A “LIÇÃO DE POESIA” de ANA HATHERLY, por MANUEL SIMÕES

imagem110

retrato
(1929 – 2015)

gráfico

A “LIÇÃO DE POESIA” DE ANA HATHERLY

por Manuel Simões

(homenagem à escritora e à amiga)

Na sua constante pesquisa sobre o fazer poético, Ana Hatherly questiona a própria função da escrita («escrever é querer descobrir o próprio vulto»), estabelecendo uma relação de contiguidade entre poesia e arte, às quais confere o estatuto de “artifício da verdade” (veja-se, por exemplo, “O Pavão Negro”, de 2003).

Esta relação encontra realizações paradigmáticas nos “poemas italianos”, conjunto de nove poemas inseridos no importante volume “A Idade da Escrita” (1998), que aqui tomo como exemplo da sua constante “lição de poesia”. A maior parte dos poemas “italianos” tem como objecto poético Veneza e os seus mitos a começar pelo primeiro, que exibe o título emblemático “Arte e Morte em Veneza” e onde é possível vislumbrar elementos genéticos que provêm do conhecido romance de Thomas Mann, depois retomado por Visconti na sua versão cinematográfica absolutamente inesquecível. Também aqui (mas diga-se desde já que Ana Hatherly constrói um discurso originalíssimo, sem a sombra de estereótipos ou de metáforas desgastadas pela usura), e tal como em T. Mann, se confrontam “Arte” e “Morte” em posição antitética. E se no Autor alemão a Morte ocorre numa Veneza equívoca e contaminada pela epidemia da cólera, sinais convergentes relativamente à infracção do escritor Aschenbach que abandona a luta pela perfeição da obra de arte para mergulhar no caos da paixão proscrita, em “Arte e Morte em Veneza” há uma relação do mesmo tipo: perante a inevitabilidade da morte (ou da sua ameaça), a arte tem a função de iluminar uma «excessiva arquitectura dos sentidos», tentando adiar o que parece irreparável.

Esta perspectiva pressupõe uma cidade exposta, cujos «palácios são cofres lambidos p’la cobiça/ varridos p’las pestanas dos turistas». Circunstância que justifica plenamente a pluri-funcionalidade do magnífico poema visual (“Carta Secreta II- Ah!”), que liberta uma energia explosiva irrompendo do espaço branco e do silêncio e cuja expansão textual acentua a polissemia de um discurso (“Ah!”) que passa pela exclamação admirativa mas que pode alcançar uma conotação de dissonância relativamente ao tecido de ruas e canais, ao caos que aflora à superfície da pedra e da água, elementos transfigurados pelo tempo e pela história. E este “poema gráfico” vem lembrar a actividade vanguardista de quem, desde 1966, tinha aderido ao grupo da “Poesia Experimental”, por sua vez ligado ao Movimento Internacional da Poesia Concreta, surgido no Brasil nos anos 50, actividade contestada no Portugal de então, «tanto pelo seu aspecto subversivo como pelo seu aspecto de projecção mundial», como se lê na apresentação de “463 Tisanas”, de 2006.

Pode dizer-se, em síntese, que os “poemas italianos” se inscrevem paradigmaticamente no âmbito de uma série de paratextos que Ana Hatherly quis inserir no próprio volume “A Idade da Escrita”, desde o exercício exordial («Não escrevo para dizer:/ escrevo para dizer o que não pode ser dito»), passando pelo poema-ensaio de transparente proposta sobre a arte da escrita («Escrevo para compreender/ para apreender:/ a escrita é o que me revela/ um mundo/ o mundo»), ou, entre outros, por “Art, The Timeless Medium”: «O poeta não quer duplicar o mundo / não quer fazer dele uma cópia:/ … /E a sua mão/ …/ deve produzir/ o que o mundo não tem/ o que o mundo não diz/ o que o mundo não é». Ou como a Autora refere noutro lugar textual do mesmo livro: «Ponte pensada/ arquitecto do não-útil/ por entre o cosmos e o caos/ o poeta olha o mundo/ e reinventa-o/ no seu jardim feito de tinta».

Príncipe - I

Príncipe - II

Leave a Reply