Ao fim de seis meses o ex- Primeiro Ministro, José Sócrates, usou uma só e simples palavra de três letras para contestar a sua prisão preventiva, ou melhor a sua prisão.
José Sócrates disse NÃO à prisão domiciliária com pulseira electrónica.
Foi o espanto geral de políticos e de não políticos por esta digna palavra – Não.
Como é possível abdicar do conforto da sua casa, das visitas dos amigos, da presença reconfortante da família?
É muito difícil dizer Não quando se está preso sem culpa formada.
Porque foi escolhida a palavra “Não”?
As palavras não são só sons que se articulam, as palavras têm sentido e sentimento.
Levado pelo sentido e pelo sentimento de injustiça e de dignidade da sua pessoa e das instituições que serviu, José Sócrates disse: Não.
A defesa da dignidade falou mais alto do que o conforto do sofá.
Eis uma atitude que poderá servir de aprendizagem, numa sociedade democrática, em que tudo é justificável para afastar os cidadãos que incomodam.
Ninguém pode negar que Sócrates incomodou a sociedade, enquanto foi Primeiro Ministro e que a sociedade tinha um prazer especial em ver o nome Sócrates implicado em casos pouco transparentes. Mas esse prazer depressa se esfumava porque Sócrates é, de facto, um homem com personalidade forte, que por onde passa fica a sua marca, que não tem medo de se defender na televisão e nos jornais.
Estamos habituados à perseguição a que este político tem sido alvo.
Foi acusado de comportamentos que não teve, mas que bom que é deixar ficar a dúvida de que Sócrates….
Sócrates disse um dia que era um “animal feroz” e ainda bem que o é, pois só com a ferocidade de um homem se pode dizer Não a uma vida mais confortável, se pode dizer Não, sacrificando o abrir uma janela e ver o sol, o poder andar por várias divisões da sua casa à hora que quiser, ler quando lhe apetecer.
Sócrates foi Sócrates e disse “Não”. Autorizar a pulseira electrónica é reconhecer que há motivos para estar preso.
Sócrates acredita nele próprio e considera que está preso sem culpa formada, e tanto está preso na cadeia de Évora, como em casa sob vigilância…
Para emoldurar esta situação de acusações não provadas e de prisão preventiva está um leque de amigos que não sé capaz de assumir uma amizade, de assumir uma identidade política, mas é capaz de colaborar num silêncio inquietante para não pôr em causa o seu poder, porque têm medo de dizer “Não”!