SOBRE A IMPRENSA E A AUSTERIDADE NA EUROPA – introdução, selecção, organização e montagem de JÚLIO MARQUES MOTA – III – O ARTIGO DE SCHÄUBLE NO NEW YORK TIMES – WOLFGANG SCHÄUBLE SOBRE AS PRIORIDADES DA ALEMANHA E OS MITOS DA ZONA EURO

europe_pol_1993 Sobre a imprensa e a austeridade na Europa

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3. O artigo de Schäuble no New York Times

Wolfgang Schäuble sobre as Prioridades da Alemanha e os Mitos da Zona Euro

WOLFGANG SCHÄUBLE, Wolfgang Schäuble on German Priorities and Eurozone Myths

New York Times, 15 de Abril de 2015

 

Berlim — As reuniões anuais de Primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial começam na sexta-feira em Washington. Estou com alguma ansiedade à volta delas, mesmo se a discussão nos últimos anos tem parecido ser, para alguns comentadores, um pouco demasiado bem ensaiada para provocar muita discussão ou ideias para além das zonas de conforto habituais.

O facto de que o mal-estar mais imediato da crise financeira global pareça ter desaparecido em grande parte do mundo terá provavelmente muito contribuído para esta auto-satisfação. Infelizmente, no entanto, a economia mundial não está ainda fora de perigo. Ainda enfrenta desafios muito concretos. Estamos tão mal como sempre e a precisar de uma compreensão comum do que precisa de ser feito.

A crise financeira eclodiu há sete anos e levou muitos países a uma situação de crise económica e da dívida pública. Um conjunto abrangente de mitos — que a resposta Europeia à crise tem sido ineficaz na melhor das hipóteses, ou mesmo contraproducente —simplesmente não traduzem a verdade. Há fortes evidências de que a Europa está realmente no caminho certo para enfrentar o impacto e, mais importante ainda, para enfrentar as causas da crise. Deixem-me analisar alguns desses mitos.

Em primeiro lugar, foi dito muitas vezes que a insistência alemã sobre a austeridade fiscal significava que Alemanha, a maior economia da União Europeia, se tem comportado  “abaixo das suas possibilidades, abaixo do que seria de esperar dela ” — e, assim, levou a zona euro ainda mais profundamente para a crise —, devido a não estimular mais a procura. Esta crítica erra o alvo. Tal como na medicina, para prescrever o tratamento adequado é essencial ter o diagnóstico correcto.

O meu diagnóstico da crise na Europa é que esta foi primeiramente e sobretudo uma crise de confiança, enraizada em deficiências estruturais. Os investidores começaram a perceber que os países membros da zona euro não eram economicamente tão competitivos ou financeiramente confiáveis como as uniformes taxas de rendimentos dos anos anteriores à crise tinham sugerido. Esses investidores começaram a tratar os títulos de certos países com muito mais cuidado, fazendo com que as taxas de juros dos títulos destes países disparassem. A cura é então estabelecer e aplicar as  reformas para reconstruir a confiança — nas finanças dos Estados-Membros, nas suas economias e na arquitectura da União Europeia. Simplesmente gastar mais dinheiro público não teria resolvido nada — nem o pode agora resolver.

Com esta finalidade, a Alemanha tem defendido uma abordagem de reformas estruturais e de redução da dívida pública sem que com isso se esteja  a limitar o crescimento. Isto não é “austeridade” cega. Trata-se de definir um quadro confiável para a actividade do sector privado, para preparar o envelhecimento das sociedades face ao  futuro e para a melhoria da qualidade dos orçamentos públicos.

Na Alemanha, esta abordagem tem mostrado estar a ter um sucesso tangível: A recuperação económica desde 2009 tem sido amplamente baseada na procura interna como sendo esta o principal elemento impulsionador do crescimento. O investimento — tanto o público como o privado — está a aumentar. Nós estamos a acelerar a redução da dívida, em consonância com a proposta recente do  FMI da “estabilização simétrica” (redução dos défices nos bons momentos, para compensar os aumentos dos défices em tempos maus).

