A IDEIA -O ESPÓLIO DE MANUEL DE CASTRO – [três perguntas a RICARDO VENTURA] – por António Cândido Franco

ideia1 Sei que tiveste acesso ao espólio do poeta Manuel de Castro. Faz-nos por favor uma descrição sumária das peças que constituem esse espólio.

– O espólio a que tive acesso encontra-se na posse da Dona Natália Cabrita, viúva de Manuel de Castro, e é composto por papéis de proveniência diversa e que pertencem a diferentes fases da vida, infelizmente curta, do Poeta. Tendo em conta o seu carácter relativamente disperso, procurámos organizá-lo em núcleos temáticos, conservando, tanto quanto possível, certas marcas da proveniência dos papéis e da sua organização primitiva.

Um dos núcleos mais volumosos que constituem este espólio é composto por três maços de papéis dactiloescritos que correspondem a três compilações diferentes dos seus poemas e da sua prosa literária.

Um destes maços inclui uma compilação da obra poética publicada e inédita, folhas de pré-publicação de artigos, poemas, duas autoentrevistas e uma obra em prosa, intitulada História moral e um introito, três monólogos e uma conferência subversiva. Para além disso, este maço inclui um índice, também dactiloescrito, que testemunha que Manuel de Castro terá tido, nos últimos anos da sua vida, provavelmente devido ao seu grave estado de saúde, a preocupação de organizar parte dos seus escritos, tendo em vista a sua publicação.

Outro maço é, na sua porção mais relevante, constituído por um pequeno livro inédito, Histórias para cavalinhos de circo, que inclui quatro títulos: “Catarina, ou os erros da juventude”, “La madre que te parió”, “O espadachim, o clown e o bastardo” e “Clélia Conti”,”.

O terceiro maço consiste numa compilação póstuma, feita a diversas mãos e em diversos tempos, que reúne cópias de poemas e prosa provenientes dos maços acima referidos e que é o resultado de projetos de edição de uma “Obra Poética” que não chegaram a ser concretizados.

O segundo núcleo de maior volume é composto por diversos recortes ou páginas de jornais que contém poemas e textos de crítica e intervenção cultural, que foram sendo compilados pelo Autor.

Entre os núcleos menos volumosos mas que não têm, por isso, menos relevância, conta-se aquele que contém dactiloescritos de outros autores, nomeadamente de Luiz Pacheco e de António Barahona dois amigos muito próximos de Manuel de Castro.

Um outro pequeno núcleo reúne papéis relativos à publicação de Filipa, do poeta José Manuel Pressler, que esteve a cargo de Manuel de Castro, em memória do seu amigo, também falecido prematuramente.

Também dignos de destaque, são vários papéis soltos, fotografias e recortes de jornal que compõem uma espécie de memorabilia do autor e de personagens que lhe eram queridas, como os pintores Gonçalo Duarte e José Rodrigues, e os escritores e editores Luiz Pacheco e Vítor da Silva Tavares, entre outros.

Outro núcleo é composto por materiais relacionados com a actividade de tradutor, que Manuel da Castro desenvolveu durante anos, de forma bastante profícua. Falamos, por exemplo, de alguns dactiloescritos, contratos, folhas de estilo e recibos de pagamento.

Por fim, é também importante referir as lacunas mais gritantes deste espólio. São muito poucos os manuscritos que nele encontramos. A correspondência é também exígua, em relação ao que seria expectável. Mesmo tendo em conta que a vida de Manuel de Castro foi curta, temos, porém, consciência de que este espólio constitui apenas uma parte, ainda que relevante, dos escritos de Manuel de Castro e dos papéis de outros autores com quem ele se corresponderia ou manteria uma relação de estreita camaradagem.

 A importância da colaboração jornalística de Manuel de Castro na imprensa lisboeta da década de 60 é grande. Faz-nos um ponto da situação relativo a este ponto.

