Na zona euro, o comportamento do desemprego de longa duração reflecte o enviesamento da politica de austeridade – por Bill Mitchell I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Três textos esclarecedores de que a situação actual na União Europeia é o produto de circunstâncias historicamente criadas e determinadas.

 

2. Na zona euro, o comportamento do desemprego de longa duração reflecte o enviesamento da politica de austeridade

Bill Mitchell, 3 Agosto de 2015


A revista
The Economist, nunca resiste ao desejo de promover análises sobre o falhado ‘livre mercado’, mas não parece ter aprendido mesmo nada a partir das suas erradas análises sobre a grande crise financeira actual. Na sua versão mais recente do que é uma das suas piores colunas, chamada The Economist Explica (mas explicar geralmente requer conhecimento a ser transmitido) – Porque é que o desemprego de longo prazo na área do euro é tão alto (02 de Agosto de 2015), todos os mitos habituais sobre o mercado de trabalho são propagados e o óbvio é ignorado porque não cabe na posição ideológica da revista. A revista pretende “explicar” as diferenças no comportamento do desemprego de longa duração na Zona Euro relativamente aos EUA (é mais alto na Europa) em termos de mobilidade e generosidade dos esquemas de subsídios de desemprego (superiores na Europa). A verdadeira razão – uma falha em ser capaz de gerar suficiente crescimento do emprego como o resultado de diferentes concepções de política orçamental – não é nunca sondada

The Economist diz que os dados recentes “sobre o desemprego da zona do euro, divulgados em 31 de Julho … mostram que a taxa de desemprego global desceu para 11,1% a partir do seu valor de pico de 12,1% em Abril 2013 … [mas] … um outro problema na forma de desemprego de longo-termo (geralmente definida como não estando a trabalhar há mais de 12 meses) está a emergir … Dos 19 milhões de europeus desempregados, mais de metade não têm trabalho desde o ano passado. E há acima de 15% que não têm trabalho desde há mais de quatro anos.”

The Economist refere que o problema é pior na “Europa do Sul”, devido à “crise prolongada”.

A motivação para o artigo é a seguinte :

Em contraste com a zona euro, o número de pessoas que têm andado à procura de trabalho por um longo tempo na América caiu quando a sua economia recuperou; a taxa de desemprego de longo prazo está agora ligeiramente acima de 20% do total dos desempregados. Então, porque é tão difícil para os europeus regressarem ao trabalho?

O gráfico apresentado parece-se um pouco como o que se mostra abaixo, retirado do Eurostat (para os 19 países da zona do euro) e do US Bureau of Labor Statistics dados (para os EUA). O gráfico que The Economist apresenta é um pouco ambíguo, uma vez que os dados dos Estados Unidos não são apresentados numa base comparável à definição europeia quanto ao desemprego de longa duração.

Nos EUA, o desemprego de longa duração é definido como um período de desemprego de duração superior a 27 semanas e o gráfico seguinte mostra a proporção do total desta categoria de desempregados relativamente ao desemprego total, a partir do primeiro trimestre de 1997 e até ao primeiro trimestre de 2015.

Nos dados de Eurostat considera-se como períodos de desemprego de longo prazo o desemprego com mais de 50 semanas.

Pondo estas diferenças de lado, com efeito, o gráfico é muito interessante pelo que nos diz acerca dos dois mercados de trabalho em sentido amplo.

No caso da Zona Euro, a proporção do desemprego de longa duração no desemprego total caiu drasticamente no final do último ciclo antes de voltar a subir para níveis bem acima da situação de pré-crise.

No caso dos Estados Unidos, o forte aumento da proporção do desemprego de longa duração relativamente ao desemprego total em 2009 foi sem precedentes na sua história e o desemprego total continua a estar acima dos níveis de pico anteriores embora tenha caído consideravelmente desde o pico de 2011.

A comparação Economist Magazine é para expor os comportamentos muito diferentes do desemprego na zona euro a 19 países e na série temporal dos EUA ao longo do período sob a Grande crise financeira e na sua sequência.

