A neta de René Peter, amigo de infância de Proust, encontrou, há poucos anos, o texto que foi agora publicado. Até então, pouco se sabia quanto ao acontecido no verão de 1906, quando Proust o foi passar em Versailles, consumido de tristeza, desamparo e depressão, devido à morte de sua mãe.
Nas páginas deste livro, fica-se a conhecer melhor Proust, aquele homem antes de se tornar uma lenda e respirar a atmosfera da classe vigente em 1906, para uns frívola, que pouco duraria, pois a I Grande Guerra encarregar-se-á de lhe pôr fim.
Recordemos: Marcel Proust nascido em Paris, a 10 de Julho de 1871. Criança frágil, foi aos nove anos que se manifestou a doença que o perturbaria até a morte: a asma. Apesar de se matriculado na Escola de Direito e na Escola de Ciências Políticas, acabou por se licenciar em Letras na Sorbonne.
No início da década de 1890, fundou a revista Le Banquet e publicou alguns textos em outros periódicos, como La revue blanche. Os seus primeiros textos foram pequenos relatos e poemas em prosa, publicados sob o título de Les plaisirs et le jours . Foi só no ano de 1895 que veio a iniciar, um vasto romance autobiográfico,Jean Santeuil que é considerado como um esboço da célebre À la recherche du temps perdu. A primeira só foi publicado postumamente, em 1952.
A perda de seus pais (o pai em 1903, a mãe em 1905) foram momentos importantes na sua vida, pessoal e literária. Só depois da publicação de À l’ombre des jeunes filles en fleur , em 1919, obra com que que ganhou o prêmio Goncourt, é que se tornou célebre. Grande foi a sua contribuição literária. Morreu em 1922, de uma gripe não-tratada que evoluiu para uma pneumonia.
Mas falemos deste livro : Proust tinha 34 anos, e vivia um período de luto a seguir à morte da mãe. Projectou uma viagem de uns dias mas acabou por ser estada de 4 meses.
Peter comenta o livro do amigo de infância: Manifesta “ciúmes do irmão. Ou inveja do irmão? O filho modelo contra o filho doente?” Nesta confissões Peter lê a eterna necessidade de Proust de se repreender, se considerar culpado.
O dia de Proust era passado da seguinte forma: cinco ou seis horas para a vida mundana, dez a doze horas para o sono ou as insónias, duas horas para os cuidados médicos, o resto para a leitura ou escrita.
“Tenho muito trabalho esta noite… Tive umas ideias”; “Armazenei tantas coisas” que tudo “fervilha”.
Ele diz ter sonhado “na primavera da adolescência” com o amor “proibido”, mas depois ficou demasiado doente: “E então vivi a vida dos outros. Vivi-a apaixonadamente”.
Considera-se que este livro mostra uma época anterior à lenda e á glória, em que Marcel Proust trazia em gestação o que virá a ser Em busca do tempo perdido. Era esse mundo chic, esta “sociedade” de que Proust foi o mais severo e apaixonado pintor.
Volta a questionar-se Peter:
“Pergunto-me como foi possível não me sentir prodigiosamente intimidado perante esse homem extraordinário. É que nesse tempo tudo o que nele havia de forças contidas dava-lhe uma conversação estonteante, tinha-se vontade, tinha-se vontade de lhe pedir mais”.
Considera que “o que vi então no tempo mais doloroso da sua vida, mas também, para nós, e para ele apesar do terrível sofrimento do seu coração, o mais proveitoso, digamo-lo corajosamente, o mais feliz, uma vez que foi aquele que permitiu a eclosão da obra incomparável”.
Proust deslocava-se no famoso fiacre: “Só se aventurava na rua munido de uma tripla armadura de acolchoado hidrófilo, roupas espessas, pesados casacos sobrepostos, gola levantada ao ponto de esconder a cara…”
“A abstinência deste rapaz tao estranho, que saía tao pouco, que não bebia, não apreciava a boa mesa, não fumava, a quem não se conhecia nenhuma ligação, prestava-se a comentários a que a imaginação dos Parisienses dava livre curso.”
Passaram muitos anos e Peter diz: “Manda-me dizer por amigos sempre coisas muito afectuosas. Condecoram-no, escrevo-lhe. É a glória! Mas já não é “aquilo”! Ele concede audiências…Vêm vê-lo dos quatro cantos do mundo. O seu prestígio é imenso. É a época em que só escreve raros bilhetes aos amigos. Por vezes, no Ritz, digna-se oferecer jantares a princesas – sem perfumes – ou a americanas riquíssimas desejosas de o ver. Mas façam o que fizerem, ninguém terá, como eu tive, uma temporada “sua”!”.
Recados de Proust a Peter:
“Meu caro René,
Estou esta noite particularmente moído de tristeza, de cansaço, de projectos de partida. Por isso, se não lhe causasse muito incómodo e pudesse vir ver-me, a sua visita seria para mim, como sempre e mais que nunca, muito especialmente preciosa.”
“Meu querido René,
Não está você espantado, chocado com o meu silêncio? Nadisso, acho-o muito natural, não é, cortês e até grato? Essencialmente! Não acha que mereço repreensão? Nadépias.
Meu querido René, se a sua deliciosa carta me tocou o coração, eu tinha jurado que esperaria que me autorizasse a servir-me da vocabulamação, essencialmente, Nadépias, que emprego sem cessar ( e mal) como um amante que pela primeira vez trata por tu a sua amada e tenta todas as frases em que o tu possa figurar. E não sou mais hábil nisto do que o poeta que “ri na tua chávena ao beijar dos teus lábios”…”
[…] Agora, René, que o felicito por ir desposar Miss Chapman, dir-lhe-ei que, se a conhecesse, felicitaria sobretudo a ela. Porque, René, deve ser tão agradável passar toda uma vida consigo!
[..] Caro René, espero que o casamento traga à sua vida a coroa de alegria e de flores que ela tanto merece. […] querido René, penso tanto em si, recebo constantemente as suas visitas em pensamento e na realidade vejo-o tao bem como se conversássemos. Possa você receber em breve o meu livro que lhe provará que não sou o último dos C…”