DIA DA GALIZA.”Aquém Minho nasceram as nossas letras”- Alfredo Ferreiro*

* (Alfredo Ferreiro, é poeta, especialista em literatura, operário da palavra, editor e artífice de revistas literárias em papel e na rede)

Um dos principais problemas da Galiza é uma espanholidade mal ressolta. Quando essa espanholidade, que resta galeguidade, não é percebida a colonização é total; é para nós, em definitivo, um venenoso quadro de referências que está a operar sob a tona do quotidiano. Porque o problema é muitos galegos não assumirem a existência de uma espanholidade que elude o fato de a maior parte dos nossos genes culturais nos vincularem a Portugal muito antes do que à Andaluzia, a Castela, à Catalunha ou ao País Basco. Isso implica, é claro, um desconhecimento dos próprios recursos e, consequentemente, uma alienação que conduz à escravatura mental e social. Por esta causa é tão preciso que uma dose urgente de lusismo for inoculada no nosso corpo cultural.

Podemos os galegos ser oficialmente espanhóis e documentalmente estrangeiros em Portugal, mas referencial e culturalmente devemos é renunciar a ser cifras da nação espanhola. Para isto acontecer, só com que a língua, a literatura, a música e as artes portuguesas em geral fossem na Galiza tão bem recebidas como as espanholas da Andaluzia teríamos andado muito caminho. Trata-se de fazermos uma transfusão com sangue compatível, para continuarmos avançando em lugar de dia após dia sucumbir.

A Espanha ultrajou e danou tanto a cultura galega que um movimento galeguista progride do século XIX até aos nossos dias. Mas, qual a perspectiva do esforço galeguista até à data? Um só conceito resume tudo: Espanha. Tudo ou quase tudo o que foi revalorizado culturalmente na Galiza conseguiu-se apesar da Espanha ou como resistência a este Estado que, com rigor colonizador, pretende erguer a nação espanhola sobre as ruínas de outras nações hispânicas. Por isso é a hora de construir na Galiza um futuro alicerçado numa realidade central: a realidade histórica que afirma a língua da Galiza ser a certa matriz da lusofonia e que ao tempo ressalta a irmandade natural de galegos e portugueses, para além do convencional quadro espanhol que empece a nossa comunicação direta e o apoio mútuo.

Alfredo Ferreiro, 2015

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