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Para pôr os dados dos Estados Unidos no seu contexto histórico, os Estados Unidos demonstraram um modelo típico desde que os dados publicados passaram a estar disponíveis (desde Janeiro de 1948).

A proporção do desemprego de longa duração no desemprego total aumenta alguns meses depois do início de cada recessão assume depois um valor de pico e começa a descer em seguida. O segundo gráfico mostra toda a história do desemprego total no caso dos Estados Unidos (desde 1948 a Junho de 2015).

2.

A questão que se levanta é então a respeito do que é que explica o comportamento cíclico bem diferente da série do desemprego total na zona euro relativamente ao comportamento apresentado pelos Estados Unidos?

Qualquer um que compreende realmente como é que os mercados do trabalho funcionam deveria começar por examinar os fluxos de entrada e de saída do desemprego porque o pool do desemprego é uma construção heterogénea composta de coortes de diferentes duração (pessoas em fases diferentes da duração do desemprego) – a que nós podemos chamar uma sequência de “vintages diferentes”.

O mercado de trabalho está numa situação de fluxos constantes com os grandes agregados (emprego, desemprego, não incluído na população activa) a serem adicionados e subtraídos pelos fluxos de entrada e de saída destas categorias.

O pool de gente no desemprego, ele próprio, é constituído sobretudo por trabalhadores que têm estado nesta situação e em várias durações temporais. Se o desemprego fosse um fenómeno predominantemente temporário então o pool dos desempregados seria constituído por trabalhadores que transitam entre o trabalho e os períodos de desemprego a curto prazo a serem substituídos somente pela nova vaga de trabalhadores que se movem entre empregos.

Contudo, há igualmente uma componente de desemprego de longa duração, que se torna mais entranhada e dominante durante os períodos de recessão, os tais em que os trabalhadores que entram na situação de desempregados passam longos períodos nessa situação até que alguns sejam classificados como desempregados de longa duração (períodos superiores a 12 meses de desemprego).

Pensemos no seguinte exemplo estilizado que mostra uma posição depois de 14 meses de desemprego continuamente a crescer. Imagine que não há nenhum desemprego na posição inicial do nosso exercício. Então, por cada mês, uma coorte transforma-se em coorte de gente desempregada e permanece nesse estado ao longo de meses sucessivos (não há nenhuma saída nos desempregados). Depois do segundo mês, a primeira coorte está desempregada há 2 meses, e assim sucessivamente.

Ao chegar ao 13º mês, a primeira coorte transforma-se em desempregados de longa duração com o desemprego de curto prazo a aumentar, como acontece igualmente com o desemprego total. No final do 14º mês, as primeiras três coortes são classificadas agora como desempregados de longa duração (segmentos azuis) e o desemprego total aumenta mais ainda.

Se a economia falha em bloquear o fluxo de entrada no desemprego, cada coorte sucessiva mover-se-á firmemente para a situação de limite de passagem a desemprego de longa duração, ultrapassa-o e o desemprego total aumenta progressivamente.

Mais, nos primeiros dias de uma retoma da economia, o desemprego total aumentará se as saídas incidem no conjunto do desemprego primeiramente sobre os desempregados de curta duração. Mas eventualmente, ambos os conjuntos serão alterados se a recuperação da economia se reforçar e o desemprego global cair em geral.

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A explicação de The Economist para o comportamento de divergência do desemprego global na zona euro relativamente aos Estados Unidos é um pouco curiosa dado que deixa de fora a parte óbvia da história como explicação.

A revista diz: uma “parte da razão da divergência encontra-se na mobilidade diferente do trabalho” – é mais alta nos Estados Unidos do que é na Europa.

Porquê? “As barreiras linguísticas, as diferenças culturais e as qualificações não-transferíveis” na Europa tornam a mobilidade bem mais difícil.

E… supõe-se o quê? … “os generosos subsídios de desemprego na Europa também amarram igualmente os trabalhadores a um lugar e tornam a obtenção de um emprego menos urgente”.

Este é o argumento neo-liberal de base – que os rendimentos de apoio dados aos desempregados subvencionam o desemprego e reduzem a intensidade da procura de emprego.

 

(continua)

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