A NOSSA RÁDIO – Em memória de Herberto Hélder (1930-2015) – 4 – por Álvaro José Ferreira

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Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Herberto Helder (os ditos/recitados e os cantados), há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.com/2015/04/em-memoria-de-herberto-helder.html e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

(1930 - 2015)

 

F

FONTE (I)

Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 41-42)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in “Estúdio Raposa”)

I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo —
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

* Produção – Luís Gaspar

FONTE (II)

Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 43-44)
Dito pelo autor* (“No sorriso louco das mães…”, in CD “Os Poetas: Entre Nós e as Palavras”, Columbia /Sony Music, 1997, 2013)
Música: Rodrigo Leão e Gabriel Gomes

II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Nota: A gravação original (sem música) foi editada em 1970, num EP com selo Philips.

* [Créditos gerais do disco:]
Margarida Araújo – viola
Rodrigo Leão – sintetizadores
Gabriel Gomes – acordeão
Francisco Ribeiro – violoncelo e voz
Concepção do projecto – Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro (Assírio & Alvim)
Produção – Gabriel Gomes e Rodrigo Leão
Recuperação e edição digital dos poemas – Carlos Jorge Vales
Gravações e misturas – António Pinheiro da Silva e Paulo Abelho, nos estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Assistência técnica – José Motor, Vasco, e Carlos Jorge Alves
Pós-produção – António Pinheiro da Silva e João Moura

FONTE (III)

Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 45-46)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in “Estúdio Raposa”)

III

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
— Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.

Corres somente no meu sangue memoriado
e sobes, carne das palavras outra vez
imperecíveis e virgens.
— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,
outras mãos mais puras
e mais sagazes,
e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude
inteligente.

— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?

Do tempo novo espero
o sinal ardente e incorrupto,
mas levo os dedos ao teu nome prolongado,
ó cerrada mãe, levo
os dedos vazios —
e a tua morte cresce por eles totalmente.

* Produção – Luís Gaspar

FONTE (IV)

Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 47-48)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in “Estúdio Raposa”)

IV

Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apolo.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.

E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram — surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.

* Produção – Luís Gaspar

 De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.

* Produção – João Martins

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