Crónica em Tempo de Guerra – por António Avelãs Nunes I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

1. Escrevo esta ‘crónica’ enquanto decorre o dramático processo de ‘negociações’ entre os países e instituições credores da Grécia e o governo deste país, eleito com um mandato para pôr termo à austeridade que arruinou a economia do país e provocou uma grave crise social.

Sucessivas reuniões decisivas para o futuro da Grécia iam tornando claro que não havia negociações nenhumas, mas apenas ‘combates’ em que os credores procuravam impor à Grécia mais medidas de austeridade, batendo sempre a tecla da necessidade de cumprir as regras, ainda que estas tenham sido já classificadas de «estúpidas» e «medievais» por um Presidente da Comissão Europeia em exercício de funções.

Ora cumprir regras é tarefa de burocratas, não de políticos. E os ‘responsáveis’ europeus deram, durante esses longos dias, um triste espectáculo de mediocridade, de hipocrisia e de falta de cultura democrática. Em condições de democracia, a política e os políticos servem para construir soluções que sirvam os povos (é isto a democracia: governo para o povo), ainda que para tanto tenham de meter as regras na gaveta.

Dessas reuniões iam saindo declarações dos representantes dos credores verdadeiramente insultuosas para os governantes gregos e para o povo da Grécia. O governo da Grécia e o seu Primeiro-Ministro (que apresentou um programa social-democrata moderado, cometendo talvez o ‘crime’ de ressuscitar’ Keynes e as políticas keynesianas) eram rotulados de radicais, apesar de as notícias irem dando a entender que Alexis Tsipras estava a aceitar praticamente tudo o que os credores lhe queriam impor.

O ministro Schäuble classificou o Ministro das Finanças grego de «estupidamente ingénuo».

A Directora-Geral do FMI disse um dia que era preciso continuar a dialogar, mas que o diálogo só valia a pena «com adultos na sala». Incrível a falta de educação desta senhora. Não é admissível que um funcionário internacional chame garoto ao Primeiro-Ministro de um estado-membro da Organização em que trabalha. O ordenado principesco que aufere justifica que se espere dela, pelo menos, que seja bem educada, uma vez que a competência dela e do FMI andam pelas ruas da amargura, depois dos erros crassos que cometeu e reconheceu (mas não emendou), das previsões erráticas e erradas que vem fazendo e das políticas que vem defendendo (umas vezes num sentido, outras vezes em sentido contrário).

Do que transpirava dessas reuniões ia resultando também que continuava a discutir-se a partir do pressuposto de que o chamado problema da dívida da Grécia é um problema dos gregos, que têm de aceitar todas as ‘penas’ impostas pelos credores (só o Primeiro-Ministro grego insiste em continuar a falar de parceiros…). Para alguns começa a ficar claro que, como já vi escrito, «a Europa não tem um problema grego, tem um problema alemão», traduzido no regresso da irracionalidade, da arrogância, da embriaguez do poder por parte da elite dirigente da Alemanha, que se vangloria de que «agora na Europa fala-se alemão» e que parece continuar a contar com um povo fiel e obediente aos desígnios dos chefes. Um problema que reside no regresso da Alemanha alemã (que reconstituiu o seu espaço vital no centro e no leste da Europa e que vai ‘colonizando’ os povos do sul, todos a trabalhar para a Alemanha) a uma Europa alemã (capitulacionista e colaboracionista), ao contrário do que pedia Thomas Mann em 1953: uma Alemanha europeia numa Europa europeia, não Europa alemã comandada por uma Alemanha alemã.

Entretanto, com os fumos saídos dessas reuniões vinham ciscos incandescentes e incendiários, acenando com a possibilidade de a Grécia ter de sair da zona euro, uma arma utilizada a preceito porque os credores conheciam as sondagens indicativas de que a maioria dos gregos é favorável à permanência da Grécia no euro, posição que é também a do Governo do Siryza. Ameaçar com a ‘expulsão’ da Grécia do clube do euro era uma maneira de semear junto dos gregos o medo de serem expulsos do paraíso.

Esta música ia permanecendo em antena por inspiração de Schäuble, que contou, como sempre, com alguns ajudantes. O Ministro das Finanças da Áustria proclamou aos quatro ventos (3.7.2015) que «o problema da saída da Grécia do euro resolve-se facilmente». Mais brilhante foi Cavaco Silva, que veio explicar ao mundo que a zona euro tem 19 membros, pelo que, se sair um, ainda ficam 18. Lindo menino! Mostrou que sabe fazer uma conta de diminuir que se aprende na 1ª classe. Mas mostrou também que não percebe nada do que é a UEM, nem percebe o que significa o euro, nem percebe nada da Europa, e que é completamente ignorante no domínio da História e da política. Uma vergonha.[1]

Apesar destas ‘lições’, muita gente se foi apercebendo de que a saída da Grécia da zona euro punha a ‘Europa’ a navegar por mares nunca dantes navegados. E o medo do Adamastor ressurgiu: poderia ficar em causa o futuro do euro e o futuro da Europa.

Pouco antes de Cavaco Silva falar, o Presidente em exercício do Conselho Europeu declarava: «não tenho dúvidas de que este é o momento mais crítico da história da Europa e da zona euro».

