Finlândia é um óptimo exemplo de como o euro não funciona – por Matt O’Brien

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Finlândia é um  óptimo exemplo de como o euro não funciona

Matt O’Brien, Washington Post, 23 de  Julho de 2015

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Helsinki (Wikimedia Commons)

 

Às vezes as coisas  más acontecem nas boas  economias.

Tomemos como exemplo a Finlândia. As suas  escolas estão entre as melhores do mundo, o seu governo está colocado entre os menos corruptos, e, no conjunto dos países ricos, a sua dívida pública está entre as  mais baixas. Mas, apesar do facto de que os fundamentais da sua economia são fortes, a  sua economia não  é,  de facto, forte. Na verdade, a Finlândia está prisioneira da mais longa recessão de que há memória na sua história. Porquê? Bem, a responsabilidade é o euro.

A versão ligeiramente mais  longa é a de que a  Finlândia tem tido algum azar de que o euro a  tenha transformado numa economia em má recessão, ou, pelo menos, um pouco pior do que poderia ser. Tudo  começou quando a  Apple fez a Nokia passar  de ser vista como uma empresa de ponta em smartphones para uma  empresa produtora de velhos smartphones. Como a Finlândia veio a perceber, não é fácil de substituir uma empresa que, no pico das TIC, valia  4 por cento de sua economia. A obsolescência aparece por seu lado nas empresas madeireiras. Não havia nada que pudessem fazer para que as pessoas precisassem de gastar mais papel, que até aí tinha sido um sector fundamental de bens de exportação, num mundo que já não estava em expansão do seu consumo global de papel. E, por cima disso, a Finlândia tem estado a sentir os efeitos do embargo para a Rússia, um dos maiores parceiros comerciais, também ela em dificuldades  sob o peso  da baixa dos preços do petróleo. Coloque tudo isto junto e chega pois à conclusão de que na Finlândia sempre teria que haver  um momento  economicamente  difícil. Mas tudo isto  tem sido mais difícil do que poderia ser necessário acontecer, uma vez que a Finlândia não tem sido capaz de fazer  o que um país normalmente faz  nesta situação:  desvalorizar a sua moeda. Isso porque a Finlândia não tem uma moeda nacional que possa desvalorizar.  Tem o euro.

Como é que pode  uma moeda  mais barata fazer com que  Nokia volte a ser uma empresa relevante? Bem, não pode. Porém, poderia tentar fazer com que o resto da sua economia se torne suficientemente  competitiva de modo a que as coisas em que a Finlândia não é forte hoje o possa ser amanhã. Poderia também fazer com que  a inflação não caia demasiado –  na verdade está  agora negativa – o que, por sua vez, poderia fazer com que fosse mais fácil liquidar as suas dívidas assim como  manter o volume de despesa das famílias  e fazer com que as empresas invistam um pouco mais. Pense nisso e desta forma. Sempre que aparece um  choque, seja com a falência de bancos ou com a morte da  indústria, a economia precisa de cortar nos custos para impulsionar a competitividade. Existem apenas duas maneiras de conseguir  fazer isto: cortar no valor da moeda de modo a que os salários não valham tanto quanto  antes, ou cortar nos próprios salários em si-mesmos. Agora, isso pode soar como uma distinção sem nenhuma diferença, mas  não é assim, a diferença é grande.  É muito mais fácil de cortar num preço (a taxa de câmbio) do que estar a cortar em  milhões de preços (os salários das pessoas). E é muito menos doloroso, também. Desta forma não tem que estar a despedir ninguém quando se está a desvalorizar a moeda, mas os despedimentos é o  que tem de  ser feito quando se quer utilizar os cortes salariais como a ferramenta da política económica.

É aqui que as coisas começam a estar bem  complicadas, pelo que sabemos. De quanto é que devemos culpar o euro pelos problemas da Finlândia, e de quanto é  o resultado da nossa própria culpa é também o que é necessário saber. Em suma,  não é considerar que a moeda comum tenha tido alguma coisa a ver com o facto dos IPhones da Apple  terem  transformado  os telefones  Nokia em pouco mais do que  artefactos culturais. Embora,  por outro lado, isto tenha muito a ver com o tempo que a Finlândia levou para se ajustar a essa nova realidade. Não há aqui uma resposta fácil. Mas o que podemos fazer,  como Paul Krugman referiu,  é comparar o que  a  Finlândia tem feito com o que tem feito um país semelhante que não está prisioneiro da malha do euro  como é o caso da Suécia. E o que se ilustra claramente no gráfico  abaixo, é um retrato nada agradável à vista.  A Finlândia e a Suécia cresceram de forma quase que idêntica entre  1989 e 2008, antes de passarem a divergir  20 por cento desde então. A conclusão mais lógica que aqui se pode encontrar, dado que a Finlândia terá caído muitos pontos relativamente à Suécia,  mesmo que tivesse  mantido a sua antiga  moeda, a markka, mas terá caído bem mais do que isso porque com o euro a Finlândia terá perdido capacidade para fazer fosse o que fosse sobre tudo o que lhe  aconteceu . Tudo o que neste caso se pode fazer é religiosamente tentar reduzir ainda mais os custos e sempre assim, sucessivamente assim.

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Mas os factos não condizem com a fé, e a Finlândia está cansada da estratégia económica seguida. O ministro das Finanças da Finlândia Alexander Stubb disse a Neil Irwin do New York Times que a “desvalorização é um pouco como o doping no desporto” na medida em  “que lhe dá um impulso a curto prazo, mas a longo prazo, isso não é nada benéfico.”  O problema é que, embora esta posição  pareça ser como uma análise custo-benefício, ela é sobretudo uma posição de ordem moral.  E realmente desdenha da  desvalorização como sendo uma forma fácil de resposta à crise.  Mas porque é que não se quer aplicá-la?  As duas melhores coisas sobre a forma fácil parecem ser que na verdade ela é fácil e é, de facto, uma maneira de sair da crise. A  Finlândia poderia utilizar esta via até  porque a sua economia está ainda 5 por cento abaixo do valor do PIB alcançado em 2008.

A única maneira em que o euro poderia possivelmente valer a pena é se este tivesse ajudado a  Finlândia mais, antes do rebentar da crise, do que o que tem estado a atingi-la desde então. Esta situação da Finlândia   é um caso duro de resolver, embora se deva ter em conta  que a Suécia fez muito melhor sem ter o  euro do que  a Finlândia durante esse mesmo período de  tempo.

Coisas más também sempre  aconteceram sempre nas  boas economias, e será sempre assim. Tais são as vicissitudes da vida. Isso não é justo, mas pelo menos os governos podem fazer  um pouco melhor contra o  que lhes está a acontecer – a menos que, naturalmente, façam  parte da zona  euro. Neste último caso terão então somente como recurso o punirem-se, repetidamente, e sempre cada mais intensamente.   De novo e de novo, sempre assim.

A moral ainda não melhorou nada.  E a economia também não.

Matt O’Brien, Washington Post, Finland is the poster child for why the euro doesn’t work, texto disponível em:

http://www.washingtonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2015/07/23/finland-is-the-poster-child-for-why-the-euro-doesnt-work/

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