A maior parte dos recortes que se encontram no referido espólio pertencem aos últimos anos da vida de Manuel de Castro, entre 1969 e 1971. Deste período, destaca-se claramente a coluna que ocupou semanalmente no Diário de Lisboa, intitulada “À Lupa”. Aqui, Manuel de Castro encontrou um espaço fiel para dar azo à verrina que, ao que parece, tão própria era dele e que já se verificava em outras colaborações, como por exemplo no Diário Ilustrado e no jornal União. Manuel de Castro não tinha apenas um forte sentido estético: não se pode dizer que estes textos pertençam ao género jornalístico da crítica literária. Eu diria que eles testemunham a preocupação de pensar a condição do artista como aquele que cria não só com grande exigência estética, mas também ao revés do que era consentâneo junto da sociedade portuguesa durante o fascismo. Nessa medida, a reflexão estética de Manuel de Castro nestes artigos é também eminentemente social e política. No final da década de 60, com o desenvolvimento do Abjecionismo, esta reflexão ganha ainda um novo grau de separação em relação ao panorama artístico e social português. Nesta época, é possível, por exemplo, encontrar inventivas a compagnons de route surrealistas, exigindo um aprofundamento da atitude de recusa de toda a conformação às normas estéticas ou sociais minimamente comprometidas com o establishment fascista e burguês. Ainda que Manuel de Castro fosse muito estimado por várias figuras muito ilustres do meio cultural português de então, ele demonstra grande desconfiança em relação à fama e ao reconhecimento público.

Para além destes artigos, Manuel de Castro publicou também alguma prosa literária e doutrinária ao longo dos anos 60, em publicações literárias tão cruciais como a revista Pirâmide, a Grifo e a & etc.

No referido espólio encontrámos ainda alguns exemplares da revista académica Lisboa-Espaço, de 1967. Para este tempo, a Lisboa-Espaço era uma publicação extremamente ousada. Densamente ilustrada e dedicada à juventude libertária e progressista de então, esta revista aborda temas que seriam tão controversos como a Guerra do Vietname, o movimento hippie, a poesia beatnick, o rock n’roll, entre outros. Na ficha técnica, encontramos Manuel de Castro como secretário de redação; mas ainda estamos longe de perceber perfeitamente qual a real participação do poeta neste projeto. Por outro lado, Manuel de Castro não se limitou a publicar na imprensa lisboeta. Sabe-se que publicou, sobretudo poemas, em vários jornais de várias regiões do país.

 Como e quando conheceste a poesia de Manuel de Castro e como surgiu o contacto com o espólio? Quais os planos que tens em torno da obra do poeta?

Conheci a poesia de Manuel de Castro a partir da antologia do Herberto Hélder, Edoi Lelia Doura, quando comecei a ler poesia. Os poemas nela incluídos levaram-me a ler Paralelo W e A Estrela Rutilante. Entretanto, fui-me cruzando com referências ao Manuel de Castro em textos do Luiz Pacheco e de outros autores que o conheceram.

Foi, por isso, com grande surpresa e alegria que tomei conhecimento, num café literário da Associação Zona Franca (nos Anjos) de que a Dona Natália Cabrita é viúva do Manuel de Castro, que tinha estes materiais em casa e que estaria disponível para permitir o acesso aos mesmos, porque conhecia já a Dona Natália Cabrita pessoalmente antes de o saber.

Quando tive esta notícia, pensei imediatamente em envidar esforços para editar um volume que reunisse a obra de Manuel de Castro. Convidei quatro colegas meus do CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa, a Ana Catarina Rocha, o Rui Sousa, a Sofia Santos e o Carlos Serra, para trabalharmos juntos os materiais do espólio. O projeto integra o plano de trabalhos do Gabinete de Estudos do Surrealismo, que se encontra em formação no CLEPUL.

Foi nessa mesma altura, em finais de 2013, que soube que a edição do Bonsoir Madame, da Alexandria/Língua Morta estava na forja. É tão agradável como curioso notar que várias pessoas estejam agora, novamente ou pela primeira vez, a ler a poesia do Manuel de Castro. O Bonsoir Madame é um excelente contributo para recuperar o Poeta do injusto esquecimento em que se encontrava.

Os meus planos em torno da obra de Manuel de Castro passam pela minha colaboração com a equipa do CLEPUL que está a estudar o espólio, com vista à preparação de uma edição da obra de Manuel de Castro, que incluirá poesia e prosa. Este trabalho passará também pela recolha de testemunhos pessoais e, eventualmente, de escritos de Manuel de Castro, junto daqueles que com ele contactaram de perto, tarefa que se revelará, por certo, essencial, vistas as lacunas do referido espólio.

Mais imediatamente, a equipa está também a trabalhar numa edição do Filipa de José Manuel Pressler, a partir dos materiais gentilmente cedidos pela Dona Natália Cabrita, que deverá ser publicada, ainda durante este ano, pela Língua Morta, o que será também, em boa medida, uma evocação de Manuel de Castro.

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