Por essa altura, foi também a vez de a Srª Merkel vir a público, assustada: «Se perdermos a capacidade de encontrar compromissos, então a Europa está perdida»; «se o euro falha, a Europa falha».[2]

Mas falta classe e clarividência a estes ‘chefezinhos’ da ‘Europa’: não têm qualquer visão política do que seja a Europa e não fazem a mínima ideia do que querem fazer com a Europa. A ‘Europa’ está à deriva.

2.  Em desespero de causa (vendo que os socialistas europeus lhe negavam o apoio que talvez esperasse, dada a moderação das suas propostas), o Primeiro-Ministro grego anunciou, em finais de Junho/2015, a realização de um referendo, marcado para 5 de Julho de 2015, para que o povo se pronunciasse (SIM ou NÃO) sobre o programa de austeridade que os credores lhe queriam impor. Desta vez, não conseguiram fazer a Tsipras o que fizeram em 2012 a George Papandreou: despedi-lo e pôr em seu lugar uma «junta civil» comandada por um banqueiro. Mas os dirigentes dos países credores e da UE ficaram furiosos. E não o esconderam.

Entretanto, em 30.6.2015, a Grécia falhou o pagamento de 1,6 mil milhões de euros ao FMI. Poucos dias antes do referendo, o BCE (desrespeitando claramente o seu mandato, que o obriga a garantir a estabilidade financeira na zona do euro) suspendeu a linha de assistência de emergência destinada a fornecer liquidez à banca (a chamada ELA – Emergency Liquidity Assistance). O governo grego teve de fechar os bancos para evitar a corrida aos depósitos e impor o controlo de capitais, fixando um limite de sessenta euros diários para levantamentos em caixas multibanco.

Vários responsáveis da UE e algumas instituições intensificaram a sementeira do medo, acenando com o papão da saída do euro e com o inferno que se seguiria. Mais um episódio da costumada ingerência da eurocracia e dos governantes de vários estados-membros da UE nos assuntos internos de outros estados. Mesmo os socialistas com responsabilidades de governo alinharam nesta ‘guerra’, à semelhança dos seus camaradas que, ao votarem no Bundestag os créditos da guerra, no dia 4 de Agosto de 1914, abriram caminho à Primeira Guerra Mundial.

Em 3.7.2015, o Presidente da Comissão Europeia foi claro: «a vitória do NÃO deixará a Grécia dramaticamente enfraquecida». E o Presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata alemão Martin Schultz, não poupou no ‘chumbo’ sobre o povo grego, avisando que o voto NÃO significaria o fim imediato do financiamento europeu, pelo que a Grécia ficaria «sem dinheiro, os salários não poderiam ser pagos, o sistema de saúde deixaria de funcionar, o fornecimento de electricidade e o sistema de transportes públicos ficaria paralisado».[3]

Reagindo ao fogo inimigo, o Ministro das Finanças da Grécia deixou cair o verniz diplomático e disse uma verdade: «o que estão a fazer à Grécia tem um nome: terrorismo».

Contra a corrente, surgiam também vários apoios ao povo grego, pouco divulgados, porque não encaixavam nos critérios jornalísticos da imprensa livre. Um deles foi o do Prémio Nobel Joseph Stiglitz (29.6.2015), segundo o qual o voto NÃO «deixaria pelo menos aberta a possibilidade de a Grécia agarrar o seu destino com as suas próprias mãos».

O referendo realizou-se sem problemas (quem diria que um estado ineficiente seria capaz de organizar um referendo com esta importância e com esta envergadura em tão poucos dias?). Apesar dos bancos fechados, da falta de dinheiro e da campanha de terror, as políticas de austeridade receberam um rotundo NÃO de 67% dos gregos (os que anularam os votos porque queriam ir mais longe também recusaram estas políticas). Foi comovente assistir à vitória da coragem sobre o medo, da resistência sobre o colaboracionismo, da dignidade sobre o servilismo, dos homens sobre os ‘carneiros’, da cidadania sobre o terrorismo, da política sobre as ‘regras’, da democracia sobre o «fascismo de mercado», da paz sobre a guerra, da verdade sobre a manipulação dela pela ‘comunicação social dominante’.[4]

            [1] Por estas e por outras razões é que Varoufakis disse ao New Stateman que, «desde o início, esses países [os outros países devedores] deixaram bem claro que eram eles os inimigos mais enérgicos do nosso governo. E a razão, claro, o seu maior pesadelo, era o nosso sucesso: se nós tivéssemos êxito na negociação de um acordo melhor para a Grécia, isso iria evidentemente destruí-los politicamente, pois teriam de explicar aos seus concidadãos as razões por que não tinham negociado como nós estávamos a fazer».

            [2] Transcrevo dos órgãos de comunicação social de 29.6.2015. Na minha opinião, as aparentes divergências entre Merkel e o seu Ministro das Finanças talvez signifiquem apenas o resultado de um acordo entre eles (expresso eu tácito) no sentido de um fazer o papel de polícia bom, encarregando-se o outro (Schäuble, neste caso) do papel de polícia mau.

            [3] Expresso de 7.7.2015.

            [4] José Vítor Malheiros (Expresso, 7.7.2015) mediu o tempo dedicado nas seis principais estações de TV do nosso país às duas grandes manifestações a favor do SIM e do NÃO. A cobertura da primeira preencheu 46 minutos, a da 2ª não mereceu mais do que oito minutos. Viva a liberdade de imprensa!

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