Mais importante ainda, muitos países europeus estão a colher os frutos dos esforços das suas reformas e dos seus esforços de consolidação orçamental. Países como a Irlanda e a Espanha, que colocaram em marcha amplas reformas quando foram atingidos pelos problemas financeiros de há alguns anos atrás, têm agora algumas das maiores taxas de crescimento na Europa.

Um segundo mito é a afirmação absurda proferida por alguns comentadores de que a Alemanha — sendo uma nação credora — se estava na verdade a aproveitar com a crise. Não vejo como é que qualquer país membro pode estar a beneficiar de uma crise Europeia. É verdade que o governo alemão agora goza de custos de empréstimos obtidos como sendo  historicamente baixos. Mas é assim como quase com todos os outros Estados  membros.

As políticas monetárias não convencionais, praticadas pelo independente Banco Central Europeu parecem ter já cumprido a sua parte. As taxas de juro baixas ajudam todos os mutuários — mas os custos são crescentes para os aforradores e para os fundos de pensões. Nós devemos trabalhar duro para ultrapassar esta situação extraordinária e reencontrar a nossa trajectória para uma economia de mercado que funcione bem, na qual as taxas de juros sirvam para alocar a poupança para os investimentos mais rentáveis.

Isto leva ao terceiro ponto: para muitos comentadores e oradores a resposta à crise na Europa tem sido um cada vez maior aumento da liquidez e sempre cada vez mais baixas taxas de juro. Agora que temos as duas coisas ao mesmo tempo, estamos a ver que estas ferramentas de política económica não são nenhuma panaceia, mas criam os seus próprios problemas. Há cada vez mais e mais especialistas em ambos os lados do Atlântico a avisar da possibilidade de perigosas bolhas nos preços dos activos e nos riscos para a estabilidade financeira derivando este risco  da crescente alavancagem (financiamento por meio de empréstimos). E é claro que o fardo da dívida em muitos países não pode ser resolvido por incentivos a assumirem mais dívida ainda.

Pelo lado orçamental, nós precisamos de preparar os orçamentos dos governos para uma normalização eventual da política monetária e dos mercados de capitais. O debate em curso sobre o “afunilamento” no Estados Unidos — o fim do período extraordinário do programa “de facilitação quantitativa” aplicado pelo Federal Reserve para estimular o crescimento económico comprando quantidades enormes de títulos — mostra como difícil é retirar um estímulo uma vez que os governos e os mercados se  habituaram  .

O Banco Central Europeu advertiu muitas vezes que a política monetária não pode nunca substituir nenhumas  reformas fiscais e estruturais em países membros.

Christine Lagarde, à frente do FMI, também chamou a atenção para a necessidade de mais reformas estruturais. Umas tais reformas incluem, por exemplo, os mercados de trabalho mais flexíveis; o abaixamento das barreiras à concorrência no sector dos serviços; uma estrutura tributária mais robusta e outras medidas similares. Eu partilho inteiramente deste ponto de vista. A política monetária pode somente comprar o tempo. O nosso trabalho é o de procurar garantir de que este tempo está a ser utilizado para pôr em ordem as finanças públicas e a colocar as economias sobre trajectórias sustentáveis de crescimento.

As prioridades para a Alemanha, como o actual presidente do grupo do G-7 , são a modernização e as melhorias na regulação. Os estímulos — em ambas as políticas, na monetária e na orçamental — não fazem parte do plano. Quando os meus colegas ministros das Finanças e os Governadores dos Bancos Centrais dos países do G-7 se reunirem em Dresden no fim do próximo mês teremos uma oportunidade de discutir estas questões e de forma detalhada, em conjunto — pela primeira vez na história do G-7 — com alguns dos principais economistas mundiais. Pessoalmente, estou seguro que nós podemos alcançar algum terreno comum em Washington, antes mesmo dessa reunião.

Wolfgang Schäuble on German Priorities and Eurozone Myths. New York Times.

Texto disponível em: http://www.nytimes.com/2015/04/16/opinion/wolfgang-schauble-german-priorities-and-eurozone-myths.html?_r=0

Wolfgang Schäuble is the finance minister of Germany.

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