MARX NO LARGO DO RATO – por César Príncipe

Large bust of Karl Marx in former east Berlin, GermanyNo rescaldo do II Congresso Internacional Marx em 1 de Maio, três personalidades convidaram Karl Marx para uma sessão de três perguntas. O rendez-vous decorreu no nº 2 do Largo do Rato.

 Questão colocada por Mário Soares, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, ex-primeiro-ministro, ex-presidente da República, ex-secretário-geral do PS, Conselheiro de Estado, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa.

Como insere o Diálogo Inter-Religioso na crise de valores?

 

  1. M. O problema não passa por dois mil anos de cristianismo a comer carne de vaca e a queixar-se do excesso de proteínas enquanto o hinduísmo continua a venerar a vaca e a morrer à fome. A questão não passa por dois mil anos de cristianismo a comer carne de porco enquanto o islamismo e o judaísmo consideram repugnante o consumo de suínos. É certo que as vacas e os cevados têm considerável peso em múltiplos domínios da agropecuária e do simbólico. Certo é que a besta sagrada continua a alienar grande parte da sapiens, colaborando, com irrefreável animus, na adulteração da ciência em magia, na substituição da filosofia pela idolatria. É óbvio que a apologética e a praxis religiosas são arsenais de balizamento cultural e controlo social. As mensagens da promissão e da punição seduzem milhões de seres com contas a acertar com o destino e a banca. Não será por mera coincidência que os animais de culto mais aceite ou ditado pelas armas têm uma tipologia comum: são mamíferos e possuem armações. Quer se trate do fedorento bode expiatório ou do ternurento cordeiro de Deus. Todavia, quem verdadeiramente decreta o Paraíso no além para os pobres e no aquém para os ricos não são Bíblias, não são Vedas, não são Corões, não são Talmudes. Não são concílios de deuses. Nem sequer é a Assembleia Geral das Nações Unidas. Muito menos é determinado pela Assembleia da República Portuguesa. Cabe ao Kapital eleger os dignos e os indignos da face divina e dos beneficiários do leite e do mel. Haverá, por consequência e previdência, que relativizar o poder religioso no além e no aquém. A supremacia do sobrenatural é exorbitada. No fundamental, aparente. Move-se num conjunto de peças articuladas. As organizações religiosas são sobretudo gestoras de anestésicos cristãos e combustíveis jhiad. O Kapital não deposita demasiada fé no transcendente. Há muito que confia mais numa grande televisão do que numa grande religião. O Kapital investe na narcodiversidade: a cocaína colombiana e a heroína afegã são tanto ou mais incentivados e cultivados do que o ópio do povo. E, monsieur, as receitas das drogas pesadas não andarão longe dos dividendos do céu. O mercado da aluci(nação) é muito competitivo e possessivo. O Império não dorme: mantém a manu militari na Colômbia e no Afeganistão e assegura as rotas de tráfico no planeta. Mas regressemos, mon ami, ao bestiário ocidental. Sem dúvida que o jumento teve o privilégio de testemunhar as manobras de parto da Virgem-Mãe. Consta que num estábulo palestino, num Dezembro, que marcou o início da nossa era. Mas regressemos, mon ami, ao bestiário oriental. Sem dúvida que os templos asiáticos elevaram o elefante a potestade. Contudo, confrontados os Livros Sagrados com os Livros Profanos, assomará sempre a Revelação do Anjo: os quadrúpedes que comandam as carteiras de expectativas, os mapas de intervenção e os negócios do Mundo não são celebrados nos santuários do Ocidente e do Oriente, mas na Casa Branca, no Capitólio, no Pentágono, nas Agências de Espionagem e Propaganda, na FED, em Wall Street, no BCE. Com efeito, politicamente estamos à mercê dos couces do burro Democrata e das trombas do elefante Republicano. De resto, Deus convive com o bezerro sem qualquer complexo, sem exarar uma declaração de voto. Mon ami, fui consultado. Questionar-vos-ei. Que raios e coriscos desfecham os Céus quando a NATO empreende um ataque do Kapital in nomine Dei? Que denúncias trovejam os profetas, frequentemente desautorizados pelas maquinações da CIA e pelas devassas urbi et orbi da NSA? Monsieur, como podereis dialogar com o homo erectus – jurai – se reverenciais solípedes e proboscídeos? Monsieur, vós que falais do púlpito inter-religioso para o cosmos, que futuro decente esperará a cristandade – confessai – se o verdadeiro cristianismo (o que galvaniza as televisões e as rádios e os jornais e afervora as multidões) é encarnado por um ídolo com pés de barro, por Cristiano? Monsieur, a