DIA DA GALIZA. “Penélope” – Concha Rousia*

*(Concha Rousia, da AGLP, é psicoterapeuta: Cultiva a terra a mente e a palavra)

 Um passo Adiante e outro atrás, Galiza
e a teia dos teus sonhos não se move…

Díaz Castro

 

Maio de 2015. Chove e os bois não aram. Há tantas coisas semeadas na minha cabeça, esperando a primavera. Queria sintetizar a vida em palavras; mas, como destilar as verdades no alambique de uns tempos de mentira? Como desandar na cronologia dos verdugos? Como resgatar as flores sagradas dos nossos bosques neste descultivar “oficial” da minha língua.. Híbrida, de transgénica grafia Ragueana*, com sulfatos que vão queimando as nossas bocas, e vamos calando, calando…

A minha língua foi-me entregada ágrafa, nada adianta que antes tivesse sido língua de trovadores, de poetas, nem adianta que seja língua de cultura no mundo, pulsando vida nos quatro cantos da Lusofonia. A mim foi-me entregada ágrafa, escrita no alento, nos ares livres da fala, embrulhada no cuidar do povo e de meus pais que muito a amavam; cito a meu pai: “Só me bateria com outro homem por duas cousas: a minha mãe e a minha língua” imagino que sou sua herdeira; continuava narrando como derrubou dois homens por essas duas causas, com punho de ferro, para defender a língua que arou o mundo durante mil anos e com 800 de escrita….

Recebíamos a língua como quem recebe a água na fonte, as flores na primavera, o pão quente saindo do forno, a chuva no mês de maio… E chegou a idade de ir a escola, 6 ou 7 anos, nem lembro. Franco e seus Franquistas, entre os que tristemente temos que contar o senhor Filgueira Valverde, homenageado este ano pela Junta no dia das letras galegas. Na escola ensinavam-me a grafar meu mundo noutra língua, a de Castela, forçavam-me a a traduzir-me, a aprender minha inadequação…

Castigos, burlas, escárnio, ameaças, varas de vimeiro, varas de vimeiro, varas de vimeiro… Escribe 200 veces: “años son para decir la edad y no los hijos de las ovejas” (‘mamai, que cousa é ‘la edad’ ? As perguntas ficam para casa). Hoje, maio de 2015, novas lágrimas molham a pele escaldada pelas lágrimas da menina, pelas de todos os meninos da escola, presos numa língua que não nos entendia, sonhando com sair e correr ceives pela nossa língua adiante… Nossa brincadeira preferida era a de sermos lobos, pássaros e contrabandistas… (por essa ordem)

– Ó compadre, mas que há de novo lá por Lisboa?
– Cousa má nenhuma, só ouvi dizer que o mar se volvera papas…
– Mas isso não pode ser…
– Pois pergunte a quem atrás vier…

E mais tarde:

– Ó compadre, mas que há de novo lá por Lisboa?
– Cousa má nenhuma, só que quando eu já me vinha, vi como iam homens, mulheres e meninos, todos com colheres correndo para mar…
– Aió ! Dizia um guardinha para o outro “então é certo que o mar se volvera papas”

Os guardinhas iam lá correndo ver, e os terceiros, contrabandistas verdadeiros, passavam aqueles produtos tão proibidos: sabão, café, e panos e lenços… Que no nosso teatro eram areias, folhas, e pedacinhos de vidro…

 Entravamos. A porta da Casa-da-Escola fechava o mundo fora. Desprotegidos. Estávamos sendo sequestrados, abduzidos e ninguém percebia, hoje aquela Casa-da-escola, que fizeram os homens da aldeia, é o tanatório para despedir os nossos finados, talvez sempre foi um tanatório, e ninguém via como morríamos, como morríamos para dentro. Como dói ver hoje, maio de 2015, aquela hipnose linguístico-cultural induzida que operavam em nós, em nossas mentes inocentes. Depois dirão que nos auto-odiamos, que abandonamos, que desistimos, que nos suicidamos linguisticamente… Aos pouquinhos foram-nos intoxicando, envenenando, com tortura, com terapia aversiva, com maldade, com maldade, com muita maldade…

 Alguém, o super-racionalizador, dirá que aquilo passou, estamos noutra era, dirá que temos que deixa ir, dirá que temos que olhar para o futuro… E eu me esforço, deixo de falar da necessidade que sinto de uma ordem de protecção e afastamento, dos torturadores linguísticos, os franquistas, os Filgueiras, os linguicidas… E o que recebo em troca? Que eles são premiados, que eles são reconhecidos como heróis das nossas letras… Um passo atrás e outro atrás, Galiza,… E a teia azul e branca de urdir sonhos se destece…

 A Junta da Galiza por meio de suas intituiçoes culturais ‘oficiais’ escolheu o franquista Filqueira Valverde para ser homenageado o 17 de Maio de 2015, dia das nossas letras galegas. Como qualificar isso? Nem arrisco a pôr em palavras.. Nem quero, nem preciso, são passos de boi morto…

 E enquanto isso de Filgueira Valverde se urdia, a sociedade civil galega, consciente da anemia histórica dos “intelectuais oficiais” e cientes de que não se pode esperar pelo carro do oficialismo, marca um fito na história da nossa língua. Foi o 25 de abril deste mesmo 2015, que se inaugurou em Santiago de Compostela a Casa da Língua Comum, com a Academia Galega da Língua Portuguesa no leme, e remando junto a Asociaçom Galega da Língua, a Associação Pro Academia da Língua Portuguesa, a Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia, poetas, escritores, e muitos e muitas mais… E a teia dos teus sonhos vai para a frente, Galiza!

Concha Rousia Maio de 2015

*Faz referência à RAG, Real Academia Galega, a entidade responsável por homenagear este ano o franquista F. V.

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