DIA DA GALIZA. ” jardim do amor ” -Maria Dovigo

*(Maria Dovigo, natural da Corunha, mora em Portugal, escritora, filóloga, académica da AGLP)

“I went to the garden of love

And saw what I never had seen;

A Chapel was built in the midst,

Where I used to play on the green.”

(William Blake, Songs of Innocence and of Experience)

Cada vez que me despeço do meu companheiro tenho a perfeita consciência de que a minha casa na ilha está virada a ocidente. Quando ainda sinto o arrepio na pele do seu último abraço fico a ver como lentamente vai abrindo caminho no mar em direção ao sol poente. O meu companheiro não aceita outra arte de navegação mais que a força do seu braço solitário abrindo caminho no oceano imenso. Nasceu no Algarve de além-mar, numa cidade que tem nome em muitas línguas e que, curiosamente, é conhecida pelo seu nome espanhol: Casablanca. É neto de um pescador do Barlavento, a metade ocidental do Algarve de aquém-mar. Pela sua memória passam pessoas de muitas raízes e palavras de muitas línguas, marca disso que alguns chamam o cosmopolitismo dos pobres. O primeiro que vi nele foi a claridade matinal do seu sorriso. Logo, o seu cabelo de negro profundo como asa de corvo-marinho. Promessa de vida no paraíso, pensei vagamente. Conheci então o perfume adocicado da sua pele, essa mistura de flor de laranjeira e figo seco.

O meu companheiro fez uma única grande viagem na sua vida, entre a terra em que nasceu e a terra dos seus avós, atravessando esse misterioso triângulo do Atlântico que tem o seu vértice no estreito de Gibraltar. O seu primeiro confronto com a identidade pátria que lhe estava destinada em Portugal foi no liceu, onde teve de ler Os Lusíadas, com claras instruções de interpretação e uso, por aquilo de aprender aqueles atos enunciativos característicos da narrativa historiográfica popular portuguesa que tanto me estranham: quando chegámos à Índia, etc. O efeito foi que o meu companheiro detestou o livro do Camões. E eu nunca conheci homem mais tocado pela deusa e mais livre buscador da Ilha dos Amores que ele.

Imaginando mundos desde as alturas das falésias do Barlavento, o meu companheiro viu chegar num dia de sol a sua sonhada amada estrangeira, vinda desse norte do que tudo desconhecia, até o nome: Galiza. Os amantes sempre procuram a sua floresta de Morois e também a nós nos foi dada essa floresta longe da lei do rei no estremo ocidental do Algarve. Foi lá que comecei a sonhar com búzios, foi lá, encerrada na dureza daquela geografia que tudo seca, que vi com clareza que todo o conhecimento é um encontro amoroso e o verdadeiro eros um clarão de conhecimento.

Entre as alturas de Sagres e os olhos namorados do meu homem senti como as Histórias e os conceitos estão viciados, como o mínimo e essencial ato criativo é gratuito e não precisa de máquina, nem dessa complexa máquina académica que com demasiada frequência nos ensina a encerrar a nossa natural perceção das cousas. O Algarve, Sagres, ecos nas conchas, areias, vento nas falésias, coração ao sol, a fortaleza de Sagres e a sua pétrea rosa-dos-ventos, centro simbólico da origem das Descobertas, e, no entanto, espaço tão marginal dos grandes impérios atlânticos. Como nós, exilados e invisíveis nas grandes narrativas dos nossos estados. Desde aquela altura comecei a meditar sobre a razão dos impérios e a

pensar vagamente nesse discurso da carência que alicerça a história moderna sobre o impulso da predação. E o mundo, este imenso mundo oceânico que desde Sagres se vê, é sobre abundante, gratuito, amoroso.

Dizem alguns que a modernidade é a possibilidade do paraíso na terra. Então porquê este exílio nesta história triste que a vida e limita o desejo? Mas porque o oceano abraça e canta, sempre, ousemos já ser farol deste inominado que domina os que amam, sem medo à natureza das cousas e à força libertadora do amor, neste estremo jardim da Europa.

(Maria Dovigo, Lisboa, 17 de maio de 2015).

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