Igreja Católica acabará por canonizar este 13º apóstolo? Cristiano estará a caminho dos altares? Graças já muitas derramou. Milagres já vários operou. Por exemplo: pôs uma irmã a cantar. Crise de valores? Passa pelas Agências de Rating. Passa ao lado do Sumo Francisco, fetiche mediático e coqueluche de monsieur, credor de passepartout na sua secretária, vis-à-vis com Obama. Este, obviamente, tem mais margem decisória do que o Sumo e obviamente do que o monsieur mas, mesmo assim, não dá ordens à Goldman Sachs, à FED, à Boeing, à Shell, à Carlyle, à Blackwater, nem sequer a Netanyahu. Recebe ordens. E tem de zelar pelo reforço da Ordem Económica Global, aliciando ou pressionando dezenas de Estados a assinar o TTIP e o TSA. E em que medida a atribuição do Prémio Nobel da Paz contribuiu para a paz, monsieur? Obama mantém todas as guerras herdadas de Bush (pai & filho) e foi adicionando outras campanhas armadas (directamente ou por procuração: Bahrein, Iémen, Líbia, Síria, Ucrânia, etc.). É certo: Obama sorri generosamente e veste à manequim. E de que serve à Humanidade este porte de etiqueta e este traje de mordomo? Obama manda? É mais mandado do que manda? Há tempos, um ex-presidente USA, James Carter, num desabafo televisivo, não conteve as lágrimas. Justificou o que fez e o que não fez: o presidente não manda. Também o papa Francisco não manda na Igreja nem muda os grandes interesses e desígnios da Igreja: apenas poderá mudar (e temporariamente) a imagem da Igreja, objectivo acalentado pelos sectores táctico-prudenciais, após um longo ciclo de descrédito (crimes do banco do Vaticano, colaboração com as ditaduras mais sinistras (principalmente na América Latina), e as geopolíticas mais predatórias um pouco por todo o orbe, desautorização dos teólogos da abertura, acosso dos padres-operários, quebra das vocações sacerdotais e conventuais, evasão de crentes, confirmações de pedofilia, suspeitas de magnicídio, etc.). Monsieur, mon mi, fraseados cativantes, gestos de proximidade, valores abstractos, paroles. Monsieur, sempre que uma organização com cultura para dar a volta, com verbo de aggiornamento, gera e acumula desencanto e vê reduzir-se a sua fatia de mercado e a empatia geral, desce uns degraus da pirâmide. Simula mesmo descer à base. Foi o que sucedeu com a rainha da Inglaterra ao condecorar os Beatles com a Ordem do Império. Pretendeu vender um sinal de identificação com a maré juvenil e contestatária. Com a entrega do colar, que mudou na Casa Real, na Monarquia Britânica, no capitalismo deste subimpério? Só as princesas trocaram de amante com mais desembaraço e menos resguardo, dividindo o tálamo com nobres, plaboys e plebeus. Realmente, esta modernização apenas fez prosperar os tablóides. Neste interlúdio do séc. XXI, cabe à Igreja do Polvo de Deus resignar-se a aceitar um papa realmente bom, em comunhão com a Igreja do Povo de Deus e os condenados da Terra. Os Média andam com o papa-sorriso ao colo. Sim, monsieur, todos os dias nos ministram o tónico do Santo Padre. Os empresários da opinião pública preferem que depositemos esperança na palavra solta, a tocar o irreverente, do public relations Francisco da Santa Sé do que nas palavras de ordem de manifestações e greves anti-establishment, e dos projectos revolucionários e alternativos. Por isso, nos instruem para que sejamos todos franciscanos, sob pena de tresmalhe herético. Em verdade, em verdade vos digo, monsieur, já outro franciscano, João XXIII, foi um bondoso papa, após séculos de papas-maus. O tempo o requeria. Deus o chamou à sua presença, encerrando o seu esplêndido e breve pontificado (1958-1963). Tiveram de passar 50 anos, a fim de que Roma achasse que o fumo branco deveria anunciar um amigo da justiça e da paz. Até quando e com que balanço pastoral? Lembrarei, monsieur: já o fundador da Ordem Franciscana, Francisco de Assis, que irrompeu, no hagiológio, para redimir a Igreja e o Mundo dos desmandos da riqueza e da baixeza, não impediu que, nestes 800 anos, a Terra fosse preservada de colossais pilhagens e terríveis atrocidades, com a Igreja, por regra, cúmplice. Mais, monsieur, a Ordem Franciscana, que advogava o despojamento das sandálias apostólicas, acabou presa do ouro e do incenso e de seus compromissos. Vossa Senhoria é confessadamente franciscófilo e obamaníaco, porque precisa de se autojustificar e reescrever a sua biografia. Fez o que o sistema lhe exigiu e continua a exigir: atirou o socialismo, com uma pedra ao pescoço, para o fundo do mar e agora reza pela sua alma.

