Acordar num daqueles dias em que, por qualquer razão, sentimos a gema de fora, num daqueles dias mais radiosos que a Primavera nos oferece, pegar no carro e ir almoçar a um qualquer sítio no Douro, subindo em seguida para S. João da Pesqueira, passando por Vila Nova de Foz Côa e Figueira de Castelo Rodrigo a fim de chegar a Barca d’Alva, entrar em Espanha por la Fregeneda e Lumbrales, alcançar Vitigudino, pequena vila perdida num mágico deserto meio Alentejo meio Trás-os-Montes, comer as melhores e mais típicas tapas de Espanha, pernoitar num hotel de uma estrela com quartos não inferiores a quatro estrelas, levantar ao romper de uma das mais belas manhãs que a natureza consegue pintar, seguir para a linda e acolhedora Aldeiadávila de La Ribera onde se bate com o nariz na porta por não permitir passagem para Portugal, voltar um pouco atrás e seguir por Pereña e Trabanca até Fermoselle, onde desagua na margem esquerda do Douro o rio Tormes, que passa em Salamanca e nasce em Prado de Tormejon, parar um pouco na subida até à Barragem da Bemposta, e no mais absoluto silêncio da avassaladora beleza das montanhas, ouvir melodias tão díspares como as de Bach, Gershwin e Guilhermina Suggia, atravessar a Barragem e subir para um Portugal que aqui, por enquanto, não exala o cheiro a merda que empesta todo o país, almoçar uma vitelinha em Alfândega da Fé, não é só um prazer indescritível, mas uma bênção da vida e uma espécie de calibração dessa misteriosa balança que temos dentro de nós.


Adão, meu bom amigo
Por essas paragens também eu adoro «perder-me». Só te faltou acrescentar o indispensável vinho -em Espanha de Ribera del Duero ou de Toro, em Portugal um bom vinho do Douro, branco ou tinto, de S. João da Pesqueira ou de outro qualquer lugar do nosso Douro, o melhor vinho do Mundo!
Até breve. Abraço