LIVRO & LIVROS – Mário de Oliveira lança hoje em Lisboa o seu livro Fátima, $.A.

livro&livros1É extensa a bibliografia apologética sobre as chamadas «aparições de Fátima». Gente ligada à Igreja, plumitivos pagos pelas estruturas eclesiásticas, outros talvez mesmo com fé sincera, foram acumulando depoimentos, como se uma mistificação repetida mil vezes se convertesse em realidade. Tenho desde já de confessar que não li nem uma linha dessas centenas de livros. Nem alguma vez lerei. Li há muitos anos a obra de Tomás da Fonseca Na cova dos leões, redigido sob a forma de cartas ao Cardeal Cerejeira. Li agora o livro do meu amigo Mário de Oliveira (CL).

Vivi alguns anos numa cidade próxima do santuário, durante muito tempo recusei-me a ir a Fátima; uma vez, atraído pela fama de um «coelho à bruxa» fui, com o jornalista Adriano de Carvalho e um pequeno grupo de outros amigos, a um restaurante, salvo erro, chamado Dávi. O coelho era, de facto, uma maravilha. O santuário (onde não entrámos) e o comércio criado em seu redor, era deprimente mesmo para um ateu. Negócios pindéricos vocacionados para apanhar umas moedas aos grupos de excursionistas. E um estendal de crendice burgessa. Tenho por lá passado de tempos a tempos e podido apreciar o desenvolvimento que Fátima tem tido, respondendo a uma melhoria do nível médio de vida dos peregrinos, portugueses e estrangeiros .

Mas continua a ser deprimente.

Estas  considerações vêm a propósito da leitura do livro Fátima, $.A.,  que Mário de Oliveira vai lançar logo  à tarde em Lisboa, na Livraria Círculo de Letras. Já antes abordara este tema da mistificação, do embuste das «aparições» . em Fátima nunca mais (Campo das Letras, Porto, 1999). Fátima foi uma fraude. E continua a ser uma fraude. As chamadas aparições da senhora de Fátima são o que há de, cultural e teologicamente, mais parolo e parvo no nosso país. São o obscurantismo em acção. […] Em Fátima, nada nos lembra Maria, a de Nazaré, a mãe carnal de Jesus. Tudo o que lá se faz é pura idolatria. É puro paganismo, travestido de cristianismo. Ou, se quisermos falar com mais propriedade, é Cristianismo pagão. Não tem nada a ver com o Cristianismo de Jesus, o de Nazaré. As pessoas geralmente não sabem que antes de Jesus, já tinha havido muitos Cristos. A novidade das comunidades primitivas que estão na origem da Igreja é que elas atreveram-se a reconhecer em Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, o Cristo, o Libertador, o ser humano por antonomásia. Em mais ninguém. E foi assim que nasceu o Cristianismo de Jesus, ou o Cristianismo jesuânico. Em Fátima, o que há, desde 1917, é puro paganismo. Nada do que lá se faz tem as marcas de Jesus, o de Nazaré. Tem apenas a marca da mítica Deusa virgem e mãe dos cultos do paganismo mais primitivo, quando as sociedades foram matriarcais, e que, desde então, nunca mais descolou do inconsciente colectivo dos diversos povos do mundo, também do povo português».

As chamadas aparições de Fátima são ou não, tema exclusivamente religioso vedado aos não crentes? Talvez uma parte da questão apenas deva ser discutida por gente ligada à Igreja, Ateu convicto, embora não compreenda como se pode acreditar em algo de tão improvável como num deus que tudo faz para nos provar não existir, sempre tenho, ao longo da vida, tido católicos como amigos, incluindo sacerdotes.  Nesta análise sucinta a Fátima, $.A., não me atrevo a abordar os aspectos puramente religiosos destas «aparições» que, desde há 98 anos, são tema de discussão.  Não me dizem respeito.

Há 98 anos o que acontecia de relevante no Mundo, na Europa e em Portugal? Desde o Verão de 1916, Portugal estava formalmente em guerra com a Alemanha e com o Império Austro-Húngaro. Um governo chamado de «União Sagrada» em que participavam as forças políticas dominantes, tendo como  chefe do executivo António José de Almeida, assumira um conjunto de medidas tendentes a minimizar os efeitos da liberdade de imprensa, o desgaste sobre o esforço de guerra. m Janeiro de 1917 partiu para França a primeira brigada do corpo Expedicionário Português (CEP) e nos meses seguintes continuamos a mandar para uma guerra em que podíamos não ter entrado, jovens sem grande preparação, mal equipados e com uma logística deficiente. 55 mil homens no total.  A guerra somava-se o agravamento das condições sociais e o descontentamento generalizava-se. E foi neste quadro de crise social e política que, procurando capitalizar os erros dos Republicanos e a vulnerabilidade cultural do povo, que se inventou as aparições. A Igreja Católica que perdera poder com a proclamação da República, dava o seu contributo à conspiração monárquica e reaccionária. Em Abril de 1918, Sidónio Pais é eleito presidente da República, em Maio de 1926 a Revolução Nacional abre as portas a Salazar.

Mário de Oliveira é além de Padre da Igreja Católica, um jornalista experiente. Fátima, $.A.  é uma obra onde se desmonta, com argumentos teológicos  e com uma investigação meticulosa um edifício laboriosamente construído com mentiras, tautologias,- falsificação de documentos. Um livro corajoso, como tudo o que Mário de Oliveira escreve e faz.

 

 

1 Comment

  1. Eu não coloco qualquer resposta, pois sou demasiado pequeno para o fazer. Mas atrevo-me a formular uma pergunta:
    Como é que, ao longo dos já séculos, nas mentes humanas se não desenvolveu ainda a capacidade de reflectir sobre o que na realidade está a montante de toda esta concepção em que assentam todas as religiões e crenças?
    Uma coisa eu acho extraordinária: A capacidade de montagem das estruturas em que elas se suportam sem, numa enormíssima parte dos seres humanos, se instalar o desejo de se libertar dos dogmas em que elas assentam e desejar saber, até cientificamente, se existem bases históricas credíveis que as suportem.

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