JULINHO DA CONCERTINA – CABO VERDE EM LISBOA, DIA 21 DE AGOSTO

caboverde21

Julinho da Concertina vai estar a tocar no “Lisboa na Rua” dia 21 de Agosto, no Museu do Chiado às 19H30.

Nascido em Piloncan, concelho da Calheta de São Miguel, ilha de Santaigo, Julinho da Concertina desde cedo descobriu a paixão pela música, pela concertina, instrumento que adoptou logo que pôde e afina a seu jeito e, ao longo destas décadas, o tem acompanhado pelos palcos do mundo na divulgação da música cabo-verdiana.

SONY DSC
SONY DSC

Emigrou para Portugal em 1973. Viveu quase sempre, da música, tocando ao lado de muitos músicos afamados e participou em concursos.

No site http://www.gaitadefoles.pt/tocardeouvido/concertina.htm, encontrámos o seguinte texto de Artur Fernandes sobre “A Concertina em Cabo Verde” :

“Nestas coisas da tradição oral é muito difícil obter provas, mas sabe-se que o acordeão terá chegado ao Brasil (Rio Grande do Sul) na década de 50 do sec.XIX, levado por emigrantes alemães e italianos (marcas Hohner e Paolo Soprani) e só terá chegado a Portugal na década de 90.

Quanto a Cabo Verde não há registos para além da oralidade (que cai muito facilmente no domínio da lenda). Estas informações nunca referem marinheiros portugueses, mas sim franceses (até há algumas histórias de piratas).

Efectivamente na patente da invenção do Acordeão (Demian – Áustria) são referidos os aspectos da portabilidade e do custo como vantajosos em relação ao órgão. Mas na prática, como se tornou rapidamente num instrumento muito popular, associado à ruralidade, fica umbilicalmente ligado às danças tradicionais. O repertório do acordeão, logo desde início, são géneros coreográficos.

Como a dança era considerada uma coisa proscrita pela Igreja Católica, o instrumento era perseguido pelos padres (e muitas vezes apreendido), até porque o tocador no adro da igreja lhes roubava “clientes” para a Missa… (Este cenário foi comum em Portugal, França, Itália, País Basco, Brasil, etc).

Em Cabo Verde mais motivos houve para esta má relação entre Igreja Católica e Acordeão; a repressão de todas as manifestações de origem africana que a Igreja Católica levou a cabo em Cabo Verde, deram origem ao batuco tocado em toalhas, por exemplo e o ao uso do ferro no Funaná (uma faca de cozinha a raspar numa barra de ferro duma cama), em vez de um reco-reco.

Também por isso, se deu a prevalência da Morna e da Coladeira (urbanos e de influências europeias) em relação ao Funaná, Batuco, Kola San Jon, (rurais e de influências africanas). Esta situação só começaria a inverter-se depois da independência. O grande responsável pela “redescoberta” da música rural Cabo-verdiana é o precocemente falecido Katchass (Carlos Martins) dos Bulimundo, que incorporaram ritmos e harmonias do Funaná, Batuco e outros. Mais tarde os “Simentera” continuam este percurso numa vertente acústica.

O Funaná é também um género coreográfico tipicamente africano de pares e bastante sensual (como o tango, mas muito mais explícito), é cantado em crioulo (geralmente o tocador da “gaita”, acordeão diatónico). Os padrões harmónicos são modais contrariamente ao que seriam as harmonias tonais dos coros religiosos e os padrões rítmicos são sincopados, “uptime” e repetidos obstinadamente. Estas características, afastam a probabilidade do Funaná ter nascido a partir dos coros religiosos.

Como em outros países com músicas tradicionais de transmissão oral, o Funaná esteve quase a desaparecer no final dos anos 70 do sec. XX. Como foi referido atrás, foi muito importante o trabalho do Katchass nos Bulimundo, para que o Funaná não morresse. Foi ele que “descobriu” o Kodé di Dona, que mais tarde viria a gravar para a etiqueta Ocora da Radio France.

É então que no decorrer dos anos 80 muitos tocadores voltam a fazer bailes de Funaná, depois de terem parado.

Com a evolução dos meios técnicos, muitos tocadores gravam CD’s: Bitorinha Bibinha, Sema Lopi e Julinho da concertina (este residente em Portugal) entre outros.

Até que aparecem os Ferro Gaita (finais da década de 90) a combinarem a Gaita e o Ferro com o Baixo eléctrico e a Caixa de ritmos (“Drum machine”) – à semelhança do que os Bulimundo já tinham feito – e tornam-se rapidamente um fenómeno de popularidade.

Um aspecto importante na cultura Cabo-verdiana é que todos parecem ser músicos! Toda a gente sabe “dar um jeito” num instrumento qualquer. E com o advento das gravações acessíveis de CD, ter um CD gravado é quase como ter um Bilhete de Identidade. Assim, hoje proliferam dezenas de CD’s de Funaná, com Ferro, Gaita, Baixo eléctrico, Caixa de Ritmos. Até o próprio Kodé di Dona, depois do “acústico” para a Ocora já gravou (salvo erro, em 2001) Funaná Eléctrico. De referir que este movimento, a par do Batuco, centra-se essencialmente na ilha de Santiago, em oposição à Morna e Coladeira, mais centradas em S. Vicente. Este é mais um aspecto da rivalidade entre Mindelo (S. Vicente) e Praia (Santiago).

Artur Fernandes

Leave a Reply