O incremento das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) contribuiu poderosamente para alterar os estilos de vida, desde as famílias e as cidades, até às nações, e às relações internacionais. Terá dado um grande contributo para que muita gente começasse a acreditar naquilo que se convencionou designar por globalização, entendida esta como uma tendência para uma maior aproximação entre as pessoas individuais, os povos e as culturas. É verdade que em pouco tempo se começou a perceber que os avanços neste capítulo não seriam iguais para todos, e mais: que as grandes companhias (corporations) seriam as que mais rapidamente tirariam partido das possibilidades das TIC, ficando mesmo em posição privilegiado para as controlar e monopolizar, e dominar cada vez mais toda a vida económica usando as vantagens obtidas.
Entrou-se numa fase em o económico controla o político, invadindo inclusive a esfera privada de uma maneira inimaginável para a maioria das pessoas há poucas décadas atrás. As revelações ocorridas na sequência das revelações do Wikileaks e sobretudo do caso Snowden, apesar de todos os esforços para as abafarem, mostraram até que ponto chegaram a esta invasão e a manipulação dos comportamentos, podendo-se dizer que, em conjunto, aquelas constituíram um fenómeno (mais um, dirá muita gente) de perda de inocência.
No campo político, houve e há quem defenda que as TIC e a sua divulgação são decisivas para o avanço da democracia nas nações e em todas as sociedades geral. Pensando nós que efectivamente poderão dar um contributo importante para esse avanço, não serão só por si suficientes, e poderão até ser um instrumento do agravamento das desigualdades e do domínio das pessoas por indivíduos e entidades interessados em tirar partido, de maneira abusiva, das potencialidades que oferecem. Veja-se o caso dos orçamentos participativos. Estes têm constituído uma fórmula muito interessante de institucionalizar a participação directa dos cidadãos na tomada de decisões que lhe interessam especialmente. Apesar de resistências de diversa ordem, têm sido postos em prática em várias autarquias do nosso país. Nos orçamentos anuais, a aplicação de uma parte do montante destinado aos investimentos, após discussão pública, é decidida por votação directa dos cidadãos, feita por diversos processos, através de telefone, internet e correio, que escolhem entre as propostas apresentadas por diversas entidades a que lhes parece mais interessante. Assim, em princípio, vai-se mais além da democracia representativa, passando-se a praticar a democracia participativa.
Contudo são de apontar várias limitações, desde a escassa participação que tem havido, passando pelo reduzido montante do orçamento, em termos percentuais e em valor absoluto, que é reservado à participação, até ao próprio funcionamento do sistema. Numa cidade do nosso país, já com alguma experiência do sistema, recentemente, foi posto a claro, que a proposta vencedora tinha obtido parte significativa da votação a partir de mensagens enviadas a partir de um número muito reduzido de computadores. Tratou-se de uma óbvia tentativa de manipulação, por interesses contrários ao interesse público. Será um exemplo a ter em conta para futuramente se prevenirem os abusos. As TIC podem dar um contributo importante para a participação, mas a sua aplicação requer a maior transparência e participação dos cidadãos em todas as fases do processo participativo, não apenas na sua fase final.
Sugerimos que leiam a entrevista a que se pode aceder pelo link abaixo.


A participação dos municípes , ou de quaisquer outros interessados no processo democrático, alargando a participação de base e aumentando o envolvimento dos verdadeiros destinatários, não pode ficar sujeita á manipulação que os meios tecnológicos actuais que possibilitam, numa escala que não tem precedentes, que sem qualquer moderação, validação de intenções, ou regulação de decisões, possam ser tomadas como representativas as posições de minorias de utilizadores que, em nome de uma larga maioria, expressam opiniões que podem contrariar os verdadeiros interesses.Os actuais meios tecnológicos e a vulnerabilidade do indivíduo á exposição que as redes sociais possibilitam, não são factores de esclarecimento e progresso , mas a um retrocesso civilizacional, baseado na falsa percepção de que toda a opinião conta e que toda a decisão é objecto de partilha.