Questão colocada por Vítor Constâncio, ex-ministro das Finanças, ex-governador do Banco de Portugal, ex-vogal do BPI e da EDP, ex-secretário-geral do PS, vice-presidente do Banco Central Europeu:

             Qual o papel do Euro na unificação da Europa?

 

  1. M. Sehr geehrter herr,2 o Euro é o Marco do IV Reich. Na guerra económico-financeira, Portugal deixou cair o Escudo e ficou desarmado. Sei do que falo. Sou alemão. Portugal tem uma economia débil e uma moeda forte. Desenvolveu a doença da dívida galopante, estimulada pelos credores, apostados em criar uma grande zona de ajuda, baseada na suspensão dos instrumentos de soberania e sob a bota da usura e a égide da jurisprudência extraterritorial. Porque serei suspeito de ser marxista, reforçarei a minha tese euromonetária com os empréstimos de Mayer Rothschild e John Adams, afiançadores do domínio da finança sobre a Política, a Economia, a Sociedade, a Comunicação, a Cultura.3

Questão colocada por José Sócrates, ex-militante do PSD, ex-deputado, ex-secretário de Estado, ex-ministro, ex-primeiro-ministro, ex-secretário-geral do PS, ex-presidente do Conselho Consultivo do Grupo Octapharma para a América Latina, presidiário nº 44:

 

Como arrumaria, numa gaveta filosófica, o quadro partidário português?

 

  1. M. O Movimento das Forças Armadas, executor do Golpe de Estado Democrático de 1974, propôs-se concretizar três D`s: Democracia, Descolonização, Desenvolvimento. O quadro partidário português poderá ser definido com três I`s: Ideais, Ideias, Interesses. A Esquerda distingue-se pelos ideais e pelas ideias. A Direita pelos interesses. O Modelo Democrático Burguês é um Sistema Clientelar. O presente arco da gover(nação) é a base aparelhística da alternância e da salvaguarda do modelo de negócio. O Kapital é quem mais ordena. A burguesia detesta a democracia crítica e participativa. Reduz a democracia a números: à estatística eleitoral e à contabilidade do saque. Até agora, nenhum banqueiro ou grande empresário se tem dado mal com esta equação-rotação em todo o percurso pós-revolucionário português. Os ministros não passam de administradores-delegados das corporações. O parceirato à trois tem resistido às provas de stress. Os dispositivos mediáticos reproduzem ad infinitum o discurso do poder económico-financeiro, a fim de manter a população prisioneira da fórmula. Entretanto, a democracia está a revelar-se cada vez mais pobre e os portugueses continuam a empobrecer. O programa de espoliação tornou-se obsessivo. Ameaça perdurar dezenas de anos no século XXI. Durou séculos na Idade Média e na Idade Moderna. Durou milénios nas Diversas Antiguidades. Mas poderia demorar meses se algo ou alguém obrigasse o PS a tirar o socialismo da gaveta, voltando a defender (desta vez, com depósito de caução e palavra de honra) a sociedade sem classes e o marxismo como inspiração teórica predominante, redistribuindo autocolantes e enrouquecendo a gritar Partido Socialista, partido marxista. Para isso, monsieur porte-plume de la Nouvelle Philosophie Occidental, Vossa Excelência teria de debruçar-se sobre a Miséria da Filosofia, de Karl Marx, após haver provavelmente tropeçado na Filosofia da Miséria, de Proudhon. A condenação à crónica indigência, monsieur, também poderia demorar semanas se os explorados se pusessem de pé e forçassem os exploradores a prestar contas. E, monsieur, poderia demorar dias se uma força categórica fizesse cumprir a Constituição da República.

A História anda por aí, monsieur.

Não se esqueça de reler o Manifesto. É mais importante do que visitar o meu túmulo.

  1. Promovido pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 8, 9 e 10 de Maio, 2014.

  2. Prezado senhor.

  3. Mayer Rothschild, banqueiro, afiançou, há 200 anos, que o controlo da moeda de um país tornava irrelevantes as leis nacionais. John Adams, presidente dos USA, considerou, há 200 anos, que a dívida era um meio de submeter e escravizar um país, sem recorrer a meios militares.

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