito de Sísifo) aquele sentimento de uma impotência face ao absurdo da condição humana no seu esforço heróico para espiritualizar a matéria, a sua própria e a restante, sob a eterna condenação de sempre recomeçar essa ascensão libertadora após mais uma inexorável queda. Deixaríamos aqui, como pista escolar, que nesta terceira viagem Manuel de Castro se fundamenta, nos parece, nas águas rumorejantes no seu tempo do existencialismo camusiano, visitando ainda alguns dos topos simbolistas como Ofélia, cantada por Rimbaud e retomada por António Maria Lisboa, o que, como o autor sublinha, o ajudou a construir poeticamente uma nação para o seu amor. Na lama dos corpos cintila a Estrela Rutilante mais uma vez: o Poeta resiste ao absurdo podre do mundo iluminando a matéria por dentro, já não se trata apenas do êxtase de um momento de amor que se problematiza, mas o regresso do homem à sua condição arquetípica, ao indivisível ser de carne espiritualizada e espírito carnalizado que constitui o homem em sua natureza pendular. 4 poemas para a destruição de um mito O Poeta no seu lugre iluminado entre a treva envia-nos um telegrama de sinal. Ele encontra-se em Héliopolis, a cidade da luz. À sua volta um oceano juncado de mortos-vegetais, corpos não animados de consciência, ainda que vivos. A revolta de Manuel de Castro dirige-se contra o homem moderno devindo autómato numa ordem que se reproduz ao infinito, sem nunca se questionar se o que vive será a verdadeira vida ou apenas um simulacro empestado dela. Ao Poeta, anjo-homem, está destinado o ser o guardião do primordial. Qual Orfeu, ele não deve olhar para trás, mas enquanto prometaico destruidor de mitos ele quer ainda recordar, só pode mesmo recordar, Eurídice para sempre perdida do mundo. ele deve regressar ao Uno, como aqueles anjos que neste vivem como no filme de Wim Wenders (Der Himmel über Berlin, na versão portuguesa As Asas do Desejo), vigiando eternos o sofrimento humano, sentindo em silêncio a profunda dor do mundo, de que falou Nietzsche. O amor não pode ser triste como a vida sem glória num subúrbio, o Poeta continua assim sua derrota rumo às constelações. Adeus, diz ele a sua amada deixada, tu / única para quem fui / […] o homem sem comédia. O amor foi proscrito no mundo, tomba uma lenta poeira de saudade, e o poeta-homem regressa ao seu quotidiano reencontro com a morte. O Poeta está de novo cercado. Que não se viva um amor que destrua o cronómetro societário. regresso ao oriente O lugre iluminado cercado de densa treva progride no sentido da Estrela Rutilante. Ele é uma barca d’amor que aponta a Oriente, porque partir é renascer inteiramente. Depois de proscrito na parte ocidental do mundo ei-lo que navega para a origem da luz, para Héliopolis. Para aviso dos amantes do amor vemos o Poeta, mais uma vez telegráfico, a desvendar-nos a sua reunificação no homem-deus indivisível: O amor é uma arte mágica. / O amor é a indiferença absoluta / perfeita / e agente. O Poeta navega no lugre da indestrutível verdade, ele resplandece em seu saber cerrado, como em dísticos de Silesius [Angelus Silesius (O anjo da Silésia) ver Gesammelte Werke]. E o lugre transporta Areia / um Príncipe d’Areia. / Areia esparsa sobre papel branco / – sinal / de Sol, Nuvem, Mar e Vento / Areia. Um grão de areia, um quase nada que somos, segue a Estrela Rutilante a Oriente, até à jornada final: o rosto de Ísis E chegados aqui a lira emudece. A beleza é excessiva, insuportável quase, impossível de descrição. Conheces, leitor, a beleza de uma despedida, daquelas despedidas que não são quotidianas, mas que ficam a brilhar no oceano interior da vida para sempre, aquela agonia lenta que se transfigura enquanto se ausenta suavemente? Assim é o final desta viagem, como um barco que parte num entardecer dourado, levando alguém para um reino desconhecido, dos vivos, mas também dos mortos. Nesse filigrânico real, nessa matéria subtil que nenhum abjecto olhar detecta, é onde o Poeta nos deixa. Só reclamamos do leitor que leia com sua voz, de preferência só, estes poemas para si e que seja transportado por esta música sublime, por este Ser ondulante que nos trespassa com um feixe de luz até ao coração de ESTRELA RUTILANTE! Esqueçamos todos quanto aqui vai escrito e leiamos com urgência este livro de um Poeta. e proscrito na parte ocidental do mundo ei-lo que navega para a origem da luz, para Héliopolis. Para aviso dos amantes do amor vemos o Poeta, mais uma vez telegráfico, a desvendar-nos a sua reunificação no homem-deus indivisível: O amor é uma arte mágica. / O amor é a indiferença absoluta / perfeita / e agente. O Poeta navega no lugre da indestrutível verdade, ele resplandece em seu saber cerrado, como em dísticos de Silesius [Angelus Silesius (O anjo da Silésia) ver Gesammelte Werke]. E o lugre transporta Areia / um Príncipe d’Areia. / Areia esparsa sobre papel branco / – sinal / de Sol, Nuvem, Mar e Vento / Areia. Um grão de areia, um quase nada que somos, segue a Estrela Rutilante a Oriente, até à jornada final: o rosto de Ísis E chegados aqui a lira emudece. A beleza é excessiva, insuportável quase, impossível de descrição. Conheces, leitor, a beleza de uma despedida, daquelas despedidas que não são quotidianas, mas que ficam a brilhar no oceano interior da vida para sempre, aquela agonia lenta que se transfigura enquanto se ausenta suavemente? Assim é o final desta viagem, como um barco que parte num entardecer dourado, levando alguém para um reino desconhecido, dos vivos, mas também dos mortos. Nesse filigrânico real, nessa matéria subtil que nenhum abjecto olhar detecta, é onde o Poeta nos deixa. Só reclamamos do leitor que leia com sua voz, de preferência só, estes poemas para si e que seja transportado por esta música sublime, por este Ser ondulante que nos trespassa com um feixe de luz até ao coração de ESTRELA RUTILANTE! Esqueçamos todos quanto aqui vai escrito e leiamos com urgência este livro de um Poeta.