Este fim de semana fomos confrontados com a notícia ” uma professora do 1º ciclo foi condenada a seis anos de prisão efectiva, da qual pode recorrer, e ao pagamento de vinte mil euros aos seus alunos”
Os alunos eram meninos e meninas de 6 anos que frequentavam o 1º ano de escolaridade.
Dizem elementos da escola que o choro, o barulho de um cabo de vassoura a bater na secretária e os gritos se ouviam pela escola e pelo pátio.
Os adultos ouviam e certamente faziam “ouvidos de mercador”, os meninos e as meninas da sala desta professora estariam aterrorizados.
“Furo-te os olhos”, “mato-te” eram algumas das ameaças que ouviam e interiorizavam sem saber o que fazer. Não podiam contar a ninguém.
A professora estaria a passar momentos difíceis da sua vida afectiva e profissional.
Pergunto, se na escola, ou se em casa dos alunos, ninguém percebia que algo estava mal.
O director do Agrupamento afastou-a do cargo de gestão da escola. Ninguém fez mais nada?
O ministério não quis saber, junto do director do agrupamento, porque razão a professora não tinha perfil para desempenhar um cargo de gestão na escola?
Como se comportava esta professora nas reuniões, no cumprimento dos prazos para entregar as avaliações dos alunos, o que diziam essas avaliações?
Como reagiam os pais perante esta situação turbulenta vivida na escola dos filhos?
A estes meninos não doía a barriga, não doía a cabeça no domingo à noite?
Não entendo como se passou tudo isto, durante um ano lectivo, perante o silêncio de todos.
De onde vem esta maldade contra as crianças?
Como é que os outros se calavam?
A violência exerce-se sempre do mais forte para o mais fraco e, na realidade, o mais forte era a professora.
Há sempre mais violência quando não há sanção social que a condene. Nesta comunidade (escola) ninguém quis afrontar o falso poder deste mais forte. O mais fraco enfraquecia cada vez mais pois tinha medo de dizer o que se passava, e do medo ao sentimento de culpa vai um passo. E se calhar até seriam eles, os alunos, os culpados.
Fico aterrorizada com este cenário, pois no nosso dia a dia parece que há uma certa negligência no cumprimento dos Direitos Humanos, dos Direitos da Criança, dos Direitos da Mulher…prende-se para se investigar o que se supõe ser crime, deixa-se em liberdade aqueles que, também, do alto do seu poder o Banco enganou as pessoas que nele confiavam. Quem foi o culpado? A resposta é o silêncio.
O que é preciso é ter poder, o que é preciso é mandar, mandar.
A descrição do ambiente que se viveu nesta sala de aula fez-me recuar quarenta anos e lembrar-me como alguns professores batiam nos alunos com réguas e ponteiros, como atiravam o apagador em direção a algum aluno, como gritavam até ficarem roucos, como destruíam a auto estima de quem fosse seu aluno, de como falavam dos alunos.
Nessa altura, no tempo da ditadura, “se o professor bateu é por fizeste alguma” apesar de ser proibido bater. Em tempo de liberdade as reacções dos pais são imprevisíveis, tanto entram na escola aos gritos porque o professor gritou com o filho, como tanto entram na escola sabendo que o professor maltrata os alunos e remetem-se ao silêncio.
Porquê?
As crianças eram educadas para o medo, para a submissão e por isso os seus pais toleravam a violência exercida sobre os seus filhos, na escola, pois eles também foram educados para obedecer, para não questionar, para ter medo do poder.
Quero dar os parabéns à auxiliar que sinalizou este caso para a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), pois sem a sua indignação e sem o seu sentimento de justiça aquelas crianças ainda estariam a ser violentadas pela professora.
Em nome dos Direitos da Criança faço um apelo a todos quantos saibam que existem crianças maltratadas, seja por quem for, que sinalizem o caso. É fácil, basta telefonar para o SOS Criança nº 116 111, é grátis, anónimo e confidencial.
Façam o favor de viver em democracia, sem medo. Não tiveram medo os soldados de Abril.