DIA DA GALIZA. “Letras Galegas, 2015: o que estamos a celebrar?” – Carlos Durão*

* (o argonauta Carlos Durão é académico da AGLP, tradutor reformado das Nações Unidas, da diáspora galega em Londres)

Na Galiza pode-se considerar já tradição moderna (desde o 1963) a celebração cada ano, no 17 de maio, do Dia das Letras Galegas, dedicado pela Real Academia Galega (RAG) a um escritor ou escritora que no passado se tenha destacado pelo cultivo justamente das nossas letras. A celebração consiste numa série de atos culturais, edições especiais, palestras, exposições etc., e inclusive o próprio dia 17 de maio é considerado feriado no calendário oficial (ainda que este ano calha em domingo).

Tudo bem. Em anos sucessivos tem sido dedicado esse Dia a vultos de reconhecida relevância para a nossa cultura: Rosalia de Castro, A.R. Castelão, Eduardo Pondal, e assim por diante, ano trás ano.

Mas nos derradeiros anos (justamente os anos nos que o chamado reintegracionismo vai adquirindo cada vez mais força cívica) é já evidente que a RAG ignora propositadamente aqueles escritores que
podemos considerar reintegracionistas, ou seja que propugnaram nos seus escritos a ideia da pertença da Galiza ao mundo lusófono.

Só no ano 2012 vieram a dedicar o Dia das Letras a Valentim Paz-Andrade, relevante pioneiro autor de obra declaradamente reintegracionista, membro da Comissão Galega do Acordo Ortográfico, e cujo nome leva hoje a “Lei para o aproveitamento da língua portuguesa e vínculos com a lusofonia”, do 24 de março de 2014, Lei 1/2014 do Parlamento da Galiza, aprovada por unanimidade, e justamente reconhecida como Lei Paz-Andrade.

Mas nada disto foi reconhecido nos meios oficiais, receosos de abrir uma “caixa de Pandora” que depois não poderiam fechar, e de admitir que o reintegracionismo é hoje um movimento cívico, bem vivo e crescente na nossa terra. E, com efeito, ano trás ano, um clamor popular reclama o Dia das Letras Galegas para outros dous relevantes vultos do reintegracionismo: Ernesto Guerra da Cal e Ricardo Carvalho Calero. A tudo isto a RAG faz orelhas moucas: reticência, ignorância, covardia?

Não só isso, mas este ano dedica-lhe esse Dia a J. Filgueira Valverde, cujo nome leva o funesto Decreto do 1983, popularmente conhecido como “Decreto Filgueira” (Decreto 173/1982, do 17 de novembro), que instaurou no oficialismo uma “normativização” separatista para a escrita do galego, isolando-a propositadamente do tronco comum galego-português, e achegando-o ao castelhano, com a anuência da RAG.

Ainda caberia mencionar a circunstância curiosa (ou não tanto) de Filgueira Valverde ter sido durante muitos anos fiel servidor do franquismo na Galiza (entanto que Guerra da Cal e Carvalho Calero foram de facto fiéis defensores da República, cuja legalidade derrubou o general Franco com o seu golpe de Estado do 1936, que deu lugar à mal chamada “guerra civil” espanhola): e “curiosa” ademais porque o atual presidente da RAG é um declarado marxista…

Mas deixemos isso, e venhamos ao que realmente hoje nos importa: temos, apesar de tudo, as galegas e os galegos algo para celebrar neste 17 de maio? Eu diria que sim. E há uns dias atrás tivemos uma boa prova disso.

Com efeito: no 25 de abril de 2015 teve lugar a inauguração em Santiago de Compostela da Casa da Língua Comum, que é já a sede da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), com uma ampla representação portuguesa: da Comissão de Promoção e difusão da Língua Portuguesa; da Academia das Ciências de Lisboa; da Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia; da Associação 8 Séculos de Língua Portuguesa… Mas também galega: da Associação Cultural Pró-AGLP, e da Associação Galega da Língua (AGAL), por exemplo.

Pela parte galega há que salientar ainda a significativa presença de Valentín García Gómez, o Secretário Geral de Política Linguística da Junta da Galiza (governo galego), quem explicou as atividades oficiais levadas a cabo até agora para implementar a Lei Paz-Andrade; no ato interveio também o Presidente da AGLP, J.M. Montero Santalha com a lição“O Testamento de 1214 de D. Afonso II”, e foi apresentada, por António Gil Hernández, a edição da AGLP do livro Invenção do Mar, de Jenaro Marinhas del Valle (por sinal, outro possível candidato ao Dia das Letras Galegas, mas também preterido por ter sido reintegracionista).

Ainda, na Casa da Língua Comum ficou instalada a Biblioteca J.L. Fontenla, que foi apresentada pelo arquiveiro da AGLP Joám Trilho, e pelo académico L. Fontenla, filho. E ainda uns dias depois viemos a saber que o académico da AGLP Mário Herrero Valeiro vencera o prémio literário Glória de Sant’Anna 2015, um certame aberto a toda a Lusofonia.

Portanto a AGLP estava, e está, de parabéns, Não só se fez um breve percorrido dos seus trabalhos desde a sua fundação no 2008, e os protocolos assinados para compartilhar os seus produtos com outras academias ou editoras lusófonas; mas o seu lavor continua: foi recentemente renovado e atualizado o dicionário Estraviz (na Rede http://estraviz.org/ , que espera uma edição em papel), e concluíram os trabalhos da compilação do Vocabulário Ortográfico Galego (pela Comissão de Lexicologia e Lexicografia da AGLP, que também tem previsto subir à Rede), como contributo ao Vocabulário Ortográfico Comum previsto no Acordo Ortográfico, e em parte ao Dicionário do Português Europeu previsto pela ACL.

Talvez seriam antes estas “cousinhas” as que deveríamos celebrar no 17 de maio, neste Dia das Letras Galegas do 2015?

Carlos Durão, maio 21015

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